Rui Gaudêncio

Geografias da (nossa) liberdade em cinco canções

Zeca, Fausto, Cília, José Mário Branco. De Lagos a Grândola, de Lisboa a Peniche e Moncorvo. São canções da ditadura e da liberdade: prepararam o 25 de Abril e celebraram as suas conquistas. Algumas são icónicas, outras mais esquecidas. Mas marcam no mapa de Portugal causas e ideias - umas mais datadas, outras à margem da espuma dos dias. Todas com a liberdade nos versos.

Em Portugal houve uma canção que deu mote a uma revolução e houve outra que nos disse, à descarada, que “a cantiga é uma arma”. A primeira é filha da ditadura, metáforas e alegorias, onde apenas nas entrelinhas se lê o anseio de liberdade; a segunda é filha dessa liberdade, directa, panfletária. As primeiras ajudaram a preparar a revolução, as segundas deram voz às suas conquistas (e ambições). Cinco canções não dão para compor um mapa completo, mas decidimos ainda assim embarcar numa viagem por Portugal à boleia delas: vamos do Algarve a Trás-os-Montes, passamos por Lisboa e fazemos um desvio por Peniche - sempre com o Alentejo no centro e a liberdade como norte.

Grândola, vila morena – Zeca Afonso

É “a” canção de Abril, a que se entoa, sem falhas, às 00h do dia 25, em qualquer praça portuguesa onde se celebre a revolução, aquela para a qual mesmo faltando a ordem das palavras não escapa a melodia. Aquela onde se regressou passivamente nas manifestações contra a troika. Foi a senha para que o dia claro se abrisse e “nasceu” uma década antes, poema de três quadras enviado por José Afonso à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, dias depois de lá ter actuado na celebração do 52.º aniversário da colectividade (primeira parte de Carlos Paredes; segunda “Dr. Zeca Afonso”). Foi inspirado, recordaria mais tarde, pelo clima solidário e fraterno vivido na SMFOG - espaço com uma biblioteca “de evidentes objectivos revolucionários”. O poema viajaria até França, onde “caiu” nas mãos de José Mário Branco, o produtor do álbum Cantigas do Maio, que lhe daria forma de cante alentejano: Grândola, Vila Morena, o poema de José Afonso, trocou a última quadra da primeira versão (“Capital da cortesia/ Não se teme de oferecer/ Quem for a Grândola um dia/ Muita coisa há-de trazer” passou a “À sombra de uma azinheira/ Que já não sabia a idade /Jurei ter por companheira / Grândola, a tua vontade”), a canção acrescentou-lhe a inversão das quadras e o arrastar de passos que seriam os dos camponeses a regressar da monda.

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Dulce Fernandes

A 29 de Março de 1974, Zeca Afonso cantou o tema num concerto no Coliseu dos Recreios - menos de um mês depois, os passos dos camponeses viraram marcha militar: às 00h20 de 25 de Abril, soava na Rádio Renascença a senha final. A revolução começava e a “vila morena” tornava-se para sempre a “terra da fraternidade”. E uma espécie de casa-espiritual do 25 de Abril que cultiva com afinco - desde o grafitti que ocupa o muro do Jardim 1.º de Maio (diante do Complexo Desportivo Municipal José Afonso) ao memorial, que é um mural onde cabe toda a partitura da canção a “abraçar” um cravo; dos monumentos a José Afonso e à liberdade que continua a passar por lá. E a Grândola, Vila Morena passa pelas janelas de quem quiser celebrar hoje o 25 de Abril em período de quarentena - encontro marcado para as 15h.

Ferrel, Peniche – Rosalinda, Fausto

A 15 de Março de 1976 aconteceu em Portugal a primeira manifestação contra o nuclear. Foi em “Ferrel, lá para Peniche”, como escreveu Fausto, onde, continua, “vão fazer uma central que para alguns é nuclear, mas para muitos é mortal”. A prospecção já tinha começado quando o povo de Ferrel deixou de ser sereno, talvez ainda animado pelo espírito de cidadania e de luta colectiva que a revolução, dois anos antes, tinha despertado: enxadas, foices, forquilhas, picaretas na mão, a pé, em carroças de burros, tractores, cerca de 1500 pessoas acorreram ao toque de sinos e marcharam até aos baldios do Moinho Velho.

E, a verdade é que aí foi o povo quem mais ordenou: a central nuclear não se instalou - nem aí, nem em nenhum ponto do país, que, entretanto, se unira à causa antinuclear de Ferrel. “Nuclear não, obrigado!”, foi o slogan do movimento que teve direito ao Festival pela Vida e Contra o Nuclear, em Janeiro de 1978.  Fausto foi um dos que participou, ele que já dedicara a sua canção Rosalinda (1977) a Ferrel e ao seu protesto. “Rosalinda, se tu fores à praia/ Se tu fores ver o mar/ Cuidado não te descaia/ O teu pé de catraia/ Em óleo sujo à beira mar”, avisava, alertando para a poluição que viria com a central. Há quem lhe chame a primeira canção ecologista portuguesa. Certo é que não se cumpriu o temor nela manifestado: onde se projectou a central existe agora uma unidade-piloto de produção de energia de ondas, que partilha espaço com as hortas e os surfistas.

