Vacinação em tempos de pandemia

À semelhança do mote utilizado pela OMS no âmbito desta pandemia (“testar, testar, testar”), devemos aproveitar todas as oportunidades para “vacinar, vacinar, vacinar”. A vacinação é um direito, mas também uma responsabilidade coletiva de toda a população.

A pandemia de covid​-19afetou mais de três milhões de pessoas e foi responsável pela morte de mais de 200 mil pessoas a nível mundial. Com o epicentro inicialmente na China, esta epidemia rapidamente adquiriu caráter pandémico, estando atualmente presente em 185 países ou regiões. Nos mais afetados, encontra-se o continente europeu e os Estados Unidos, que contabilizam 76% dos casos e 85% das mortes por covid​-19.

Com a ausência de imunidade prévia da população e de um tratamento efetivo ou de uma vacina para a doença, muitos países implementaram medidas de saúde pública (também conhecidas como não-farmacológicas), como por exemplo o distanciamento social, a quarentena e fecho de escolas e espaços públicos, com o intuito de reduzir o número de novos casos e “achatar a curva” da epidemia, tentando reduzir o R0 (“número básico de reprodução”: mede o número médio de infeções geradas por cada pessoa infetada) para um número inferior a 1.

Concomitantemente à implementação destas medidas não-farmacológicas, tem havido um esforço global para o desenvolvimento de uma vacina para a covid​-19 e, apesar de três vacinas já estarem em ensaios clínicos, a Agência Europeia do Medicamento estima que demore pelo menos um ano até que uma vacina seja aprovada e esteja disponível em larga escala.

Assim, enquanto continua a corrida/maratona por uma vacina para a covid​-19, surgem os alertas internacionais e nacionais sobre a necessidade de se manter os programas nacionais de vacinação durante a pandemia para estes serem efetivos.

O acesso universal à vacinação transformou a nossa sociedade. Há um antes e um depois da vacinação e os números não enganam: a vacinação foi responsável por uma grande redução do peso das doenças infeciosas na nossa população. Deste modo, o acesso à vacinação é um bem público que não se pode perder, mesmo nos tempos excecionais em que estamos a viver. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já avisou que os governos devem aproveitar todas as oportunidades possíveis para proteger as pessoas das muitas doenças para as quais as vacinas já estão disponíveis, sendo uma obrigação para a sustentabilidade dos sistemas de saúde, que já estão a trabalhar no limite e não aguentam novos surtos de doenças preveníveis pela vacinação, como é o caso, por exemplo, do sarampo.

Mesmo antes da pandemia, as baixas coberturas vacinais contra o sarampo já eram um problema, mesmo com a existência há mais de 50 anos de uma vacina segura e efetiva, e engane-se quem pense que este é um problema apenas dos países de baixo rendimento. Em 2019, os Estados Unidos reportaram o número mais elevado de casos de sarampo em 25 anos, enquanto quatro países da Europa (Albânia, República Checa, Grécia e Reino Unido) perderam o estatuto de país que eliminou a doença após a ocorrência de surtos prolongados de sarampo.

Portugal tem registado alguns surtos, com origem em casos importados que foram rapidamente controlados, mantendo o estatuto de eliminação do sarampo, conferido pela OMS em 2015. No entanto, tem de estar alerta. De acordo com o relatório do Programa Nacional de Vacinação (PNV), divulgado no passado dia 24 de abril, uma em cada dez crianças com 13 meses de idade em Portugal não tinha no final do ano passado qualquer vacina contra o sarampo, colocando-as em risco de contrair a doença

Com a pandemia de covid​-19, esta situação agravou-se. Estima-se que mais de 100 milhões de crianças a nível mundial estejam em risco de contrair sarampo devido à suspensão dos programas nacionais de imunização no contexto da pandemia. Em Portugal, apesar dos serviços de vacinação não terem sido suspensos, verificou-se uma diminuição acentuada na administração da vacina contra o sarampo (menos 13.277 doses que no ano anterior) entre 15 de março e 15 de abril, muito provavelmente pelo receio dos pais de contraírem covid-19.

Assim, à semelhança do mote utilizado pela OMS no âmbito desta pandemia (“testar, testar, testar”), devemos aproveitar todas as oportunidades para “vacinar, vacinar, vacinar”. A vacinação é um direito, mas também uma responsabilidade coletiva de toda a população.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico