CARTAS DE MÃE E FILHA EM TEMPOS DE QUARENTENA

Dia 32: As mães têm de ser chatas... e as filhas também!

Uma mãe/avó e uma filha/mãe falam de educação. De birras e mal-entendidos, de raivas e perplexidades, mas também dos momentos bons. Para avós e mães, separadas pela quarentena, e não só.

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@DESIGNER.SANDRAF

Querida Filha,

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Em vésperas de Dia da Mãe fui buscar uma birra antiga, que resultou numa crónica do tempo em que não havia redes sociais. Tu e os teus irmãos foram a causa, evidentemente, mas nunca conversámos sobre esta minha ideia desde que és mãe e eu quero a tua opinião:

“Uma mãe tem de ser chata. Até à hora da morte. E até depois disso: mesmo quando já se tiver mudado de armas e bagagens para o Paraíso, uma progenitora digna desse nome continua a dar ordens e a mandar vestir um casaquinho nos dias em que ameaça chover.

Uma mãe de jeito tem de pregar insuportáveis sermões, deve vender os seus valores e convicções sem medo de estar a ser politicamente incorrecta, confirmar se as unhas estão cortadas, apagar a televisão a meio de um episódio emocionante, desligando sem remorsos o computador se alguma das criaturas se recusa a ir para a cama, por se julgar na obrigação de pôr a conversa em dia com todas as amigas e inimigas.

Uma mãe pode e deve mandar colocar a loiça na máquina, arrumar o quarto, e não se deve comover nem um bocadinho quando ele/ela lhe diz que ‘todos os outros pais deixam!’. Tem também de aceitar que lhe chamem ‘forreta’ — afinal o que é que lhe custava tirar 20 euros do multibanco para a entrada numa discoteca — e aceitar que ‘não percebe nada de nada!’.

As mães são velhas, ponto final. E de alguém que sobreviveu à Idade da Pedra não se podem esperar conselhos úteis ao século XXI. As mães, além de chatas, forretas e velhas gagás, também estão sempre em falta: ou não marcaram uma consulta, ou foram (ou não foram) a uma reunião da escola, ou falaram alto de mais na rua, ou baixo de mais no supermercado.

É que se as mães não forem chatas, nunca poderão tirar a prova dos nove. E a prova dos nove é ter filhos que refilam, protestam e se recusam a submeter-se à sua autoridade, ou seja, filhos dignos desse nome. Por isso, mães de todo o mundo unam-se para lhes darem cabo do juízo. É uma obrigação patriótica, se não queremos um planeta invadido por atadinhos, mal-educados, que cospem na sopa e não ajudam as velhinhas a atravessar a rua.”


Querida Mãe,

PÚBLICO -
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Conheço bem essa sua birra, mas agora sou eu que estou ensanduichada entre ser filha e mãe! O meu lado mãe já fez cartazes e tudo: “Orgulhosamente Chata”, e junto-me ao movimento sem pensar duas vezes. E nem vou ter que me esforçar... É só acordar de manhã e deixar o dia correr.

Agora, o meu lado filha, esse está a preparar a contramanifestação! O manifesto já corre as redes sociais:

“Carta Aberta às Mães Chatas,

Uma filha de jeito tem de ser teimosa, ter um bocadinho a mania que sabe mais do que a mãe. Desde o primeiro dia da sua vida e até ao fim dos seus dias, tem como missão carregar nos botões mais sensíveis da sua progenitora. Deve bater com a porta do quarto, acusar o mundo inteiro de lhe estar a arruinar a vida e rolar os olhos pelo menos três a quatro vezes por dia.

Mesmo já crescida não deve ter medo de usar o sarcasmo como resposta e de se juntar aos irmãos para gozar com as fragilidades da mãe. Deve ser profundamente grata, lá no fundo dos fundos, mas raramente o mostrar e gastar horas em terapia a dissecar tudo o que é culpa de quem a deu à luz.

Uma boa filha, jurará a pés juntos nunca vir a ser igual à mãe — principalmente no que toca aos filhos —, enquanto distraidamente vai deixando cair os clichés, as frases e os gestos que toda a vida viu e ouviu à sua mãe.

Uma filha à séria, por mais idade que tenha, vai ser eternamente ingénua, e só vai ‘perceber quando for mais velha’, vai estar sempre em falta porque não seguiu os conselhos maternos, não tirou o curso que devia, nunca se arranja como deve ser e não casou com o filho do vizinho — que esse sim, era bom rapaz!

Por isso, filhas do mundo inteiro, unam-se para lhes dar cabo do juízo! Furem a sua ilusão de controlo, obriguem-nas a reinventarem-se todos os dias e a praticar a arte da paciência como ninguém, tornando-as verdadeiramente as mães que devem ser.”


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram

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