Moncorvo, Torre e Gente – José Mário Branco

É um “épico” de José Mário Branco, este Moncorvo, Torre e Gente (1978), escrito para a banda sonora do filme Gente do Norte, de Leonel Brito. Ambos, filme e canção, tinham uma espécie de espírito de missão: José Mário Branco, para quem a cantiga era uma arma, não esquecer, foi um dos membros fundadores do Grupo de Acção Cultural (GAC); Leonel Brito fez parte da cooperativa de cinema Cinequanon, criada após o 25 de Abril. Nesta canção não há papas na língua: a geografia agreste de onde se arrancou um império (“Foi das pedras/ foi das pedras e das águas/ do calor, do rosmaninho/ foi da torga, foi das fráguas/ que nasceu/ este império pequenino”) e onde se exploravam os trabalhadores nas minas de volfrâmio e no cultivo dos campos alheios (“Foi do calo, da enxada/ e da enxurrada/ foi da pedra descoberta/ da terra desempedrada/ que nasceu/ esta mina já deserta”), fala-se do passado e do presente, dos fracos e dos poderosos (“pobre-rica, rica-pobre/nobre-serva, serva-nobre”). Vamos do Picoto e Covelo ao “sangue” da Vilariça, rondamos o Douro e sentimos a dureza das terras transmontanas. A canção estará algo datada - as minas estão abandonadas, as terras mais desertas de gente, servas e nobres -, a vida pode ser mais dócil mas as memórias da vida agreste persistem na paisagem indomável.

Lisboa – Canção Final, Canção de Sempre, Luís Cília

Luís Cília viria a escrever a letra e música de “Avante Camarada”, em 1967, mas em 1964 empresta a voz a um poema de Manuel Alegre, num delicado e tranquilo hino de resistência. Canção Final, Canção de Sempre soa a lamento - mas não é resignado: mesmo sabendo o que o futuro guarda (“Vão vestir-te com grades/ Que é o destino para todas as idades/ Na pátria dos poetas em Rossio triste”), não há hesitações (“Virão em busca do teu sonho, do teu pão/ E hão-de exigir a nossa rendição/ Quando desembarcarmos no Rossio/ Mas, eu, canção/ Eu gritarei de pé no teu navio ‘Não’”).

O Rossio é Lisboa, o Rossio é Portugal visto por exilados: Luís Cília gravou em França Portugal-Angola: Chants de Lutte, o seu primeiro álbum, onde inclui este poema de Manuel Alegre, chegado também ele a Paris pouco tempo antes. Resistência ao Estado Novo, resistência às guerras do Estado Novo - os trabalhos de Luís Cília estavam proibidos no Portugal da ditadura, mas Adriano Correia de Oliveira gravou esta canção no seu disco homónimo de estreia (1967), com o nome Canção Terceira. Entretanto, o Rossio, literal, tornou-se num ponto incontornável dos festejos do 25 de Abril por que esta canção ansiava.

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Lagos – Os Índios da Meia Praia, Zeca Afonso

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Adriano Miranda

É uma canção onde José Afonso mostra dotes premonitórios - conta a saga dos “índios da Meia Praia” e 44 anos depois de ter sido editada ainda mantém a actualidade. “De Montegordo vieram/Alguns por seu próprio pé/ Um chegou de bicicleta/ Outro foi de marcha à ré”: do outro extremo do Algarve chegou, corria a década de 50, a Lagos um grupo de pescadores em busca de trabalho. Instalados no mar, na terra construíram cabanas de colmo - foram estas que lhes valeram a alcunha de “índios”.

Quando chegou o 25 de Abril, sobrevivia apenas uma dessas cabanas de colmo, as outras haviam-se revestido de zinco - e em breve nenhuma restaria. O novo governo revolucionário assumiu como missão acabar com as barracas no país, através do Serviço Ambulatório de Apoio Local (SAAL), que canalizava dinheiros do Estado a fundo perdido - na Meia Praia a reconversão ficou a cargo do arquitecto José Veloso; a mão-de-obra foi a dos próprios moradores, que, depois de receberem a proposta com desconfiança, abraçaram a causa do seu direito à habitação: “Eram mulheres e crianças/ Cada um com o seu tijolo/ Isto aqui era uma orquestra/ Quem diz o contrário é tolo”.

Sonhou-se com uma cooperativa de pesca, construíram-se 41 casas no sítio do Apeadeiro, entre a praia e a linha do comboio. Até agora, essas casas no Bairro da Associação de Moradores 25 de Abril (nome oficial) não foram legalizadas e, entretanto, construíram-se hotéis de luxo e campos de golfe em redor. O turismo parece querer engolir a herança de Abril: “E toca de papelada/ No vaivém dos ministérios/ Mas hão-de fugir aos berros/ Inda a banda vai na estrada”.

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