Editorial

Os que não serão desconfinados

É insustentável que não exista um plano para os mais frágeis dos mais frágeis: os velhos que vivem em lares têm que ter uma resposta da qual depende também a sua sobrevivência. Não se morre só de covid-19 – às vezes morre-se mais de mágoa.

O alívio do desconfinamento começa amanhã. Houve um plano – bem feito – para a retoma gradual da economia. Existe um projecto para fazer regressar as pessoas às empresas e às escolas. Até foi possível comemorar o 1.º de Maio na rua (um paradoxo quando os ajuntamentos estão proibidos e a circulação entre concelhos interdita). Mas não há qualquer plano para devolver aos velhos que vivem em lares um módico minimal de vida.

Não é aceitável que não haja, pelo menos, uma ideia. Um calendário. Uma luz sobre o assunto. Não há nada. Estão a começar os testes a funcionários. É evidente que a questão é delicada, difícil e não tem soluções instantâneas, mas não é aceitável que depois de um mês e meio fechados sem ver ninguém, os idosos que habitam em lares estejam condenados a permanecer em isolamento e a ver o calvário continuar sem fim à vista. Os mais confinados dos confinados estão agora fora do plano de desconfinamento.  

Os velhos são particulares vítimas da covid-19. Não só fazem parte do grupo de risco em que a doença é potencialmente fatal como, em alguns momentos desta crise, começaram a ver surgir o desejo de vários responsáveis políticos de lhes condicionarem os movimentos e estilhaçarem os direitos, liberdades e garantias com o objectivo de os “proteger”. Aliás, o bondoso objectivo de “protecção” tem escondido algumas evidentes, outras menos evidentes, tentativas de discriminação de uma faixa etária, aquela que já era mais sensível e de risco na era pré-covid. Independentemente do que se pense sobre a celebração do 1.º de Maio da CGTP na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, quando se pergunta a Jerónimo de Sousa o que é que está ali a fazer, uma vez que tem 73 anos, isto é o quê?

Neste mês e meio de estado de emergência o país não parou. Foi possível conseguir um grau alto de “confinamento” com a manutenção de todas as actividades essenciais. É bom que Costa tenha acentuado que não terá “rebuço” de fazer marcha atrás se se provar que o próximo passo se revele um falhanço. Há novos desafios: vai começar a perceber-se melhor o impacto do modo de gerir o vírus na saúde mental. E até haver vacina os riscos não acabaram.

Mas é verdadeiramente insustentável que não exista um plano para os mais frágeis dos mais frágeis: os velhos que vivem em lares têm que ter uma resposta da qual depende também a sua sobrevivência. Não se morre só de covid-19 – às vezes morre-se mais de mágoa.

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