A Covid-19 e a estreita intimidade entre Passado, Presente e Futuro

A epidemia de Covid-19, na sua intensa estranheza e nas consequências nefastas que presenciamos, forçará uma inevitável e bem-vinda alteração substancial da Vida.

Nunca como nesta situação de confinamento, incluída num grupo de risco, me mantive tão atenta a pormenores, constatando, com uma nitidez que até aí não sentira, a abissal diferença entre um jornalismo profissionalmente honesto, sério na informação e respeitador do leitor e um que tenta conscientemente desinformar, confundir e desnortear até ao pânico. Pensar nesta dualidade, tão intensamente em antítese, e nas funestas consequências para quem, incauto, se deixa conduzir, levou-me de forma espontânea ao passado, forçosamente aos mais velhos. Lembrei-me, nesse momento, sentindo renovada e profunda gratidão, de todos aqueles que, pela sua postura, na Vida e na Escola, me haviam ensinado desde sempre a pensar, alertando-me para que nunca permitisse que outros o fizessem por mim. Sei que a sua interferência na formação e desenvolvimento da minha personalidade foi crucial e daí a impossibilidade de os esquecer, e a gratidão, a imensa gratidão! que o Tempo não cessa de intensificar.

Na minha memória passam, em grande saudade, inúmeros rostos, alguns já desaparecidos, com destaque superlativo para os meus pais, seguindo-se a minha professora de Português e de Grego, no Liceu Rainha D. Amélia, Georgette Costa, a minha Professora de Latim, no mesmo liceu, Manuela da Palma Carlos, o meu Professor de Linguística, na Faculdade de Letras de Lisboa, Lindley Cintra, e outros, felizmente ainda entre nós, como a minha professora de Francês, também no liceu anteriormente referido, Maria Alzira Seixo, que depois reencontrei na Faculdade de Letras, e o meu Professor de Literatura Francesa, na mesma Faculdade, o poeta Manuel Gusmão. Seja em matéria relacionada com o Outro, ou qualquer aspecto da Condição Humana, seja sobre a imperiosa necessidade de um Ensino de qualidade e de uma Cultura não transformada em espectáculo e mero entretenimento, seja ainda em relação a um Acordo Ortográfico decretado em nome de uma pseudo-vantagem económica, ao arrepio da vontade dos portugueses e colidindo com toda a argumentação científica, sei que em todas estas matérias, e muitas outras, em que intervenho criticamente, a minha voz não é só, porquanto reflexo de inúmeras influências, passadas e presentes, que a fortaleceram e fortalecem, sendo seguro que continuarão a acompanhar-me. Tal como as vozes que pelo canto ligaram toda uma geração e às quais, a tantos anos de distância, permanecemos fiéis. Arrepia-se-nos a pele no reencontro com essas velhas canções cujas letras profundamente influenciaram a nossa forma de olhar o mundo de então e que, em grande saudade, ouvimos insistentemente, servindo-nos da internet da qual nunca esperámos vir a depender tanto, confinados que estamos em casa. E eles são, entre muitos, Jacques Brel, Jean Ferrat, Bob Dylan, Joan Baez, Simon & Garfunkel ou Peter, Paul and Mary, desejando partilhar convosco uma canção destes últimos, Where have all the flowers gone. Ainda para os avós que, como eu, deixaram de poder abraçar e beijar com ternura os seus netos, Mary Travers (do grupo Peter, Paul and Mary), numa música de John Denver, For Baby. Todos pertencendo à “geração grisalha” e alguns já não entre nós, como é o caso de Mary Travers.

Uma longa introdução para lembrar aos que proclamam uma melhoria da situação, com o desaparecimento dos velhos (seja em prol de um Ensino, dito “inovador”, ou do êxito de uma economia liberal e desumana, ou ainda no cumprimento acrítico do novo Acordo Ortográfico), que todos nós, ao nascer, somos, como naturalmente constatou Hannah Arendt, recebidos pelos mais velhos que nos protegem e educam. É esta a única harmonia possível, na vida de todo o ser humano – uma estreita intimidade entre Passado, Presente e Futuro.

São vários os artigos de opinião, nacionais e estrangeiros, que lucidamente ousam indicar a imperiosa mudança que deverá acontecer, fruto desta experiência tão inesperada, com a Covid-19, mas não é certo que muitos políticos, nacionais e estrangeiros, afogados em pretenso “progresso” e crescimento desenfreado, no uso de um vocabulário que evoca a nova Economia e que poderemos exemplificar pelo verbo “elencar” e o substantivo “competitividade”, venham a aperceber-se dessa óbvia necessidade de transformação, de recuo da loucura em que estamos envolvidos, e daí a urgente necessidade de sermos nós, cidadãos, contínua e criticamente, a lembrá-lo.

