Há menos crianças a receber vacinas. “Não podemos deixar de vacinar”, pedem especialistas

A coordenadora do Programa Nacional de Vacinação alerta para o facto de que vários pais têm tido receio de levar os seus filhos aos serviços de saúde por causa do surto de covid-19. Como consequência, menos vacinas foram administradas em Abril e Março. As autoridades de saúde dizem que a vacinação prioritária não deve ser adiada.

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Autoridades da saúde pedem que não se adie a vacinação prioritária Reuters/VALENTYN OGIRENKO

Há menos crianças portuguesas a serem vacinadas por causa da pandemia da covid-19.Teresa Fernandes, coordenadora do Programa Nacional de Vacinação (PNV), explica ao PÚBLICO que, segundo os dados já disponíveis do Serviço Nacional de Saúde (SNS), existiu uma diminuição da vacinação no mês de Março, algo que já não se verificou neste mês de Abril. De acordo com a coordenadora do PNV, muitos pais têm tido dúvidas sobre se podem ou não levar os filhos aos centros de saúde para serem vacinados nesta altura.

“É natural que existam menos vacinas a ser administradas. Temos comunicado aos serviços que não devem adiar a vacinação prioritária e temos dito quais são as vacinas essenciais e em que casos é que estas não podem ser atrasadas. No entanto, é normal que as restantes sejam adiadas”, explica a coordenadora do PNV.

Esta semana, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (​ECDC, na sigla inglesa) alertou, num dos seus relatórios semanais, para o atraso na vacinação das crianças em vários países, dizendo que esta demora pode levar à ocorrência de novos surtos de várias doenças, como o sarampo, por exemplo. “Os surtos [de sarampo] estão a ser relatados em vários países da União Europeia, inclusive naqueles que já tinham eliminado ou interrompido a transmissão”, lê-se no relatório do ECDC. Em 2020, foram já registadas duas mortes, ambas na Bulgária, devido a esta doença. 

Até Fevereiro, Portugal registou sete casos de sarampo. Em todo o ano de 2019, foram diagnosticados dez casos, de acordo com os relatórios do ECDC. Sobre esta questão, Teresa Fernandes explica que os casos registados em 2020 são, na sua grande parte, isolados e importados do Brasil, sendo que três deles ainda estão sob investigação. “Não há razão para alarme apesar de estar a aumentar o risco fora de Portugal. Depois de Março não existiram mais casos notificados porque as pessoas têm estado em casa e não há viagens, não há maneira de importar casos. No entanto, assim que acabar o estado de emergência, o risco vai aumentar porque sabemos que em todo o mundo há países que podem não ter conseguido manter a vacinação”, explica a responsável pelo PNV.

Questionada sobre a diminuição do número total de vacinas em Portugal durante Março e Abril, Teresa Fernandes explica que a Direcção Geral de Saúde (DGS) não realiza uma avaliação por semana ou mesmo por mês, mas garante que, pelos dados mais recentes, é possível que mais de 10 mil crianças não tenham recebido vacinas. "Esta variação pode também ter a ver com segundas doses. É natural que haja uma quebra na vacinação, mas é referente às vacinas que não têm que ser feitas agora”.

Ainda assim, a coordenadora do PNV, que assegura que Portugal tem uma alta cobertura em termos de vacinação, deixa o alerta de que é necessário não deixar de vacinar as crianças atempadamente para não se correrem riscos “desnecessários”. "Não podemos deixar de vacinar. O que estamos a aconselhar é que as pessoas telefonem ou enviem e-mail para marcar e para que não exista aglomeração de pessoas na sala de espera. Se não conseguirem contactar de todo com o centro de saúde podem ir até ao local para vacinar as crianças com segurança, até porque os serviços de vacinação estão completamente separados dos serviços de covid-19”, refere.

A especialista deixa ainda o alerta de que nem todas as vacinas têm um carácter urgente e que se deve evitar ir aos centros de saúde se não for necessário. “Quando dizemos que a criança tem de ser vacinada até aos cinco anos, os pais têm esse ano todo para vacinar, não é preciso ir a correr. Todos sabemos que os serviços estão muito virados para a covid-19, não vale a pena estarmos a exigir mais nesta altura”, avança Teresa Fernandes.

Governo apela a que não se adie vacinação

A Direcção Geral da Saúde tem deixado, durante os últimos meses, vários alertas para a necessidade de cumprir o Programa Nacional de Vacinação, uma vez que este “é absolutamente essencial para evitar casos de doenças ou surtos”. "É uma medida de saúde pública prioritária, uma vez que previne doenças como o sarampo, a tosse convulsa, o tétano, doenças muito graves como a meningite”, alertou a DGS em comunicado.

Duas semanas depois, a própria Directora-Geral da Saúde dizia em conferência de imprensa: “Nenhuma criança e nenhum adulto com a vacina do sarampo em atraso deve continuar nesse cenário. Não adie de forma alguma a vacinação, porque, se deixarmos de vacinar, […] poderemos ter outro tipo de surto que não apenas este, que já tanto dano causa à sociedade”.

Uma em cada dez crianças sem protecção contra o sarampo

Uma em cada 10 crianças com 13 meses de idade em Portugal não tinha, no final do ano passado, qualquer vacina contra o sarampo, indica o relatório do Programa Nacional de Vacinação (PNV) que foi divulgado esta sexta-feira. Segundo o documento, aos 13 meses de idade, 14% das crianças ainda não tinham iniciado a vacinação contra o sarampo nem contra a doença invasiva meningocócica do grupo C, que deve ser administrada aos 12 meses.

“Este facto coloca as crianças desta idade em risco de surtos de sarampo, se contactarem com casos, uma vez que estão, na sua maioria, juntas em creches, sem beneficiarem da imunidade de grupo, conferida a partir de uma cobertura de 95%”, alerta o documento da Direcção-Geral da Saúde (DGS).

No mesmo relatório, é também revelado que a cobertura vacinal subiu no ano passado para a segunda dose do sarampo e para a vacina do vírus do papiloma humano (HPV). Em declarações à agência Lusa, a coordenadora do PNV, Teresa Fernandes, explicou que Portugal está bem e que conseguiu, em 2019, “aumentar as taxas para algumas vacinas, como o sarampo, pois a segunda dose [que deve ser tomada aos 5 anos] já vai nos 96 ou 98% [de cobertura], ultrapassando a 95%”, que é quando se atinge a imunidade de grupo. Com Lusa