Liana celebra a Terra-Mãe num disco marcado pela maternidade

Num Dia da Mãe diferente dos anteriores, a fadista lança um novo álbum atravessado pela experiência da maternidade e que celebra o respeito pelo planeta. O seu nome: Mãe.

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Liana Luís Azevedo Silva

Foi mãe de gémeos em 2015 e três anos depois começou a arquitectar um disco que reflectisse a marca dessa experiência de maternidade e que ao mesmo tempo abarcasse outras causas que a ocupam, como a defesa do ambiente ou dos direitos dos animais. O resultado foi Mãe, que devia ter sido lançado no Dia da Árvore e que agora surge adequado a outra data: o Dia da Mãe. E que já foi antecipado em dois videoclipes: Notícia de abertura e Velha mãe.

Nascida em Coimbra, a 27 de Dezembro de 1979, Liana veio para Lisboa ainda bebé. Vivia num bairro sem tradição fadista, às portas de Lisboa, ao pé de Odivelas, mas já trauteava fados. “Sobretudo Amália, mas também ouvia muito Fernanda Maria e fadistas como Fernando Farinha, uma grata memória”, diz ela ao PÚBLICO. “Ouvia-se muito a rádio e a rádio passava muito fado.” Influenciada pela família, sobretudo pela avó, cantou em público pela primeira vez na Grande Noite do Fado, em 1989. E nem sequer foi um fado. “Tenho memória de que estava completamente descompassada. Porque nunca tinha cantado com guitarristas. Tenho uma fotografia, com os olhos muito abertos, muito nervosa. Não cantei um fado, cantei a Mala de cartão da Linda de Suza, mas com uma letra feita por mim, com nove anos.” Mas venceu mais tarde a Grande Noite do Fado, em 1994 e em 1996, gravando então duas cassetes: Foi Deus e Barco Negro.

“O meu primeiro caminho foi o das associações, em Alfama, já nos bairros típicos, e depois as casas de fado. Não só em Lisboa como nos arredores, porque havia muito fado a acontecer em Vila Franca [de Xira], Amora, Setúbal.” No ano 2000, defendeu no 37.º Festival RTP da Canção, entre oito canções concorrentes, Sonhos mágicos, com letra de Maria da Conceição Norte ​e música de Gerardo Rodrigues. E saiu vencedora, embora não tenha ido à Eurovisão, porque em 1999 Portugal ficou classificado em 21.º lugar, não atingindo a classificação necessária​ para concorrer no ano seguinte.

Nesse mesmo ano de 2000, Filipe La Féria convidou-a para fazer de Amália jovem no musical Amália e aí ficou até 2005. “Isso trouxe-me um maior reconhecimento mas também me tirou oportunidades. Porque a Amália morreu em 1999, houve um sentimento de orfandade do público e foi aí que surgiram muitos dos nomes que ainda temos hoje. E eu estava fechada naquele círculo. Mas não por me fecharem, fui eu própria que me fechei, não estou a culpar ninguém.”

Dez anos depois, em 2010, voltaria a ser convidada por La Féria, desta feita para interpretar Severa e Hermínia Silva no musical Fado, História de um Povo. Mas entretanto já crescera: “Nesse interregno, tinha estado a tentar aprender a ser eu própria. Porque entrei relativamente nova, ou pelo menos relativamente ingénua, no Amália, e adaptei-me muito rapidamente à personagem. Mas depois tinha uma ânsia muito grande de ser eu, de me redescobrir e perceber como era estar em palco já com os ensinamentos todos.”

Um duplo significado

Pelo meio, Liana integrou o quarteto Stockholm Lisboa Project, como vocalista, com o qual gravou dois discos, Sol (2007) e Diagonal (2009), tendo actuado em vários países (Europa, América do Norte e do Sul, Médio Oriente), até que, por razões familiares, quis regressar a Lisboa para acompanhar a avó, na altura muito doente. E dedicou-lhe até uma das canções de Sol, Amélia. “É uma figura recorrente nas minhas cantigas, porque de certa forma foi ela que me ensinou a cantar e que me instigou a ter esta vida.” A solo, gravaria depois três discos: Fado.pt (2004), Sombra (2005), e Embalo (2013).

