Crónica

Cruzeta, caleira, aloquete e tapa-vento

Quero poder continuar a calçar as minhas sapatilhas e ainda hei-de descobrir que nome dão ao que, para mim, é um mil-folhas, numa pastelaria lisboeta. Se alguém souber, fico desde já agradecida.

Há uns tempos, estava eu à espera do metro ao final da tarde (ainda era na altura em que era normal todos os dias apanhar o metro no trajecto casa-trabalho), quando uma mulher sentada num dos bancos da estação da Casa da Música, no Porto, meteu conversa com duas turistas brasileiras, apoiadas numa grande mala. A certa altura, as mulheres devem ter dito que iam para Lisboa, porque ouvi a portuense lamuriar-se, algo indignada: “Eu sei que estrugido e refogado são a mesma coisa. Aqui, toda a gente sabe. Mas eles não, parece que vivem noutro país. Nunca sabem.”

Não pude deixar de sorrir. Tenho grandes amigos em Lisboa, estudei na capital durante quatro anos, e sei que a mulher do metro não está totalmente errada. Há um grande palavreado típico do Porto que as pessoas de Lisboa não entendem. O que não significa que as palavras usadas aí sejam melhores ou as certas, quando se comparam com as que se usam no Norte (e quem diz o Porto, diz tantos outros sítios do país).

Eu uso sapatilhas, não ténis. Penduro a roupa em cruzetas, não em cabides. E quando quero trancar uma mala uso um aloquete, não um cadeado, até porque cadeado é outra coisa, vá. Cadeado é o conjunto de aros metálicos interligados entre si que usamos, por exemplo, para prender uma bicicleta a uma árvore, mas ainda é preciso um aloquete para o fechar. Pelo menos, para mim.

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Cá em casa, um bacalhau com batatas precisa de uma penca a acompanhar, não de uma couve-portuguesa, e a água da chuva escorre dos telhados através de uma caleira, não de um algeroz. E hoje já não se usa tanto, mas quando era miúda e andava sempre a brincar na rua com os meus primos, ouvia muitas vezes para ter cuidado com o bueiro coberto com uma grade, não com a sarjeta. Além disso, sei perfeitamente que, se pedir um mil-folhas numa pastelaria lisboeta, o que me vão trazer é um Napoleão.

Não sei por que é que eu conheço estes sinónimos e tanta gente (não toda, obviamente) de Lisboa os desconhece. A mim, não me incomoda. Gosto das subtilezas e da estranheza da língua assim dividida entre termos diferentes, mas iguais. E não me chateia nada perguntar o significado de uma palavra se a desconheço ou explicar, de novo, o que quer dizer a expressão tão estranha que acabou de sair com tanta naturalidade da minha boca. Ainda que às vezes não seja fácil. Uma vez tentei explicar a um colega da residência universitária em que vivia o que era um “azeiteiro”. Não tinha um à mão, por isso não fui muito eficaz.

Mas já me incomoda (descobri recentemente) que me troquem as palavras que uso diariamente por outras idênticas, mais utilizadas (aparentemente, ainda está por provar) na zona de Lisboa. Vem isto a propósito do tapa-vento. Há uns dias, usei a palavra num texto e descobri, já quando ele estava publicado, que me tinham substituído o familiar tapa-vento por guarda-vento. Eu desconhecia a expressão guarda-vento, confesso, por isso tratei de saber se era assim que o utensílio que nos protege do vento na praia era designado dessa forma mais a sul. Parece que sim, de vez em quando, embora o tapa-vento também se use por ali, disseram-me.

É só uma palavra e a troca de uma por outra não mudou nada do sentido do texto. Mas a intrusão naquelas linhas que levavam o meu nome de uma palavra que eu jamais usaria (e cuja existência até desconhecia) incomodou-me. Eu quero ter direito ao meu tapa-vento, ao aloquete, à cruzeta, à penca e até ao estrugido, embora ele se use cada vez menos, e é uma pena, porque na palavra estrugido ouve-se muito mais o crepitar da cebola e do alho em azeite do que em refogado.

Quero poder continuar a calçar as minhas sapatilhas e ainda hei-de descobrir que nome dão ao que para mim é um mil-folhas numa pastelaria lisboeta. Se alguém souber, fico desde já agradecida.

E quero continuar a rir-me com os amigos dos equívocos causados por todas as palavras que para uns são companhia lá de casa e para outros novidades acabadas de chegar. Mas para isso é preciso continuar a usá-las, porque, se deixarmos de o fazer, elas morrem e ficaremos todos mais pobres.

Para já, consegui a promessa de que, quando escrever guarda-chuva num texto, não me vão trocar a palavra por chapéu-de-chuva. E eu agradeço, até porque eu tenho um chapéu impermeável para proteger a cabeça em dias de chuva e era capaz de pensar que era disso que estavam a falar, se me roubassem o guarda-chuva.

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