Mil razões a favor e contra o ensino à distância

Ocorre-me dizer que nem o computador é um bem essencial a uma casa nem esse referido serviço pagante pode ser exigido.

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Professora, em casa, em videoconferência LUSA/EDUARDO COSTA

Hesitei mas, uns dias depois de ter entendido tudo isto melhor, julgo-me capaz de apresentar, hoje, as ideias que eu, afinal, já tinha.

Ouviremos mil razões a favor; umas outras tantas contra. Nunca a expressão agradar a gregos e a troianos fez tanto sentido para as escolas, para começar para os seus agentes mais diretos, os diretores das escolas e os professores, porque aos comandos desta adaptação in loco.

Muitos trabalhos, poucos trabalhos! Medida esta complicada porque os pais, mesmo não sendo professores, também percebem destas quantidades e de muitos métodos pedagógicos. Mas esse assunto não é com os alunos? (pergunta retórica e atrevida!); medida muito mais complicada, na verdade, porque não estamos em casa de alunos que têm quem os oriente em toda esta nova perspetiva escolar, nem dos que se vêm sozinhos nestas descobertas, nem estamos em casa dos alunos que têm um ou dois irmãos, na escola também e a precisarem de estudar online, ou em que um deles, pela sua pequenez irrequieta própria de quem quer estar próximo do irmão estudante ou em correrias gritantes, e nem estamos em casa de quem tem apenas um computador a ser partilhado e, muitas vezes, com internet limitada.

Começando por estes dois elementos de índole tecnológica, ocorre-me dizer que nem o computador é um bem essencial a uma casa nem esse referido serviço pagante pode ser exigido tendo em consideração o dito: pagante!

Não se subentendam críticas a ninguém nem mesmo de índole institucional ou governamental. Entenda-se esta aparente má-língua como, simplesmente, uma constatação das nossas realidades e, sinto-me, como elemento desta engrenagem, culpada (porque sou professora) e preocupada (porque sou professora também!) que se veja esta situação catalogada como normal e assumida. Mas não o é!

Um computador não é um objeto imprescindível mesmo à vida dita moderna porque é um objeto académico ou profissional que se torna apenas pessoal quando temos dinheiro “a mais” e nem todos o temos.

Como professores, saberemos isso bem das vivências próximas com os nossos alunos; também o saberá bem quem estiver atento a quem nos rodeia, sabendo fazer contas pelos números das nossas vidas, sem esquecer também que, muitas vezes, estão, e bem, abaixo disso.

E mesmo nunca olvidando que a vida é coisa séria, estamos a carregar os alunos de preocupações, de ansiedades, fazendo de conta que eles não estão, como nós, entalados física e emocionalmente neste confinamento, que se compreende, mas de que nem por isso gostamos. E esses miúdos que não vão para a escola, que não podem andar em folias e traquinices com os amigos, não têm, no entanto, o direito de aligeirar a sua categoria de alunos.

E depois de vermos um computador como um elemento essencial como o serão um fogão ou um frigorífico, também vemos, com toda a normalidade, os nossos contactos via e-mail em viagens dispersas, e também abrimos as nossas casas e entramos nas dos nossos alunos em videoconferência.

É o mundo livre do digital onde, porque não vemos nada de suspeito, sentimos que não há nada a temer. Tememos em muitas outras situações burocráticas, quanto à exposição dos dados dos alunos, relembro também que muitos são menores, e os nossos enquanto cidadãos, porque a legislação assim nos exige e nos dá o direito de privacidade, mas depois comunicamos sem resguardos.

Acabarei este desabafo com algo sobre o qual, mais profundamente ainda, nunca tinha pensado: dizia uma colega de trabalho que não estamos a compreender também que os alunos, os maiorzitos, não vão querer com facilidade estar em contacto visual connosco, também porque atrás de muitos deles não estão lindas estantes repletas de livros, mas uma realidade caseira, popular.

Valeria mesmo a pena pensar nisto.