Tiger King: mais do que entretenimento, o retrato de um problema

Há duas vezes mais tigres enjaulados nos Estados Unidos do que em meio selvagem, apontam as estimativas. Alguns estados norte-americanos continuam a permitir que animais selvagens sejam mantidos como animais de estimação, apesar das denúncias e preocupações.

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Visitantes de um zoo privado húngaro acariciam um leão com sete semanas Laszlo Balogh/Reuters

Intrigas, morte, crime e centenas de felinos. A mini-série documental Tiger King, que serviu como uma distracção para milhões de pessoas em confinamento motivado pela pandemia de covid-19, serve também como espelho da manutenção de felinos como animais de estimação, realidade que, nos Estados Unidos da América, ainda está a ser alvo de discussão.

Estima-se que existam entre cinco mil e dez mil tigres em jaulas nos EUA, cerca do dobro do número de animais desta espécie em habitat natural. A maioria pertence a proprietários particulares, que os mantêm como animais de estimação, um factor que dificulta a contagem exacta do número de felinos no país. Muitos destes animais são vendidos por parques zoológicos semelhantes ao de Joe Exotic, personagem principal da série da Netflix, que cobram aos visitantes centenas de dólares pela oportunidade de acariciar as crias e tirar fotografias com um dos principais predadores do mundo animal.

“Há uma falha na legislação que permite a interacção do público com crias de tigres nas primeiras semanas de vida destes animais. Muitos são retirados das mães prematuramente e criados especialmente para este fim. E quando não servem para estas actividades — visto crescerem muito rapidamente e tornarem-se perigosos — passam a ser ‘produto excedentário’ e são vendidos [a particulares]”, explica ao P3 o antigo director de um santuário animal em Cleveland, Ben Callison.

Ben é actualmente responsável pela Borneo Orangutan Survival UK, uma organização britânica que luta pela protecção e conservação de orangotangos. Contudo, antes de rumar até ao Reino Unido, Ben Callison foi o gestor de um santuário animal em Cleveland, que recebia, entre outros, felinos de grande porte. E foi nesta condição que o Departamento da Agricultura Norte-Americano o convidou para uma palestra onde expôs o problema de alguns estados permitirem a criação e compra destes animais selvagens.

“É chocante que alguém consiga dizer que um animal perigoso muito capaz de matar crianças e adultos possa ser um animal de estimação seguro. Muitos destes proprietários têm a seguinte mentalidade: ‘Não me podem dizer o que eu posso ou não posso ter, é o meu direito’. Era um argumento que ouvia constantemente, mas depois perguntava-lhes se não era também o meu direito poder ir passear ou deixar os meus filhos andar de bicicleta sem o receio de se cruzarem com um tigre que tivesse escapado.”

Homem soltou 56 animais selvagens

Nos Estados Unidos, este cenário não é inédito. Um dos casos mais graves aconteceu em 2011, no Ohio. Um homem com problemas familiares e endividado soltou 56 animais selvagens. Tigres, leões, leopardos lobos e panteras percorreram as ruas na localidade de Zanesville e os residentes fecharam-se em casa. O dono dos felinos suicidou-se momentos após ter cometido este acto e as autoridades estatais tiveram de abater a tiro 50 animais. O incidente serviu para voltar a fomentar o debate sobre a comercialização de animais selvagens no país.

Dos 50 estados norte-americanos, quatro — Alabama, Nevada, Wisconsin e Carolina do Norte— não têm leis que impeçam a manutenção de animais selvagens como animais de estimação. Em outros 12 estados é necessária uma autorização ou licença, enquanto 19 banem por completo esta prática. Mas como — e onde — se pode comprar um animal destes? Ben Callison diz que apenas é necessária uma ligação à Internet.

“Comprar um tigre é facílimo. Já vimos tigres, panteras e outros felinos a serem vendidos em mercados de animais selvagens legais. Lembro-me até de ver online crias de tigre à venda no Texas. Não são caras, custavam cerca de 200, 300 dólares. As pessoas ficam surpreendidas, mas o que não entendem é que providenciar as instalações apropriadas para um animal deste tipo e alimentá-lo fica nas centenas de milhares, se não milhões de dólares durante a vida dele. Ninguém, enquanto particular, tem capacidade de cuidar de um animal destes. É demasiado complexo e o animal merece melhor.”

É também neste contexto que se dão grande parte dos incidentes: um relatório feito pela Humane Society dos EUA mostra que entre 1990 e 2012 morreram 20 pessoas em sequências de ataques, incluindo quatro crianças. Dezenas de outras pessoas perderam membros e 125 animais foram abatidos. O documento de 42 páginas detalha com pormenor os vários incidentes com os felinos, com cerca de 90% destes animais a permanecerem em instalações fora do controlo da Associação de Zoos e Aquários norte-americana.