Torne-se perito Opinião

O papel central dos livros e das Letras: a nossa liberdade

A cultura como alavanca e veículo da cidadania e a educação como lugar da memória serão as vanguardas do combate ideológico que a Europa travará a breve trecho.

(carta aberta aos ministros da Educação e da Cultura)

Para além do plano mais imediato e prioritário da saúde pública, muito se decidirá no plano das ideias e é por falta de ideias e de ideal (um ideal congregador de Europa, que não traísse em nome do lucro, as nações que fizeram o projecto europeu) que aqui estamos, às portas dum inferno político. Certas portas, uma vez abertas, não se fecharão tão cedo. Seja no que respeita à emissão de Eurobonds, seja no que respeita à defesa absoluta do papel da Europa no mundo pós-coronavírus, deve haver, por parte de quem governa, não só a desejada recuperação económica, senão também a não menos prioritária recuperação da cultura e da educação. O neoliberalismo económico, o pragmatismo, o relativismo cultural, essas foram portas abertas por uma modernidade que, além de líquida, se mostra na sua crueza de modernidade cínica. Uma educação sem uma verdadeira preocupação cultural mais não é que um rolo compressor que vai amestrando gerações inteiras na preparação para uma sociedade que sacrificará o seu bem mais precioso – a liberdade – em nome de um securitarismo que, em breve, pode desaguar em ditaduras.

De facto, se perante a maior crise europeia desde a II Guerra Mundial, a União Europeia e os Governos, soberanos (?) não tiverem uma resposta forte e inequívoca contra os neofascistas, a Europa pode ruir. Não é esta uma questão de retórica, ainda que a retórica seja aqui fundamental. Este é um tempo de charneira e convém estar atento aos sinais. Um sinal preocupante é a possibilidade de se efectivar o controlo dos cidadãos europeus através dos dispositivos informáticos, os mais diversos, localizando-se quem esteja infectado com coronavírus. A acontecer, é um retrocesso civilizacional nefando, absurdo, desumano.

Como isto anda tudo ligado, não podemos separar a crise pandémica de outras agudas crises que sectores profissionais atravessam, justamente os sectores fundamentais na consciência da liberdade que urge preservar. Os sectores do livro e da edição, das indústrias culturais e outros correlatos devem ser protegidos no actual contexto. A cultura como alavanca e veículo da cidadania e a educação como lugar da memória serão as vanguardas do combate ideológico que a Europa travará a breve trecho. Não são decerto o Google e o Facebook, que já nos controlam enormemente, a garantir os valores da democracia. O ideal do cordão sanitário como regra de sociabilidade (qual?) é a maior armadilha que a covid-19 trouxe consigo. É o sonho dos tecno-fascistas.

Perante a maior crise dos últimos cem anos, seja esta uma oportunidade para se criar mais justiça social, e uma Europa independente, forte, ancorada numa Economia Verde, em políticas de redistribuição da riqueza, apostando nos Sistemas Nacionais de Saúde, dizendo não às negociatas com o sector privado; uma Europa que ponha fim à obscenidade de haver salários milionários para uns poucos, que pouco ou nada contribuem para o bem-comum, havendo milhares e milhares que têm salários indignos. Uma Europa que se afirme contra a desumana condição em que vivem milhões de migrantes. Seja esta a oportunidade para se “criar valor” com base numa educação mais humanista e culta, essa deveria ser a pedra-de-toque das políticas de agora e do futuro. Porque é urgente criar consciência cultural, porque é urgente saber o que significa a liberdade, saber o para que serve a educação e o para quê da cultura. Só desse modo, defendendo ideias, seremos fiéis ao projecto cultural europeu.

Mais do que nunca, cabe a quem decide políticas de educação e cultura exigir, no orçamento do Estado, e exigir à própria Europa Comunitária, no quadro da recuperação financeira e económica desejada, um investimento claro para que as actividades culturais não morram. São milhares de empregos que estão em causa, mas é sobretudo a nossa própria identidade que está em causa. Não pode haver apenas uma constante preocupação por dar música aos portugueses, concertos de massa, de música pop-rock. Nada contra a música, bem pelo contrário, mas a cultura não se faz só de festivais Super Rock/Super Pop. Para uma cabal defesa da nossa liberdade, convém formar cidadãos leitores e críticos. Reinvestir numa política de leitura e do livro, esta é uma medida central que preservará as lições da História nesta época em que milhares de velhos levaram consigo a memória que nos formou. Pergunto: como nos iremos proteger do vírus do fascismo se não tivermos uma educação ilustrada? Sem capacidade imaginante, sem fidelidade às lições da História, e ao que gerações mais velhas nos deram, que país seremos e que Europa? Será que é no lago escuro dos ecrãs, onde, insensíveis, mortiços ou violentos, os jovens se reconhecerão, num futuro próximo, cidadãos europeus?

