Estudo: testes à covid-19 deram positivo para metade das pessoas sem sintomas nem contactos de “risco”

“Por cada caso sintomático, haverá quatro, cinco ou talvez mais casos de infecção que passam sem sintomas”, conclui o presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto. Quanto menos escolarizadas, mais medo as pessoas sentem e mais procuram fazer o teste.

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Quase metade das pessoas assintomáticas estavam infectadas com o coronavírus PAULO PIMENTA

As pessoas que apresentam os sintomas mais frequentemente associados à covid-19 (febre, tosse ou dificuldade respiratória) não são aquelas com mais diagnósticos positivos. Pelo contrário, a maior proporção de testes positivos ocorreu entre pessoas que nunca chegaram a manifestar qualquer sintoma nem tiveram qualquer contacto com casos suspeitos ou confirmados de covid-19, segundo o mais recente relatório do estudo Diários de uma Pandemia, uma iniciativa do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), que conta com o apoio do PÚBLICO.

“Para cada caso sintomático, haverá quatro, cinco ou talvez mais casos de infecção que passam sem sintomas”, conclui Henrique Barros, presidente do ISPUP, especialista em saúde pública e epidemiologista, numa leitura dos resultados aos inquéritos feitos a uma amostra (dinâmica e não representativa da população) de 11.125 indivíduos. Destes, 8613 pessoas declararam nunca ter tido contacto pessoal com casos suspeitos ou confirmados de covid-19 nem desenvolveram quaisquer sintomas. Ainda assim, fosse por terem uma maior percepção de risco ou por usarem mais os transportes públicos, por exemplo, 187 decidiram fazer o teste para o SARS-CoV-2 E quase metade (48,7%) estava infectada.

“É verdade que o teste pode ser falsamente positivo e até com uma frequência superior ao desejado nas condições de ‘vida real’ que diferem das situações ideais de laboratório”, começa por ressalvar Henrique Barros. Para o epidemiologista, porém, a lição mais plausível a retirar destes números é que o número de infectados entre a população portuguesa é muito superior aos casos confirmados. “Os números oficiais são feitos com base em casos sintomáticos – e começam agora a ser ‘contaminados’ pelos casos assintomáticos por causa dos rastreios [nos lares de idosos e nas creches, por exemplo]. Mas é óbvio que não podemos andar a fazer rastreios à população toda”, contextualiza.

Ainda assim, o epidemiologista defende que o país tem de ser mais liberal na realização destes testes de rastreio e diagnóstico. “No início, éramos muito mais críticos e selectivos com a realização dos testes, de acordo com o que sabíamos sobre o coronavírus e com a disponibilidade dos testes, que era menor, mas é importante que agora sejamos muito mais liberais. Se fizermos mais testes, vamos encontrar mais gente positiva e isso vai contribuir para ‘segurar’ melhor as cadeias de transmissão”, defende.

Henrique Barros não acredita, ainda assim, que quando as autoridades sanitárias se puserem a testar a imunidade da população com recurso aos testes serológicos que detectam a presença de antivírus, o que deverá acontecer já nos próximos dias, possamos deparar-nos com altos níveis de imunidade. “Não me parece que possa acontecer aqui o que aconteceu em Nova Iorque, nos Estados Unidos, ou nalgumas cidades da Lombardia, em Itália, onde as cadeias de contacto foram brutais e, portanto, a proporção de infectados assintomáticos é muito alta. Arriscaria dizer que ficaremos abaixo dos 2% a nível nacional”, antecipa, admitindo que os valores possam ser ligeiramente superiores em cidades como Lisboa, Porto e Gaia, onde há muitos casos confirmados.

Hipervalorização dos sintomas

Entre os mais de 11 mil inquiridos, 2512 pessoas declararam ter tido sintomas como tosse, febre e dificuldade respiratória e/ou contactos com pessoas suspeitas ou infectadas pelo coronavírus. Apesar disso, apenas 282 foram fazer o teste de diagnóstico. A um nível mais microscópico, entre as 295 pessoas que aos sintomas somaram os contactos com casos de risco reconhecido, apenas 73 fizeram um teste. Porquê? “Uma das razões é que, na fase inicial, não bastava ter sintomas para se conseguir fazer o teste. Era preciso ter o chamado link epidemiológico. Se a pessoa não tivesse saído do país nem estado com alguém que tivesse vindo de Itália, mandavam-na tomar ben-u-ron e ficar em casa”, recorda o presidente do ISPUP.

Por outro lado (em claro contraste com os 48,7% de casos positivos detectados entre os assintomáticos sem qualquer contacto conhecido com pessoas infectadas), entre as 282 pessoas que apresentavam sintomas ou contactos “de risco”, a proporção de resultados positivos foi inferior ao expectável: 37% para os que tinham sintomas e contactos, 21% para os que só tinham sintomas e, finalmente, 32,5% para os que tinham tido contactos com casos suspeitos ou confirmados de covid-19.

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Explicações possíveis? Há aqui também o risco de haver “falsos negativos”, mais não fosse porque “quando a pessoa sintomática fez o teste, já tinha passado a fase em que estava a excretar o vírus”. Mas Henrique Barros admite que muitas pessoas tenham hipervalorizado os sintomas que as levaram a fazer o teste. “Como estão preocupadas, as pessoas podem estar a valorizar qualquer tosse que, se calhar, não tem valor. A sensação de falta de ar também é subjectiva – a ansiedade gera falta de ar. A febre é mais difícil de valorizar subjectivamente, mas também pode ter um componente psicogénico”, acrescenta o especialista em saúde pública, para concluir que “a percepção individual do risco pode não ser nestes casos uma boa conselheira”.

Menos escolarizados testam mais

O estudo Diários de uma Pandemia também permitiu detectar gradientes sociais entre as pessoas que decidem fazer o teste para a detecção da infecção pelo coronavírus. Entre os 469 inquiridos que fizeram pelo menos um teste para a infecção – numa proporção de 4,2%, ligeiramente acima dos 3,1% até agora descritos para a população total portuguesa , há mais mulheres do que homens, sobretudo na chamada “meia-idade”. Por outro lado, houve mais gente a procurar fazer o teste entre os menos escolarizados. Entre os detentores de um doutoramento, a proporção dos que fizeram o teste foi de 2,5%, contra os 4,1% dos que tinham o secundário ou menos.

“Quanto mais escolarizadas, mais as pessoas estão em casa em teletrabalho e em menos risco se sentem. Já sabíamos, de amostras anteriores, que as pessoas que percepcionam mais risco testam mais e que há uma relação clara entre sair de casa e o medo de ser infectado”, sublinha Henrique Barros, para reforçar que “as pessoas que têm profissões tradicionalmente menos diferenciadas e um grau de instrução formal menor tendem a ter mais medo, provavelmente porque sentem que não terão a literacia para medirem verdadeiramente o risco”.

Por outro lado, e como seria de esperar, testa mais quem tem profissões ligadas à saúde e ao apoio social. A boa notícia aqui é que “a frequência de testes positivos foi significativamente mais baixa” entre estes profissionais. “Isto mostra que, mesmo perante situações de maior exposição ao risco, o conhecimento e a aplicação das medidas de prevenção levam a um menor risco de adquirir a infecção”, conclui o estudo.

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