Incremento da reciclagem leva Lipor a investir para tratar mais resíduos

A empresa que gere os resíduos urbanos do Grande Porto abriu este mês concurso para duas novas unidades que vão aumentar a capacidade de triagem das embalagens e melhorar o composto que já produz

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Os oito municípios da Lipor estão a investir na recolha porta-a-porta Ines Fernandes

Boa parte do país parou, mas como já percebemos todos os que passamos a cozinhar mais em casa, a recolha e tratamento do lixo doméstico não entrou em quarentena. Pelo contrário, no Grande Porto, a Lipor, que gere os resíduos de oito municípios, viu o peso e o volume dos desperdícios aumentar e, boa notícia, os recicláveis que chegam às suas instalações em Ermesinde têm tido melhor qualidade. Presos em casa, pelo menos nesta região os portugueses continuam a reciclar mais e com mais cuidado, o que levou a empresa a avançar, já, com dois investimentos na área da valorização dos resíduos. 

Depois de ter decidido, já no ano passado, investir três milhões de euros para recuperar duas antigas naves fabris no complexo de Ermesinde, para aumentar a capacidade de armazenamento de recicláveis, a Lipor abriu nas últimas semanas três concursos públicos no valor de mais de 8 milhões de euros para, nesses dois espaços, construir e montar uma nova unidade de triagem de embalagens plásticas e metálicas (seis milhões de euros), uma linha de granulação de composto orgânico para a agricultura (1,8 milhões de euros), e uma outra unidade de preparação de substratos, também para dar resposta à necessidade de melhoria de solos agrícolas (400 mil euros).

A obra de construção civil nos armazéns ainda está em curso, mas, mesmo sem garantia de apoios comunitários para estes novos investimentos, a sociedade detida pelos municípios de Espinho, Porto, Maia, Matosinhos, Valongo, Gondomar, Vila do Conde e Póvoa de Varzim, e presidida pelo autarca deste último concelho, Aires Pereira, decidiu não protelar os investimentos nos equipamentos, tendo em conta o incremento que se vem verificando na recolha, selectiva, de resíduos orgânicos, e nas embalagens. “Quando a reciclagem, de Fevereiro para Abril, cresce cerca de 12%, em peso, muito mais em volume, a nossa resposta só poderia ser a de avançar rapidamente com novos investimentos, para respondermos adequadamente às boas práticas dos cidadãos”, admite o autarca.

Promover a economia circular

Ainda assim, Aires Pereira mostra-se confiante nas decisões do Ministro do Ambiente e dos responsáveis nacionais pela administração dos Fundos Comunitários quanto às candidaturas apresentadas: “Acredito que as Autoridades nacionais sabem bem que a Lipor não pára, nem irá parar, e que este esforço de forte investimento vai criar riqueza para o país, emprego, mais trinta técnicos e operários, e ajuda em dois importantes eixos da estratégia do Governo, a promoção da economia circular e a descarbonização”.

PÚBLICO -
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A actual situação de pandemia, e as medidas de restrição ao funcionamento da Economia mexeram com o dia-a-dia da Lipor. Os serviços de todos os municípios associados e as três fábricas da empresa estão a trabalhar em turnos contínuos, “com redobrados cuidados de protecção e higiene para todos os trabalhadores”, o que determinou a necessidade de contratação de mais pessoal, para permitir o desdobramento das equipas. E ao contrário de outras actividades, a matéria-prima continua a chegar. Fecharam-se os hotéis, restaurantes e cafés, levando a uma quebra imensa nos resíduos do chamado canal Horeca, mas, por outro lado, os resíduos produzidos em casa aumentaram. E a empresa ainda está a tentar perceber quanto destes novos comportamentos estão para ficar.

A expectativa é que a melhoria nos processos de separação por parte dos cidadãos - notada quer na recolha porta-a-porta dos vários tipos de resíduos, quer nos ecopontos - tenha vindo para ficar. E que, a isto, se junte uma melhoria da gestão dos bens alimentares, que permita prosseguir o caminho de diminuição do desperdício de comida, uma das batalhas nacionais, nesta área. E fonte da administração da empresa adiantou ao PÚBLICO que os próximos investimentos que estão a ser estudados são pequenos projectos, de proximidade, que diminuam a necessidade de circulação de resíduos na região e alimentem industrias nacionais de reutilização destes resíduos, fazendo face, também, também à necessidade de diminuir o movimento mundial destes materiais.

Mais lixo orgânico separado, melhor composto

A Lipor já tinha anunciado a aposta em unidades locais de compostagem mas tem também pela frente o desafio de aumentar a sua capacidade industrial de produção de composto. O Nutrimais, produto certificado para agricultura biológica produzido na fábrica de Ermesinde esgota-se rapidamente no mercado, e a empresa quer também dar resposta ao retalho, que tem procura, ao nível do consumidor doméstico, para este tipo de produto de alta qualidade. Com o investimento já feito na recolha porta-a-porta, e que vai aumentar nos próximos anos, haverá mais resíduos orgânicos para valorizar, e uma nova unidade instalada nesta região pode absorver também material recolhido por outros sistemas do Norte e Centro do país, por exemplo.

Em Valongo já se faz granulagem de composto, mas a Lipor vai aumentar a capacidade, numa das unidades cuja instalação está em curso, para dar resposta a uma outra necessidade, do sector agrícola, que pede um correctivo orgânico que se mantenha mais tempo no solo, libertando os nutrientes mais lentamente do que acontece com o actual produto, mais parecido com uma terra de gradagem mais fina. E, ao lado, a empresa espera brevemente começar produzir duas mil toneladas de um novo substrato, mais turfoso, respondendo a uma tendência em curso, a nível mundial, de busca de soluções para enriquecer solos empobrecidos, um problema que afecta, também, parte do território português. O produto vai ser colocado à venda numa quantidade ainda pequena mas, se for bem acolhido pelos profissionais, a empresa garante o aumento da produção. 

Cuidados ao mexer nos resíduos

No novo dia-a-dia condicionado pelo combate à covid-19, a Lipor, como outros sistemas de gestão de resíduos, tem-se deparado com quantidades significativas de luvas, máscaras e material médico nas linhas de triagem, quando a recomendação é que estes materiais sejam colocados no lixo comum, se não houver pessoas infectadas em casa. A empresa tem-se desdobrado em campanhas, para explicar isto e também que, havendo gente doente ou com suspeita de infecção, as luvas máscaras e o restante lixo por estas pessoas produzido deve ser fechado em dois sacos e encaminhado para este mesmo contentor.

 

 

 

 
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