Máscaras sociais reutilizáveis: como higienizá-las?

Com o início de um progressivo desconfinamento e a falta de máscaras de protecção individual, as máscaras sociais reutilizáveis vão sair à rua. Como proceder a uma limpeza eficaz e segura?

“Pessoas pertencentes aos grupos de risco devem sempre que possível utilizar máscaras cirúrgicas”
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“Pessoas pertencentes aos grupos de risco devem sempre que possível utilizar máscaras cirúrgicas” Paulo Pimenta

A máscara social, i.e., elaborada a partir de têxteis, é um último recurso e não substitui nenhuma das outras medidas — distanciamento, etiqueta respiratória, lavagem de mãos e o não levar estas últimas à cara. Mas, com a falta de equipamento de protecção individual, nomeadamente de máscaras cirúrgicas ou de respiradores N95 ou FFP2 de uso único, as máscaras costuradas em tecido tornaram-se populares. No entanto, uma má utilização pode encerrar vários perigos, sendo essencial conhecer a melhor forma de proceder à sua manutenção e higiene.

“Uma máscara deverá ser tratada como uma peça de roupa interior: lavar ao fim da utilização”, sintetiza Ricardo Mexia, médico de Saúde Pública do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa), que indica que a componente de tecido da máscara deverá “ser lavável” e aguentar elevadas temperaturas (pelo menos 60 graus).

É a essa temperatura que a professora auxiliar de Microbiologia e Imunologia na Faculdade de Medicina Veterinária, Manuela Oliveira, aconselha para higienizar as máscaras reutilizáveis. “As máscaras sociais devem ser preferencialmente lavadas na máquina de lavar, utilizando o detergente habitual e uma temperatura de 60ºC.”

No entanto, dificilmente se farão máquinas de roupa diárias a essa temperatura. Por isso, a mesma docente indica que as máscaras “podem também ser lavadas à mão, com água e sabão, e neste caso devem ser deixadas de molho durante um período de 20 a 30 minutos”.

Ainda assim, a responsável avisa: “É importante referir que máscaras sociais não são a melhor opção para pessoas pertencentes aos grupos de risco  [que] devem sempre que possível utilizar máscaras cirúrgicas.”

Nem álcool, nem lixívia

O álcool e a lixívia são várias vezes apontados como soluções para desinfectar as máscaras. No entanto, “apesar de o álcool e a lixívia serem produtos eficazes na eliminação deste vírus, não devem ser utilizados na higienização de máscaras de tecido”. Isto, porque, explica Manuela Oliveira, “além de alterarem as características do tecido, poderão provocar problemas respiratórios”.

A mesma indica que as máscaras “devem ser secas ao ar e não na máquina de secar, e podem ser passadas a ferro”. Ao fim deste processo, caso não seja para utilizar de imediato, “devem ser armazenadas numa bolsa lavada e fechada”.

Uma bolsa própria é, aliás, onde devem ser transportadas, sempre que necessário, “fechada e não directamente no bolso ou dentro da mala”. “Tanto os bolsos como as malas contêm muitos outros microrganismos que queremos evitar que entrem em contacto directo com zonas que lhes permitem entrada directa no nosso organismo, como é o caso da boca, do nariz e os olhos”, explica.

As máscaras sociais, ainda que reutilizáveis, não serão eternas e devem ser “substituídas assim que o tecido apresentar alterações ou deformações que impeçam que se mantenham aderentes à face”. De acordo com o Centro Tecnológico das Indústrias do Têxtil e do Vestuário​, em Portugal, até dia 29 de Abril, tinham sido aprovadas 71 máscaras comunitárias fabricadas por empresas portuguesas, mas nenhuma mantém as suas propriedades protectoras acima das 15 lavagens.​ Relativamente às caseiras, com menor eficácia de protecção do que aquelas, a frequência da substituição dependerá da qualidade do tecido e dos elásticos, mas “prevê-se que este tipo de máscaras aguente cerca de 30 lavagens antes de apresentarem alterações”.

Sobre os materiais a serem usados, a mesma responsável indica “preferencialmente tecidos hidrofóbicos repelentes à água como alguns tipos de tecido não tecido (TNT)”, adiantando que “as máscaras de algodão deverão incluir várias camadas de tecido”. Entre essas camadas, acrescenta Ricardo Mexia, deverá estar o filtro.

Para quem tenha de passar muitas horas de máscara social, o médico do Insa alerta para a necessidade de substituir o filtro descartável. “Dependerá da utilização”, mas, “uma vez húmido, perde a eficácia” — nessa altura, e após ter todos os cuidados com a lavagem das mãos, o filtro (que pode ser composto por duas folhas de papel de cozinha e um lenço de papel descartável ou ser construído a partir de um filtro de café) deve ser mudado.

Quanto à opção por tecidos estampados, qualquer dos especialistas não vê inconveniente desde que a estampagem não interfira com a respirabilidade. O mesmo não acontece com as pintadas à mão. “Têm de ser tintas que não gerem irritações, além de poder comprometer a respirabilidade”, adverte Ricardo Mexia. A professora de Microbiologia concorda: “Os tecidos estampados não devem constituir um problema, uma vez que os fabricantes de tecidos devem garantir que estes não causam alergia, mas os tecidos pintados à mão devem ser evitados, porque poderão causar problemas respiratórios.”

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