Falo de ideias e de ideais e, consequentemente, da educação e da memória como vectores deste debate que não pode ser meramente económico. É que a vitória contra os inimigos da humanidade, nazis e fascistas, bem como de toda a sorte de totalitarismos não teria sido possível, desde ’45 até hoje, se não tivéssemos tido políticos animados por uma energia vital que deu à Europa décadas de paz, liberdade e prosperidade. Políticos cultos, lidos, experimentados, corajosos, independentes: De Adenauer a Olof Palme, de Joseph Bech e Willy Brandt, de Helmut Kohl e Mitterrand a Nicole Fontaine e Jean Monnet, de De Gaulle a Mário Soares, foi a cultura e não a obsessão do Deus-Mercado que edificou o Velho Continente, hoje à mercê dos novos mandarins da salvífica tecnocracia. Na educação e cultura sinais preocupantes acumularam-se nos últimos vinte anos: da diluição das humanidades nos currículos secundário e universitário, à promoção de uma literatura rasteira; do fecho de espaços culturais à crença de que educar é avaliar, não formámos cidadãos conscientes, mas sim alienados. Editores e livreiros, para sobreviver, tiveram de apostar numa literatura que deformou ao longo dos anos – que não criou valor. Sinais dos tempos: num manual escolar de Português do 9.º ano, introduz-se a Unidade dedicada a Camões, o Lírico, com uma epígrafe dos Xutos & Pontapés... Não se percebe a relação entre forma e a função... “Nem lei, nem rei, nem paz, nem guerra” definem com perfil e ser este pedaço de terra que é a Europa a entristecer...

Se se perde de vista que é na escola que crianças e jovens devem aceder ao simbólico e à imaginação; se se perde de vista a lógica “textocêntrica” que preside à construção educativa, não nos admiremos: transformaremos as escolas e as universidades em centros de informática, não em sedes de conhecimento. Um ensino que secundarize, mais ainda, o livro e a leitura dos textos literários não criará futuros leitores, futuros amantes do livro, sensíveis e comprometidos com a liberdade. Fechados em casa, presos à parafernália tecnológica, saberão falar com correcção, dizer o que sentem, o que pensam? Não serão cidadãos mecânicos, obtusos? Nascida com Homero e Sócrates, Dante e Camões, Cervantes e Hegel, Nietzsche e Thomas Mann; filha de Giotto e de Da Vinci, de El Greco e de Goya, de Picasso e da Bauhaus, de Haendel e de Mozart, de Wagner e de Debussy, será possível que a nova Europa venha a ser (se não é já) o continente dos gestores e informáticos, dos planificadores que jamais compreenderão a alegoria do Anjo da História?

Como professor, posso admitir o contributo instrumental (e só isso) das vídeo-aulas em tempo de excepção, mas não acredito (e espero que a maioria dos meus colegas em todos os ciclos de ensino não acreditem) numa educação online que tudo reduz ao imediato simplificado. Temo que se venha a pôr de parte (como não?) o livro como veículo único e insubstituível dos saberes. Temo pelos editores e livreiros, educadores de inúmeros cidadãos ao longo das décadas e hoje reféns da superficialidade que campeia neste sector. Será que a literatura dos distópicos Orwell e Huxley profetizou os nossos presente e futuro?

Senhores ministros da Educação e da Cultura: Nenhum teclado substitui um poema de Antero lido com atenção, em papel, numa edição cuidada; nenhum powerpoint substitui o livro, as bibliotecas, as livrarias e demais espaços culturais. Professores, editores, escritores, livreiros, com certeza que músicos, actores, homens e mulheres de todas as áreas do espírito – todos nós somos fazedores e defensores da liberdade e não planificadores ou técnicos. E é de espírito, de cultura e de liberdade que a Europa sentirá a falta, e Portugal, se Abril ficar refém dos filhos ideológicos de Silicon Valley.

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