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Rossana Ribeiro e Ana Neiva nunca se tinham cruzado Paulo Pimenta
Covid-19

No Porto, duas estranhas escrevem um poema à janela — e tornam-se vizinhas

Um “Olá, como estás?” afixado numa janela deu origem a um poema escrito a quatro mãos há várias semanas. Sempre à janela e à distância, por duas desconhecidas que entretanto já têm nome – e que prometem trocar ficheiros Autocad. Uma história de vizinhança em dias de pandemia.

Rossana Ribeiro já estava há uns quantos dias em casa. A Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto, onde está a fazer o mestrado em Cenografia, fora das primeiras instituições a encerrar portas por causa da covid-19; logo, também ela fora das primeiras pessoas a habituar-se à ideia de viver entre paredes, praticamente sozinha. Não é, por isso, de estranhar que por alturas da entrada em vigor do estado de emergência, a 19 de Março, a arquitecta de 33 anos, que estava a conciliar projectos como freelancer com o (agora sumido) alojamento local, já oscilasse entre estados de “muita ansiedade”, a pensar que “o mundo iria acabar”, e outros de relativa “calma”, ao mesmo tempo que via notícias algo luminosas sobre “comunidades que se criavam à janela” noutros países.

Assim, num “acto de desespero”, decidiu ver se “haveria mais alguém na rua a sentir-se desesperado”. Na sexta-feira, dia 20, colava na janela do seu 3.º andar no centro do Porto uma mensagem: “Olá, como estás?”. Do outro lado da rua, a resposta não tardou – ou melhor, as respostas. A primeira, afixada à janela de um hostel (“Aborrecidas, e você?”), que quedou mudo e de portas fechadas dias depois; a segunda, num 1.º andar do prédio em frente (“Olá, vai ficar tudo bem. Vizinhos top” – e um coraçãozinho). 

Escrevera-a Ana Neiva, também ela arquitecta (coincidências), também ela a atravessar longos e repetitivos dias de isolamento (coincidências), apenas com a companhia da gata Miu. “Eu já estava em casa há umas duas semanas e, para mim, a fase mais dramática emocionalmente foi num fim-de-semana em que dei por mim a pensar que aquele domingo ia ser o início de mais um ciclo infinito”, recorda. 

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Rossana vive na rua há seis anos Paulo Pimenta
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Ana vive há nove Paulo Pimenta

Segunda-feira, num dia igual a tantos outros, lá teria de se sentar em frente ao computador, em vez de se dirigir à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, para dar as suas aulas por videoconferência. Tudo iria começar outra vez. “E isto já vinha de trás, de um ano em que estive muito tempo fechada em casa a terminar o doutoramento. Sentia uma espécie de revolta: 2020 não deveria ser assim.” Estava um dia “escuro, de chuva”, quando foi à janela e viu uma mensagem em forma de aceno. “Eu pensei: uau!”, reage, entusiasmada. Depressa respondeu. E, iniciado o diálogo, pulsou a veia poética do prédio em frente: “Fazemos um poema?”

Começava assim uma composição, escrita a quatro mãos, por duas perfeitas desconhecidas, que agora, de máscaras postas e devidas distâncias acauteladas, recordam a história ao P3. É o primeiro encontro presencial na rua onde ambas vivem há uma data de tempo (Rossana há seis anos, Ana há nove) e onde nunca se tinham cruzado. Não tanto porque a rua não seja habitada ou esteja repleta de alojamentos locais. Antes porque, consideram, “não há o hábito de estar à janela ou à varanda”, algo que o confinamento veio mudar; e porque por ali não há muito comércio de proximidade que favoreça a “interacção”.

