Os millennials preparam-se para a segunda crise das suas vidas

Depois de começarem a procurar emprego num mercado sem oportunidades, os nascidos nos anos 80 e inícios de 90 enfrentam agora o “segundo tombo” nas suas curtas e instáveis carreiras. Algo “inédito numa geração”, diz quem os investiga. “Um grande azar”, auguram eles.

Ricardo Dias percebeu como um vírus que nunca o infectou o pode afectar “a 100%”. “Desde 14 de Março até data incerta”, conta o músico, agente e roadie, que não há concertos para dar ou ajudar a acontecer. Tal como não há turistas para receber, acrescenta noutra chamada telefónica Marisa Ferreira. “Estava de férias em Itália, no final de Janeiro, quando comecei a preparar-me mentalmente. Percebi que viria uma crise muito pior do que em 2008.”

PÚBLICO - Ricardo Dias, músico, <i>roadie</i> e produtor está desde 14 de Março sem concertos (e sem rendimentos).
Ricardo Dias, músico, roadie e produtor está desde 14 de Março sem concertos (e sem rendimentos). Ricardo Dias
PÚBLICO - Marisa Ferreira, 34 anos, trabalha numa empresa de alojamento local no Porto. Todos os 15 apartamentos estão vazios.
Marisa Ferreira, 34 anos, trabalha numa empresa de alojamento local no Porto. Todos os 15 apartamentos estão vazios. DR
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Ricardo Dias

Aos 34 anos, a recessão ainda está viva na memória da mestre em Comunicação Política que participou na organização dos protestos contra a falta de oportunidades e a precariedade de 12 de Março de 2011, tida como a maior manifestação não vinculada a partidos políticos desde a Revolução dos Cravos.

O “grito de revolta” da altura, no entanto, é agora mais um suspiro de conformismo. “A origem desta crise é completamente diferente da outra”, começa por distinguir Marisa Ferreira. E depois, o que economistas e sociólogos têm vindo a descrever como “inédito”, citados da norte-americana Atlantic ao espanhol El País, é para as pessoas nascidas nos anos 80 e 90 “só mais um grande azar”.

“Uma geração que tem uma transição para o mercado de trabalho muito precária, com percursos instáveis, dificuldade em compatibilizar emprego e família e que sofre duas crises no espaço de dez anos como as que estamos a enfrentar, em democracia, é inédito”, repete ao P3 Pedro Adão e Silva, sociólogo e docente universitário.

Numa crise que “não tem um efeito simétrico”, continua, a vulnerabilidade anda de mãos dadas com “o tipo de sector onde trabalham e o tipo de vínculo laboral que têm”. “Normalmente, estas duas dimensões estão interligadas”, lembra um dos autores do estudo Trabalho e Desigualdades no Grande Confinamento – perda de rendimento e transição para o teletrabalho. Principal conclusão: jovens são os mais ameaçados pelo desemprego e pela pobreza.

“Nós sabemos que os níveis de precariedade em Portugal são uma marca estrutural do nosso mercado de trabalho. E afectam particularmente os que entraram mais recentemente no mercado de trabalho e acumulam vulnerabilidades porque não só têm vínculos precários como uma parte significativa deles, mesmo os qualificados, trabalham em sectores particularmente expostos a uma crise como esta”, enquadra o sociólogo. “Porque mesmo que a economia comece a recuperar, há sectores onde foi criado muito emprego em Portugal na última década e esses sectores não vão recuperar ao ritmo de outros. Quem está a trabalhar em sectores ligados ao turismo, à restauração, e a um conjunto de actividades que dependem e que foram alavancadas por estes sectores, tenderá a sofrer mais os efeitos da crise.”

PÚBLICO -
Tiago Lopes

A “quebra total” nos rendimentos do trabalhador da área do espectáculo — que, enquanto não recebe respostas aos pedidos de apoio à quebra de actividade, vai vendendo vinis de edições limitadas e amealhando o que ainda está por receber de trabalhos anteriores à paragem provocada pelo novo coronavírus — não é significativa, para já, nos rendimentos da funcionária de uma pequena empresa de alojamento local do Porto, que entrou em lay off.

Alguns anos depois de sair à rua com os que se popularizaram como Geração à Rasca, numa altura em que trabalhava em jornalismo a recibos verdes, Marisa Ferreira trabalhou dois anos num talho. O dono, o pai, ofereceu-lhe o “primeiro contracto de trabalho”. Há cinco anos, agarrou-se à “tábua de salvação” do turismo. Faz trabalho de escritório e abre as portas aos hóspedes temporários de 15 apartamentos na baixa do Porto.

Olhando para as reservas no início do ano, esperava trabalho “como nunca”. Mas o dia 18 de Março foi o último em que algum dos apartamentos esteve ocupado. Por agora, só em Agosto é que Marisa terá turistas para receber. “Foi um tombo gigante”, resume, o segundo para muitos jovens adultos que integram a mancha heterogénea habitualmente pintada como millennials.

Enquanto Marisa Ferreira se manifestava nas ruas pouco tempo depois de entrar no mercado de trabalho, Ricardo Dias, em conjunto com 40 colegas, preparava-se para abandonar o departamento financeiro de uma empresa de engenharia em que “as obras públicas estagnadas” levaram à estagnação do pagamento de salários durante meses. Em muitos aspectos, sente-se “a voltar a esses anos”. “Passei por um despedimento colectivo, em 2012 reergui-me, 2020 volto a tombar, sem aviso. Acredito que há empresas que não vão recuperar desta e artistas que não voltam. Ao mesmo tempo, não podemos encarar esta paragem como o fim.”

“Isto é tudo novo, ninguém estava preparado para que, de um momento para o outro, o país parasse”, continua Ricardo, que tem aproveitado para passar mais tempo com o filho. A incerteza impede que muitos planos, profissionais e pessoais, avancem. “Os quotidianos instáveis e incertos são uma experiência muito marcante. E estamos aqui todos a perspectivar quotidianos muito indeterminados. Pura e simplesmente não sabemos como as coisas vão evoluir e o que vai acontecer”, comenta Pedro Adão e Silva. Se com o grande confinamento e a pandemia de covid-19 “os jovens adultos provavelmente vão ver intensificadas aquilo que já eram as marcas do seu quotidiano”, a precariedade “tenderá a marcar o quotidiano de mais portugueses”. É isso que os “choques” fazem, lembra o sociólogo: “reforçam tendências que já existiam”, tornando “mais presentes aspectos e características que afectavam apenas alguns grupos”.

“Hoje em dia tenho mais experiência profissional. Arrisquei e procurei trabalhar noutras coisas. Tenho muito medo do que aí vem, não vou dizer o contrário. Mas compreendo”, diz Marisa Ferreira, que antecipa uma possível viragem temporária para acomodar turistas nacionais ou alojamento de longa duração. “Nós já estamos habituados, sempre tivemos de lutar. É mais uma luta.” No seu caso, e reconhecendo um certo humor negro, com mais uma arma em relação às anteriores: “tenho direito ao fundo do desemprego”.