Não basta elogiar de forma intensa o Serviço Nacional de Saúde (SNS), seja qual for o país, ou aplaudir, com emoção, médicos, enfermeiros e pessoal afim, ou dizer que à sua actuação devemos a vida; exige-se, mais do que nunca, que se responda favoravelmente a quem in loco sente, no dia-a-dia, os problemas, para os quais, e muito antes do surto epidémico, o SNS chamara a atenção, infelizmente em vão. Não significa que não se tivesse investido, sobretudo depois de uma austeridade imperdoável e brutal, mas constatou-se não ter sido o suficiente e conhecemos a origem desse travão que não pode mais ser tolerado, sob condição de se tornarem uma hipocrisia insuportável os sucessivos agradecimentos e aplausos, ostensivamente dirigidos a todos os profissionais do SNS que, não discriminando pessoa alguma, e superando-se humanamente, têm sido determinantes no atenuar do pesadelo que todos vivemos. Por alguma razão, em todo o Mundo, acontecem, amiúde, os aplausos sentidos e genuínos da população ao SNS.

Foram os portugueses aconselhados, há já bastantes anos, a viver, em grande parte, de uma economia de turismo a qual se tornou selvagem pelo que representa de destruição do ambiente e da vida das pessoas, com um aumento desmedido de rendas e despejos, a que se juntou o desconcerto de filas intermináveis para visitar alguns monumentos, nomeadamente os claustros do Mosteiro dos Jerónimos ou a Torre de Belém, vedados, por completo, e desde há anos, aos residentes. Também o terreno agrícola fértil tem sido alvo da ganância turística e imobiliária, sob o olhar complacente do poder político, esquecido que em momentos de crise não podemos depender exclusivamente de alimentos importados. A serra de Carnaxide, de “grande importância ecológica e ambiental”, é um flagrante exemplo de um espaço desprotegido porque não classificado, fazendo “os seus solos parte dos 5% de solos muito férteis que Portugal possui”. Entretanto, aproveitando-se do confinamento das pessoas, os trabalhos de loteamento e urbanização avançaram na sua gritante destruição, sobrepondo-se o gesto vil às vozes dos que não traem o Conhecimento, a sua consciência e a sua solidariedade com os que persistem nas causas em que se empenham. Destacamos, neste caso, os investigadores da área do Ambiente e Alterações Climáticas, Filipe Duarte Santos, Eugénio Sequeira e Jorge Fernandes (este último, Professor destacado na Liga para a Protecção da Natureza). Há uma petição, “Preservar a Serra de Carnaxide”, sendo o seu primeiro subscritor Daniel Martins, que acentua o facto de “isto não ser uma questão local”, mas “uma questão nacional.” Concordando com o seu conteúdo, ajude a divulgá-la e, para um melhor conhecimento da situação, aconselha-se a leitura do artigo de João Pedro Pincha, no jornal Público de 1 de Abril p.p..

Quando se abdica de estudos de impacto ambiental ou se solicitam os mesmos a equipas “voz-do-dono”, numa atitude inqualificável, quando se tenta entreter indeterminadamente movimentos ecológicos que persistem na defesa da Natureza, casa de todos nós, negando-se o diálogo e fazendo-se simultaneamente tábua rasa dos pareceres críticos apresentados, ou quando se tenta “convencer pedagogicamente” presidentes de Câmara, que se opõem à construção do aeroporto, no Montijo, mediante alguns favores a conceder, em troca do almejado sim, estamos perante uma democracia doente, que a realidade pós-Covid deverá sanar e em cujo processo de transformação deveremos igualmente participar.

Os desafios são inúmeros e incontornável será a questão relativa à perda de importância da Dignidade Humana, na sociedade globalizante, fortemente determinada por um novo modelo de Economia que tem aviltado, ao longo de demasiados anos, a vida das pessoas, ofendendo de forma ostensiva o seu significado etimológico: do grego oikonomy (oikós - casa - + némein - distribuir). A Economia focada no ser humano não pode pugnar por baixos salários, nem por excesso de trabalho e de cansaço, nem pelo isolamento da família; não pode aceitar toda uma luta pela sobrevivência diária ou a concentração da riqueza numa minoria, já de si enriquecida. Deve contrariar o excesso de taxas bancárias cuja justificação assenta no absurdo ou o mau funcionamento dos Serviços Públicos por manifesta falta de pessoal ou a ganância que não olha a meios para atingir lucros rápidos, espezinhando a Ética, ou ainda a obsessão pelo crescimento, seja a que custo for.

A epidemia de Covid-19, na sua intensa estranheza e nas consequências nefastas que, incrédulos, presenciamos, forçará uma inevitável e bem-vinda alteração substancial da Vida. Houve demasiados erros para não se aprender com eles. Sobretudo, não desejamos continuar a adaptarmo-nos a uma sociedade doente, em que a Ética escasseia, precisamente porque indiferente à Dignidade Humana.