Impacto da desinformação na saúde premiado pelo Ministério da Saúde

Prémio em Bioética João Lobo Antunes é atribuído pela primeira vez e distinguiu uma investigação sobre o impacto das fake news na saúde.

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Gonçalo Dias

O trabalho “Desinformação e saúde: uma perspectiva bioética” é o vencedor do Prémio em Bioética João Lobo Antunes 2020, um galardão no valor de dez mil euros concedido pelo Ministério da Saúde. Esta é a segunda edição deste prémio, mas a primeira vez que é de facto atribuído. Ao longo desta investigação, Francisco Goiana da Silva (médico e gestor na Sonae MC, do grupo Sonae, detentor do PÚBLICO), João Guedes Marecos (advogado, fundador da Ockham Legal e co-autor da página “Os Truques da Imprensa Portuguesa”) e Oliver Bartlett (professor na área da ética na Universidade de Maynooth, na Irlanda) tentam entender o impacto da desinformação na saúde e sugerem soluções.

Francisco Goiana da Silva refere que este trabalho tinha dois grandes objectivos: sinalizar o impacto da desinformação na área da saúde e lançar bases de análise desse fenómeno. Como tal, em Janeiro, mapearam-se conclusões de estudos nesta área que mostraram que artigos noticiosos relacionados com saúde e estilos de vida são “extraordinariamente populares” e chegam a milhões de pessoas em todo o mundo, o que afecta os seus comportamentos.

Mas, o médico indica que uma análise à qualidade e precisão científica desses artigos também mostrou que contêm “frequentemente informação errada e potencialmente perigosa para a saúde dos indivíduos e para a saúde colectiva”. “Esta é uma realidade que a actual pandemia veio pôr a nu, mas que já se verificava em relação a fenómenos como a vacinação, a obesidade, a nutrição, o consumo de álcool e outras substâncias, o consumo do sal ou do açúcar”, assinala.

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Francisco Goiana da Silva, um dos autores do trabalho DR

O artigo aponta ainda que este problema deve ser solucionado através de três actores. Primeiro, os governos devem desenvolver uma regulação que ajude a indústria dos media a auto-regular-se, devem garantir o direito à liberdade de expressão e imprensa, bem como actualizar a legislação em vigor no sentido de responsabilizar os novos veículos de informação digitais informais, como influencers. Depois, a indústria dos media deve desenvolver uma plataforma que envolva representantes dos media e autoridades de saúde para que se supervisione a situação ao nível da desinformação (sempre tendo em conta a auto-regulação). Por fim, os cidadãos devem ser capacitados para que consigam identificar e escolher fontes fiáveis de informação de saúde.

Nas conclusões do artigo lê-se que este trabalho pretende ser “um ponto de partida para uma discussão e plano de acção mais alargados: é necessário agir, desde a recolha de evidência científica até à construção de políticas governamentais, esquemas de auto-regulação da indústria e iniciativas da sociedade civil; muitas iniciativas podem e devem ser tomadas para desvendar os custos ocultos da desinformação”.

Contactos com a OMS

Como este trabalho foi agora distinguido com este prémio caberá ao Ministério da Saúde a sua publicação, de acordo com Francisco Goiana da Silva. O Prémio em Bioética João Lobo Antunes pretende distinguir a apresentação de estudos e trabalhos de investigação originais em temas de ética que abranjam as áreas da medicina, saúde pública, biologia ou ciências da vida. A este prémio podem concorrer pessoas até aos 35 anos. Presidido por Maria de Belém Roseira, o júri contou com nomes como Jorge Soares, Paula Martinho da Silva, Fernando de Jesus Regateiro e Walter Osswald.

Francisco Goiana da Silva e João Marecos também desafiaram a Organização Mundial da Saúde a aprofundar este tema a nível internacional e a fazerem parte de grupos de trabalho. A OMS mostrou interesse na sua participação e ambos começarão a colaborar com a organização como consultores nas próximas semanas. Concretamente, irão fazer reuniões com representantes dos media, governos e sociedade civil.

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