Covid-19: Restaurantes “não devem fazer compras precipitadas”

O Guia de Boas Práticas para a restauração ainda está a ser avaliado pelo Governo e deverá ser divulgado esta semana. Ahresp pede “apoios para a reabertura”.

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rui gaudencio

Muita calma e paciência é o que a Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (Ahresp) pede aos donos de restaurantes, num momento em que o Governo ainda nem sequer avançou com um dia certo para a reabertura, embora 18 de Maio surja como “uma das datas prováveis”.

Alguns empresários, diz Ana Jacinto, a secretária-geral da associação, estão já a comprar divisórias de acrílico para os seus estabelecimentos ou a tomar outras medidas, o que “é precipitado” porque o Guia de Boas Práticas elaborado pela Ahresp está ainda a ser avaliado pelo Governo.

A expectativa é poder divulgar este documento até ao final da semana, assim que tiver luz verde da Direcção-Geral de Saúde, da ASAE e de outras entidades governamentais que o estão a analisar. A Ahresp propõe-se esclarecer as muitas dúvidas que têm surgido num webinar que acontecerá esta quarta-feira e que é aberto a todos os interessados.

Na segunda-feira circulou um documento inicial, que era apenas “uma base de trabalho”, e que agitou o sector, com vários chefs e restauradores a considerarem as medidas excessivas e, em alguns casos, impossíveis de pôr em prática.

Ana Jacinto esclarece: “No guia que apresentámos ao Governo não temos nada dessas medidas, nem falamos de métricas da redução da capacidade nem de acrílicos a separar o que quer que seja. O que dizemos é que o empresário vai ter que reorganizar o layout das suas salas de modo a criar regras de segurança.”

A responsável da Ahresp não descarta a possibilidade de o Governo vir a definir essas métricas, mas para isso será necessário aguardar. O importante é “não começarem a fazer compras desajustadas” quando ainda não foram definidas as regras concretas. A associação está a preparar já pequenos vídeos para ajudar empresários e funcionários a adaptarem-se ao novo período que aí vem.

Há, contudo, outra questão que o sector considera fundamental, refere Ana Jacinto: “Precisamos de apoios para a reabertura”. Os restaurantes “não vão abrir em situações normais, mas sim de forma condicionada”, sem poderem usar a capacidade total do estabelecimento, e previsivelmente com menos clientes. “Precisamos de apoio à manutenção dos postos de trabalho e aos equipamentos de protecção individual. Isso foi dito com clareza ao Governo”.

Clientes têm “papel importante"

Uma das principais preocupações de José Avillez, cujo grupo incluiu o Belcanto e vários outros restaurantes, é precisamente saber como é que, depois de abertas as portas, se vai manter a sustentabilidade do negócio. Defende, para isso, que o Governo prolongue a possibilidade de layoff até ao final do ano ou que o mantenha enquanto os restaurantes tiverem que cumprir medidas excepcionais.

Outra questão que Avillez tem “muita dificuldade em compreender” é a relativa às rendas, que representam uma fatia muito grande dos custos de funcionamento. “O decreto do Governo relativo às rendas veio prejudicar o que existia antes. Houve senhorios que já tinham acordado na isenção de dois meses e voltaram atrás” apoiando-se na nova legislação que prevê apenas uma moratória nos pagamentos.

“O Governo e os comerciantes estão a fazer um esforço enorme, mas não está a ser pedido nenhum esforço aos senhorios”, lamenta Avillez, admitindo, por exemplo, um cenário de linhas de crédito que ajudem os proprietários de imóveis que percam rendas.

“A nossa prioridade neste momento é salvar as empresas para salvar postos de trabalho”, frisa. E no actual cenário, com “uma facturação mínima nestes primeiros tempos”, será muito complicado continuar a pagar as rendas dos estabelecimentos. Se nada for feito para o proteger, “este sector empresarial português vai desaparecer, comprado a preços de saldo por estrangeiros”. 

Há outros custos menores, mas que irão pesar também nas contas, e que são todos os relacionados com a aplicação das novas medidas de higiene e segurança: termómetros, gel de limpeza, máscaras e viseiras para os funcionários, plastificação de ementas. Também para esses, o sector espera apoio. 

Vítor Sobral, proprietário, entre outros, da Tasca da Esquina, lembra, por seu lado, duas coisas que considera essenciais na reabertura em breve dos restaurantes em Portugal: bom senso e responsabilização por parte de quem os frequenta.

“Os clientes também têm um papel importante em tudo isto”, defende Sobral. “Deverão higienizar as mãos e usar máscara quando entram no restaurante. Na mesa tiram-na, claro, mas devem colocá-la sempre que circularem no espaço.”

Questionado sobre se isso não deixará pouco à vontade quem só quer uma refeição, responde: “não estamos à vontade nem vamos estar enquanto não houver uma vacina”. Mas lembra que as pessoas já vão aos supermercados onde habitualmente circula muito mais gente.

“É impossível garantir espaços completamente corona-free. Obviamente que os clientes vão ter que assumir o risco. Se não, vamos ter que ficar todos fechados em casa”, concorda Avillez.

Mas os restaurantes têm todo o interesse em oferecer um ambiente seguro aos seus clientes, dentro do que é razoável, admitem todos, reforçando o empenho em aplicar medidas como maior distanciamento entre as mesas, redução do número de lugares e limpeza constante do espaço. 

“Trabalho num restaurante, não num hospital nem numa fábrica de bioquímicos. Não consigo fazer de médico”, diz, a propósito de eventuais exageros, Ljubomir Stanisic, do 100 Maneiras, que pede também medidas financeiras, nomeadamente a redução do IVA para 9%. Ljubomir lamenta que, até agora, “o Governo não tenha apoiado [a restauração] em nada”, porque, sublinha, moratórias e linhas de crédito significam apenas o adiar dos problemas. 

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