As preocupações com os ecrãs em tempos de pandemia

Quanto mais vertiginosas são as mudanças, mais o ser humano sente necessidade de atribuir um significado ao que está a acontecer.

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Jay Zhang/Unsplash

Ainda me recordo de, há uns anos, um pai com quem reuni dizer-me: “O problema do meu filho é excesso de electricidade” referindo-se ele, não a uma atividade motora desmesurada por parte do filho, mas sim a um uso excessivo das tecnologias digitais.

As dependências online e a preocupação que os mais novos desenvolvam um cérebro de sinapses condicionadas pelos ecrãs e/ou competências socioemocionais empobrecidas não é uma preocupação recente, mas acentuou-se nesta fase pandémica em que todos vivemos. Nunca como agora se passou tanto tempo “ligado” ao ecrã. A sua utilização por longos períodos de tempo, durante o dia, é agora uma inevitabilidade, na medida em que o confinamento obriga à sua utilização pelos mais novos, para fins educativos, recreativos e de socialização.

A escola vista como um local de aprendizagem, com instrumentos de cultura importantes para todos nós, sempre foi, em primeiro, um lugar de encontro, que agora passou, fisicamente, para o espaço virtual. Se olharmos para uma fotografia de uma sala de aula dos primórdios do século XX e outra do início do século XXI, não encontraremos grandes alterações. A não ser talvez o uso de electricidade. Contudo, nos últimos anos essas diferenças foram-se acentuando. Cada vez mais salas de aula estão equipadas com computador e quadros interactivos. Ainda assim, os mais novos nos países com um maior PIB per capita e provenientes de um meio socioeconómico médio a alto já tinham, na generalidade, um maior acesso ao mundo online nas suas próprias casas, do que nas escolas que frequentam. São eles os nativos digitais.

Precisamente por esse aspecto, a sua adaptação tecnológica terá sido facilitada, por estes dias, comparativamente com os pais que são, na sua maioria, imigrantes digitais. Não obstante, se a facilidade de aprendizagem relativamente às novas tecnologias nos mais novos parece sobressair, por outro lado, coloca-se a questão de como desenvolverão e integrarão eles os relacionamentos sociais online.

Estudos no campo da psicologia, prévios à fase pandémica, revelaram que a utilização intensiva da Internet está associada a níveis mais elevados de solidão e que tempo dedicado a relações virtuais, também apelidadas de “snacks sociais”, pode ter efeitos depressivos, contribuindo para o isolamento social dos seus utilizadores.

É conhecido o impacto que a solidão tem na saúde, não só mental, como também física, sendo apontada como um dos factores que conduz à redução de anos de vida. Assim, nesta fase, promover nos mais novos, interacções online com amigos e familiares com quem tenham mantido até agora relações em presença, poderá ajudar a prevenir o efeito da solidão, mais associada a relações exclusivamente virtuais. Quem está bem integrado socialmente está mais protegido quando crises como esta batem à porta. Apostar na promoção das competências socioemocionais dos mais novos não é um luxo. É uma questão de saúde.

Toda a cautela é pouca, nos dias que correm, no que a previsões diz respeito. Começando logo pela duração da pandemia e seus efeitos. O cenário parece apontar mais para uma maratona, do que para uma prova de sprint ou sequer de 10.000 metros. Uma questão que, a pouco e pouco, nos vamos colocando é a de como será o mundo pós-covid-19? O que parece evidente é que será diferente. O ambicionado regresso à normalidade, ainda que progressiva, parece utópico, pois o mundo está a transformar-se e muito, com a extensão e a dimensão das mudanças em curso, por vezes dolorosas.

Quanto mais vertiginosas são as mudanças, mais o ser humano sente necessidade de atribuir um significado ao que está a acontecer. Perante uma crise sanitária sem precedentes, na nossa geração, importa transmitir aos mais novos uma mensagem de esperança e salientar a importância da cooperação, as quais deverão prevalecer sobre o medo. Grandes eventos globais, como guerras, pandemias, crises, revoluções e rupturas constituem também uma oportunidade única, ao proporcionarem a criatividade necessária para resolver problemas desafiantes, criar novas tendências ou aprofundar as existentes.