Imunidade em conjunto

A imunidade de grupo é, portanto, uma imunidade indirecta, conseguida ao estar-se rodeado de pessoas imunes à doença que, mesmo em contacto com o vírus, vão travá-lo. Esta é especialmente essencial para proteger grupos vulneráveis de pessoas que, por várias razões, não podem ser vacinadas.

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LUSA/Luis Eduardo Noriega

Nos últimos meses a pandemia transformou a nossa vida, as nossas rotinas, e, inevitavelmente, os temas de conversa entre qualquer grupo de amigos. Como bioquímicas (e amigas há muito tempo), dificilmente imaginaríamos que as nossas conversas, que entre as coisas mais banais tantas vezes iam parar à ciência, passariam de simples trocas de ideias a algo tão real.

Num mesmo objectivo de fazer frente ao novo coronavírus, uma em Portugal a fazer Comunicação de Ciência, e outra nos Países Baixos a fazer o doutoramento em Infecção e Imunidade, assistimos e acabamos por questionar as diferentes estratégias de combate e de gestão do contágio. A imunologia tomou conta das conversas, demos por nós a rever conceitos, a tentar perceber como os tornar claros e a ter mais dúvidas que certezas. Do isolamento social à busca pela vacina, pela normalidade e pela tão desejada imunidade de grupo

Mas, afinal, o que tem de grupo esta imunidade? Vivemos em comunidade, em grupo, e se fizermos o exercício de contar com quantas pessoas contactamos por dia, chegaremos certamente a um número elevado. Muitos vírus e bactérias são transmitidos de pessoa para pessoa, criando então a cadeia de transmissão que só pode ser travada se evitarmos este contacto (o mote do isolamento), ou se algumas dessas pessoas estiverem imunes à doença. A questão é que a probabilidade de transmissão varia de vírus para vírus — e este ainda é um desconhecido para nós. É aqui que pode surgir a razão para que, em primeira instância, governos tenham olhado para esta pandemia com diferentes abordagens.

Olhamos agora para a vacina como a solução mandatória e tal decisão está relacionada com o número que invadiu os nossos dias, o R0, número básico de reprodução. Este R0 é igual ao número de pessoas que, em média, cada um de nós pode infectar. Mas este não é um número estático para cada vírus ou bactéria; o nosso comportamento ou factores ambientais podem influenciá-lo. No entanto, este é um número chave para percebermos que percentagem da população precisa de ser imunizada para conseguirmos controlar uma epidemia. 

Por exemplo, se o R0 for igual a 2, numa população susceptível à doença, cada pessoa pode infectar duas outras pessoas (em média). Mas, se mais de 50% da população for imune a esta doença, cada pessoa apenas a pode transmitir, em média, a uma única pessoa. Assim, este número passa a ser inferior a 1 e a transmissão da doença é travada. E é aqui queremos todos chegar, e também é aqui que entra o conceito de imunidade de grupo.

Atingimos a imunidade de grupo quando uma grande fatia da população é imune à doença, será até uma percentagem menor do que 100% mas é o suficiente para parar a transmissão da doença. A imunidade de grupo é, portanto, uma imunidade indirecta, que se ganha ao estar-se rodeado de pessoas imunes à doença, que mesmo em contacto com o vírus vão travá-lo. Esta é especialmente essencial para proteger grupos vulneráveis de pessoas que, por várias razões, não podem ser vacinadas. Racional e até emocionalmente, sabemos que o melhor é evitar o risco de contrair a doença ou de a transmitir aos outros.

Voltamos ao início da questão e das diferentes visões. A imunidade de grupo pode conseguir-se de duas formas, através do contacto directo com o microrganismo causador de doença ou por meio de vacinação. Ao contactar directamente com o microrganismo ou o “inimigo”, o nosso sistema imunitário, “os soldados do nosso corpo”, aprende a combatê-lo em pleno campo de batalha. Assim, como é um inimigo real, nunca antes visto, esta é uma batalha dura e muito difícil de travar, o que resulta no desenvolvimento de sintomas severos. Esta forma de criar imunidade é, portanto, associada a alta mortalidade. Já ao tomarmos uma vacina, primeiro, ensinamos aos nossos soldados a produzir anticorpos ou “ferramentas” que vão ser essenciais na luta contra o verdadeiro inimigo. Depois, caso tenhamos contacto com a ameaça real, temos tudo preparado para ganhar a batalha e sair ilesos, ou seja, conseguimos prevenir o desenvolvimento de doença. Embora existam vários tipos de vacinas (microrganismo atenuado, inactivo, ou apenas numa pequena porção ou toxina enfraquecida produzida por ele), estas consistem sempre numa forma não patogénica do microrganismo e, desta forma, a imunidade é adquirida de uma maneira bastante mais segura e controlada.

No final das contas, das várias abordagens ou visões, é importante não esquecer que grupo significa também conjunto, um conjunto de pessoas que formam um todo. E neste todo, todos somos responsáveis por nos proteger, para proteger os nossos e os outros. Não sabemos o que as próximas conversas nos reservam ou que desafios nos esperam, mas sabemos pelo menos que a ciência estará sempre na base das nossas questões e das nossas respostas.

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