África: um continente de respiração suspensa à espera de ventiladores

Os casos positivos em África subiram 43% numa semana e isso voltou a fazer soar os alarmes. O continente não tem força para concorrer com os países desenvolvidos na compra de testes e ventiladores.

Um voluntário coloca a sua máscara antes de distribuir comida num township da Cidade do Cabo
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Um voluntário coloca a sua máscara antes de distribuir comida num township da Cidade do Cabo Mike Hutchings/Reuters

A capacidade limitada de realizar testes em grande quantidade não permite chegar a um retrato realista do que se passa realmente com a pandemia da covid-19 no continente africano. Conhecem-se os números e os casos divulgados pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) da União Africana, sabemos que haverá uma subnotificação. Com que tamanho, ninguém sabe? Daí haver quem se refreie nos prognósticos e quem arrisque antecipar a tragédia.

No espaço de uma semana os casos positivos de SARS-CoV-2 subiram 43% e a Organização Mundial de Saúde lançou o alarme de que África poderá estar a caminho de se tornar o epicentro da pandemia, chegando a dez milhões de casos no espaço de três a seis meses, de acordo com os modelos.

Sem meios suficientes para fazer face aos casos mais graves, o continente poderá ver morrer muita gente até ao final do ano. De acordo com o cálculo do Imperial College of London, mesmo no cenário mais favorável, as mortes poderão chegar às 300 mil. A OMS também fala em 300 mil mortes e acrescenta mais 30 milhões de pessoas empurradas para a pobreza extrema.

Com sistemas de saúde que, em muitos países, já são demasiado frágeis para lidar com os problemas de saúde quotidianos quanto mais com as pressões de uma pandemia, África tem ainda de enfrentar os problemas inerentes ao açambarcamento de ventiladores, testes, materiais de protecção por parte dos países desenvolvidos, o que não lhes tem permitido preparar-se melhor para quando a curva de casos começar a subir rapidamente.

O Sudão do Sul tem apenas quatro ventiladores e 24 camas de cuidados intensivos para 11 milhões de habitantes, a República Centro Africana somente três para os seus cinco milhões de habitantes e o Burkina Faso 11 para os seus 20 milhões de habitantes, mesmo assim mais do que as dez nações do continente sem qualquer ventilador disponível.

África divide menos de dois mil ventiladores por 41 países. Antes do início da pandemia, em Portugal, o sector público tinha 1142 ventiladores, os Estados Unidos possuíam 170 mil.

As Nações Unidas calculam que são necessários pelo menos 30 mil ventiladores e 74 milhões de testes este ano para fazer face à emergência da covid-19. O problema é que nestes tempos de pandemia, acentuou-se uma corrida açambarcadora dos países mais ricos aos equipamentos e materiais de protecção, deixando nações vulneráveis ainda mais vulneráveis.

“Estamos a competir com o mundo desenvolvido”, afirmou, na quinta-feira, John Nkengasong, director do CDC, na conferência de imprensa semanal de actualização dos números da pandemia que chegaram já este sábado a 31.023 casos positivos, com 1390 mortos. “O futuro do continente depende da forma como lidarmos com este assunto”, acrescentou.

Com o corte do financiamento dos Estados Unidos, o seu maior contribuinte, a Organização Mundial de Saúde, que é quem tem valido aos países mais pequenos para o fornecimento de equipamento e material de protecção, fica com a sua capacidade mais limitada.

Uma boa notícia é que nas próximas semanas chegarão 300 ventiladores oferecidos pelo multimilionário chinês Jack Ma, fundador do Alibaba group, que já doou milhares de testes, máscaras e equipamento de protecção a África desde o princípio da pandemia. Serão distribuídos aos países com maior necessidade, garantiu o director do CDC.

Nkongong anunciou ainda que na próxima semana cerca de um milhão de testes serão distribuídos para poder suprimir uma das graves lacunas de África: “Até esta semana, num continente de 1,3 mil milhões de pessoas, só foram realizados cerca de 415 mil testes”. O que é “muito pouco”, frisou. “Se não testamos, não encontramos. E se não testamos, estamos cegos. Se não testamos, não nos mantemos à frente da curva”, disse.

Na Argélia, o país com mais mortos por causa do novo coronavírus (419), a situação é grave nos campos de refugiados de Tindouf, onde há 45 anos os sarauís continuam a aguardar que o fim da ocupação do Sara Ocidental por Marrocos aconteça. A ponto da ONU ter pedido esta semana um auxílio de urgência de 15 milhões de dólares para responder às necessidades da emergência de saúde pública.

As condições difíceis em que vive esta população no deserto, dependente do apoio humanitário internacional, foram exacerbadas pela pandemia. De acordo com o Parlamento Europeu, “as condições de saúde nos campos são deploráveis e falta o equipamento básico necessário para tratar os que estão contaminados pelo vírus”. Perante isso, os deputados perguntam à Comissão Europeia se está a par da “alarmante situação” nos campos sarauís?

Tindouf é apenas um ponto num extenso continente onde se multiplicam as alarmantes situações. Quando uma das formas de evitar a transmissão do vírus é lavar as mãos regularmente, ter mais de 300 milhões de pessoas na África Subsariana sem acesso a água multiplica a possibilidade transmissão do vírus. De acordo com a ONU, em 2017, 97% das casas na Libéria não tinham acesso a água limpa e sabão.

Além disso, como explica o jornalista e escritor do Burundi David Gakunzi, em declarações à France Culture, “o confinamento coloca a questão do capital social dos Estados”. De acordo com o criador do Paris Global Forum, para impor às pessoas medidas de isolamento como as necessárias para travar a disseminação do vírus “é preciso que os Estados tenham um mínimo de credibilidade, o que nem sempre acontece no continente”.

Por exemplo, na África do Sul, o país com maior número de casos (4361) no continente, a pandemia ajudou a reforçar a imagem do Presidente Cyril Ramaphosa, que agiu cedo e com autoridade, tomando até medidas impopulares, mas que permitiram achatar a curva da pandemia e reduzir o número de mortos, que este domingo estava nos 86. Dedicando 500 mil milhões de randes, quase 7% do PIB, para combater a covid-19, salvar empresas e evitar a fome entre os mais pobres, que compõem mais de metade da população.

Mas a África do Sul é o país mais industrializado do continente africano e um dos mais desenvolvidos, tem, por isso, características que diferem de muitos dos Estados da África Subsariana. Ahmed Ogwell Ouma, director-adjunto do CDC africano, considera que algumas das características de subdesenvolvimento de África têm ajudado a uma maior lentidão na expansão da doença.

“Em África, os meios de deslocação não são iguais ao resto do mundo. É improvável que alguém em Adis Abeba saia muitas vezes da cidade. E os meios de transporte são débeis. O avião é a forma mais comum de viajar noutras partes do mundo. E as pessoas viajam com muita frequência, o que também fez com que o vírus viaje rapidamente”, disse Ouma à agência de notícias Anadolu.

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