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Sem encontros e com a vida sexual “estagnada”. Como é o online dating em pandemia?

Fechados em casa, os utilizadores das aplicações de encontros deslizam o dedo para um lado e para o outro. Se o tempo livre motiva alguns a procurar companhia, para outros é cada vez mais aborrecido usar apps de dating. Fala-se da covid-19, nem que seja de passagem. É que, em tempos de pandemia, encontros amorosos só online. Ou nem isso?

Vimos as noites de copos passarem para o Houseparty, as reuniões de trabalho para o Zoom e a escola para a televisão. O surto de coronavírus virou o mundo de pernas para o ar e mudou a forma como interagimos, socializamos, e até “flirtamos”. Mas se a nova normalidade é digital, há antigos normais que já o eram: é o caso das aplicações de dating, que, antes de o distanciamento social ser mainstream, já baseavam o seu funcionamento nesta ideia — pelo menos numa primeira fase da interacção entre utilizadores, e ainda que não pensássemos nelas desta forma.

Mas, em tempos de pandemia, também estas apps tiveram que se reinventar. Foram elas próprias que pediram aos utilizadores que adaptassem os seus encontros à realidade que os rodeava. Isto é: nada de encontros cara a cara. Deram alternativas e sugeriram que o jantar à luz de velas fosse substituído por um de câmara apontada. E algumas, como o Tinder, permitiram que os utilizadores alterassem a sua localização para poderem conhecer pessoas de outros países sem precisarem de aderir ao serviço premium, como normalmente acontecia. Mas será que os utilizadores se adaptaram? Como anda o dating em tempos de pandemia?

Luís (nome fictício) tem 32 anos e “há aproximadamente três” utiliza apps de encontros. Já passou pelo Grindr, mas agora está mais pelo Tinder. Revela que, no seu caso, “as conversas e matches online são comuns, mas um encontro já não é tanto” — principalmente em período de quarentena. “Nunca mais me encontrei com ninguém”, lamenta. O que não significa que tenha descartado a app. Pelo contrário, admite estar a passar mais tempo do que o habitual a fazer swipes. O motivo é simples: “Tenho mais tempo livre.”

A percepção que tem é a de que “há muito mais gente online”. Ideia semelhante à de Tatiana, 31 anos, que acredita que “houve uma maior adesão ao Tinder” desde que começou o período de quarentena: “Muitas pessoas confessaram instalar [a app] para passar o tempo.” E Pedro, 27 anos, também assegura que “a pandemia foi uma justificação para as pessoas passarem a usar mais o Tinder”.

Mas, apesar de percepcionar que há mais utilizadores online, Tatiana sente que “o conteúdo da conversa passou a ser pouco entusiasmante e desinteressante, talvez devido à impossibilidade de ocorrerem encontros”. E dá o seu próprio caso como exemplo: “Normalmente inicio conversas, mas confesso que me tem faltado a vontade.” As interacções, afiança, são “mais rápidas e o vírus vem sempre à conversa”, o que acaba por tornar a conversa “repetitiva”. “‘Estou farto de estar em casa’, ‘O que tens feito? Casa’, ‘Como tens passado o tempo? Nada de mais’”, exemplifica. Motivo que a levou, ao contrário de Luís, a passar menos tempo na app desde que o confinamento começou.

Dados do Tinder enviados ao P3 dizem que a utilização da aplicação a nível global não registou diminuição, “apesar da distância social”. Pelo contrário, a 29 de Março, um domingo, “verificou-se o maior número de swipes de sempre na história do Tinder” — foram mais de três mil milhões. Nesse mesmo dia, também a app Her registou o “melhor dia do ano”, sem quantificar o número de swipes. Ao P3, a Her disse ter notado “um pico bastante alto em termos de utilização” desde o início da quarentena. O Grindr não disponibilizou dados.

Mas há mais fenómenos a acontecer. “À medida que uma área se torna mais afectada por medidas de isolamento social, vemos novas conversas a acontecer naquela zona”, escreve o Tinder. A própria duração das conversas tem registado um “aumento significativo”: são entre 10 a 20% mais longas, em comparação com as de Fevereiro último. No caso da Her, verificou-se um aumento de 15% em “conversas bem sucedidas durante o fim-de-semana” e um “enorme crescimento” em duas comunidades (a app tem comunidades onde os utilizadores fazem publicações e discutem diferentes tópicos): “Mindfulness and Wellbeing” e “Over 40s”.