O Porto adormeceu/ Embalado pelo canto das suas janelas” foram os primeiros versos. “Embalagem que canta,/ Na esquina precisa que precisa delas” os segundos. Já se falou do São João (“Morte ao vírus já, venham os pimentos assados”), de dor (“Morte adiada, prisão prolongada”), de desamor (“Festas proibidas, beijos e gestos interrompidas”), de esperança (“Amanhã é quase amanhã”). Mas talvez o lirismo, a métrica ou o ritmo sejam o que menos importa, até porque “a dimensão da janela condiciona muito”, adverte Rossana (“Isso foi muito arquitectónico”, reage, entre risos, a vizinha). Mesmo que a primeira tenha alguns livros de poesia na mesinha de cabeceira (Al Berto, Alexandre O'Neill, Carl Sandburg) e a segunda tenha acabado de comprar uma “catrefada” deles (entre os quais de Carlos Drummond de Andrade, Rainer Maria Rilke, Filipa Leal e Rui Caeiro).

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Escrever um poema à janela foi, no fundo, “a maneira mais básica” que Rossana encontrou para “interagir com outra pessoa com uma dinâmica de brincadeira e beleza porque num poema podes dizer tudo o que te apetece sem ser interpretado de forma literal”. E os versos sucederam-se em catadupa. “Durante essas primeiras duas semanas escrevíamos quase diariamente”, diz Ana. “E o pico alto dos meus dias era quando eu ia à janela e via uma resposta. Era a interacção mais próxima que eu tinha com alguém. É que fazes uma videochamada, bebes um copo com os amigos à distância, mas é diferente ter alguém assim a poucos metros, e ainda por cima com uma resposta totalmente inesperada.”

Assim permaneceram, por algum tempo, sem saber quem estava do outro lado e sem apanharem o poema em construção. Viram-se pela primeira vez à distância quando Ana veio à janela mostrar ao fotojornalista Tiago Lopes a que objectos se estava a agarrar durante a quarentena (lápis de cor e um rato). E depois, claro, sinal dos tempos, entraram em acção as redes sociais: um amigo em comum, alguém que acompanha as partilhas de ambas e as põe em contacto. 

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Salsa ou um ficheiro Autocad?

O poema continua, ainda que com menos sofreguidão  até quando, não se sabe. Quando ambas sentirem que está terminado, talvez ou os marcadores falharem de vez. O gesto, entretanto, inspirou outros. A vizinha de cima de Rossana tem colocado várias mensagens à janela. A mesma que lhe telefonou, preocupada, ao ler um dos seus versos mais negros: “Ligou a perguntar se estava tudo bem. Nem sei como conseguiu o meu número.”

Será que esta crise pode mudar as relações entre vizinhos? “É necessariamente nos momentos mais difíceis que se propicia maior solidariedade entre as pessoas”, admite a arquitecta. “Pode ajudar a que as pessoas se conheçam um bocadinho melhor, mas daí a efectivamente mudar hábitos de vizinhança… não sei.” Ana corrobora: “Se não conheceres as pessoas, dificilmente algo muda. Pode-se é desenvolver uma relação mais próxima com as pessoas que estão no teu circuito.” E, espera, com “os negócios de proximidade e locais”: “Por todas as razões: não têm estrutura para suportar uma crise como esta, é mais seguro ir lá, estabelece-se uma teia de confiança.” 

Sobre isto de trocar cartas com uma desconhecida tornada vizinha, Rossana confessa, num sorriso, olhando para a interlocutora: “Era mais engraçado quando não sabia quem tu eras.” Ana concorda: “Eu também senti isso.” Continua a primeira: “Fiquei supercontente quando me enviaram o teu [perfil no] Instagram, achei incrível! (...) Mas é diferente, muda alguma coisa. Ganhei uma vizinha, mas perdeu-se o mistério.” E agora? Vão trocar raminhos de salsa ou ficam-se pelos poemas? “Eu ia levar-lhe bolachas no último fim-de-semana, mas pensei: eu não a conheço de lado nenhum, chego lá com bolachas, vai achar que é creepy”, diz Ana, para gáudio da assistência  e deixando a promessa de nova tentativa de entrega. “Emprestar salsa não é muito a minha onda…”, admite Rossana. “Se precisares de papel vegetal…”, sugere Ana. “Um ficheiro Autocad”, brinca a outra. “A planta topográfica do Porto. Isso são coisas que os arquitectos precisam. Agora salsa...”

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