Em 2015, Liana iniciou um interregno dedicado à maternidade e há dois anos começou a trabalhar no novo disco. “Quis deixar-lhes algo, enquanto mãe, mas algo que pudesse também chegar a outros. E o nome Mãe vem com um duplo significado, porque foi feito por causa da minha maternidade e também da forma como comecei a ver o mundo e a querer mudá-lo, vindo daí o segundo significado, o de Mãe-Terra, onde se cruzam todas as histórias de todos nós.”

O disco tem letras e composições de autores como António Zambujo, Pedro da Silva Martins (Deolinda), Tiago Torres da Silva, José Rebola (Anaquim), Nuno Figueiredo (Virgem Suta), Nuno Nazareth Fernandes, Carlos Baleia, Custódio Castelo, Mário Pacheco, António Dias e Pedro Pinhal. E Liana assina quatro letras e uma música. “Precisava de colocar os meus sentimentos, e só os vi através das minhas palavras”, diz ela. É o que sucede em Direito de vida (sobre a ética animal) ou Imagina a infância (sobre a educação, com música de Custódio Castelo): “Agora tenho os meus dois filhos em casa, não vão à creche, estou eu a cuidar deles e a ensiná-los e provavelmente assim vão continuar. Também aqui não estava encontrar pessoas que escrevessem sobre o que eu sinto no dia-a-dia e o que me é querido.” Mas também na canção Mãe.

Velha mãe, de Tiago Torres da Silva, foi musicada por ela: “Diz ‘A porta aberta ao que há-de vir/ E ter a porta aberta já é tanto’, que é uma das frases mais especiais do disco. Vi nessa porta aberta uma forma de estar no decurso da minha vida, e nela está uma simbologia muito importante do que quero passar aos meus filhos e a mim própria: viver o que o momento nos traz, mas sem deixar de o tentar reconstruir e dar-lhe novas cores. Há outra frase, também, nesse poema, que é ‘O tempo só se faz tempo/ Se alguém o chamar.’É algo muito triste e muito importante, acerca do envelhecimento.”

Crítica e contestação

Com um bom naipe de músicos (José Manuel Neto na guitarra portuguesa, Pedro Jóia na guitarra clássica, Marino de Freitas no baixo acústico, Sertório Calado na percussão, Nelson Ferreira no violoncelo e Tiago Machado, que é também o produtor, no piano e no acordeão), o disco tem canções de crítica social, envoltas em ironia, como Notícia de abertura ou De mal a pior, e fecha com a canção Que força é essa, que Sérgio Godinho gravou no seu primeiro álbum, em 1971: “É o único tema não original. Gosto muito de música de intervenção, de cantautores portugueses, e essa música, especificamente, era a que ligava todas as outras. Porque no fundo a grande pergunta é o que é que nos leva a continuarmos a morrer num caminho que não nos satisfaz. Todos os factores que cantei antes conduzem a essa pergunta, incluindo o do planeta, o caminho que estamos a levar, na sua não-sustentabilidade. Quando a canção foi feita, ela tinha muito a ver com o proletariado, mas a verdade é que continuamos a ser um novo tipo de escravos numa sociedade escrava de si própria, da sua falta de tempo, da sua necessidade de afirmação e de consumo. E a pergunta final tem de ser interior, a pessoa tem de se questionar a si própria porque é que se comporta assim e não de outra forma.”

PÚBLICO -
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A capa do disco

O disco era para ser lançado a 20 de Março, Dia da Árvore. “Todos somos algum tipo de árvore, com raízes, rebentos, ramos, todas essas analogias. Mas não foi possível, devido à actual situação [da covid-19]. Agora temos um Dia da Mãe que vai ser passado de forma muito diferente dos anteriores, porque, como a maioria dos dias de celebração, ele transformou-se num antro de consumo onde os verdadeiros sentimentos estão muito esquecidos e neste momento, que estamos em pausa, vamos vivê-lo de modo diferente. Vamos ver que porta aberta nos traz para os Dias da Mãe que viveremos no futuro.”

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