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“Acho que as pessoas estão aborrecidas e até deprimidas, então aproveitam para falar com desconhecidos sobre os problemas e as ansiedades que as afligem”, começa Luís. Por isso, acredita, “estão bem mais comunicativas e receptivas a falar”. Deixou de existir a “incompatibilidade de horários” e “as conversas já não ficam tão esquecidas”. “As pessoas falam da quarentena e de como isso as afectou”, conta.

Pedro acredita que o tema “covid-19” pode ser um quebra-gelo útil para “estabelecer uma base sólida de conversa”. Mas, tal como Tatiana, defende não ser “um assunto que se desenvolva muito” — para além de que “há redes mais interessantes para discutir a covid-19”.

E depois da pandemia?

Rita Sepúlveda, investigadora do MediaLab Iscte, relembra, num artigo publicado a 14 de Abril, que são várias “as motivações que os utilizadores indicam para usar os serviços de online dating”. “Se entre elas se destacam conhecer alguém com quem formar um relacionamento, independentemente da natureza ou carácter, ou ter sexo, também existem aqueles utilizadores cuja principal razão para usar é estar entretido ou ter companhia”, lê-se no artigo Online dating em tempos de covid-19: um processo de reimaginação de serviços e práticas. E, em tempos de confinamento, com os contactos limitados às pessoas que vivem no mesmo espaço, estas apps podem mostrar-se particularmente úteis, mesmo que não seja para falar só sobre a pandemia — tal como dizia Luís.

Onde o tema da pandemia parece ser predominante é nas pequenas descrições que os utilizadores colocam nos seus perfis. Numa breve viagem pelo Tinder, Pedro vai fazendo swipes. Vão surgindo frases como: “A tentar ter uma quarentena menos boring” ou “I’m corona free” ("Estou livre de corona”, em português). De facto, dados do Tinder mostram que perguntas como “estás bem?” ou “como te sentes?” têm vindo a aumentar, ao mesmo tempo que expressões com a palavra “care” (cuidar, em português) estão agora entre 10 a 30% mais presentes nas biografias dos utilizadores, em comparação com o que acontecia no início de Março.

Desde o início da pandemia, Pedro começou também a verificar a presença de muitos utilizadores que estão fora do seu raio de alcance, especialmente do Brasil. “Provavelmente pela questão da língua”, adivinha. A possibilidade de mudar a localização sem qualquer custo acrescido foi uma das estratégias do Tinder para se adaptar aos novos tempos. O Badoo, por exemplo, publicou um tutorial na página de Instagram onde explica como usar a videochamada, acompanhado da hashtag #DateHonestly.

Apesar dos esforços das aplicações em se adaptarem ao novo contexto, “não é possível ignorar que a covid-19 tem imposto desafios no âmbito da intimidade, incluindo em contextos de online dating”, escreve Rita Sepúlveda. “Estamos, portanto, perante mudanças, ainda que temporárias, do que são as interacções normalizadas e padronizados do romance, da intimidade, mas também do sexo.”

Facto confirmado pelos três jovens, que admitem ter, neste momento, uma vida sexual completamente “estagnada”. “O isolamento assim o obriga”, constata Tatiana. Luís acredita que esta realidade não atinge apenas os utilizadores das apps, mas “todos aqueles que são solteiros e estão a cumprir o confinamento”. Os encontros por videochamada sugeridos pelas aplicações não aconteceram com nenhum dos três jovens e as conversas que iniciaram ficaram sempre pelo chat — ainda que com a promessa de passar para outro plano assim que possível.

Mas, antes dessa passagem, há questões que se impõem, levantadas pela investigadora: “Estará a intimidade envolvida em novos valores nos quais o digital e as tecnologias de informação e comunicação terão um peso cada vez maiores? O conjunto de comportamentos adoptados em contexto de covid-19, que incluem práticas específicas, serão transpostos para o futuro, moldando-os?”

Porque, relembra, num momento em que o “online dating parece mais do que nunca imitar experiências offline, com o recurso à internet a alterar como a intimidade é gerida e negociada”, não podemos esquecer que, “em contextos de online dating, as impressões que cada utilizador tem sobre o outro são construídas através de um perfil, composto por fotografias estáticas, ou, no melhor dos casos, um vídeo de poucos segundos”. E no contexto actual, “as possibilidades de transformação de um perfil numa pessoa real parecem mais complexas”.

Por isso mesmo, Tatiana anseia “que as coisas voltem à normalidade”, para poder ter os encontros que entretanto ficaram pendentes. “E, quem sabe, conhecer o meu príncipe encantado”, brinca. Luís não pede tanto, mas garante: “Já tenho um café marcado para quando isto acabar.”