Opinião

A idade do lítio

O aproveitamento global dos nossos recursos minerais e a construção desta e de outras cadeias de valor terão um papel determinante na recuperação económica do País no período posterior aos tempos difíceis que hoje atravessamos e que tanto desejamos que terminem rapidamente.

A Idade da Pedra não acabou
por ficarmos sem pedras e a idade
do petróleo não acabará devido à sua exaustão
Don Huberts, Chefe de Divisão na Royal Dutch/Shell, 1999

Há um par de meses atrás não imaginaríamos que as palavras premonitórias de Don Huberts, citadas por tantos nos mais de 20 anos posteriores, estariam tão perto de se tornar realidade. Na verdade, os acontecimentos desta semana, em que o petróleo foi transacionado a preços negativos (Crude WTI), em grande parte devido à atual pandemia, mostraram-nos que o mercado, mais do que impor uma redução drástica do preço, não resiste aos nossos hábitos de vida (mesmo que forçados!), até o de produtos tradicionalmente poderosos e (ainda) essenciais para o respetivo estilo de vida. Fica assim posta em causa a viabilidade económica da sua extração e consequentemente a sua produção, em especial de países onde ela tem custos mais elevados e/ou produtores de menor expressão (e que são os principais abastecedores de Portugal).

Convirá lembrar que o consumo global de energia primária em Portugal, ainda hoje, e pese embora o aumento considerável do abastecimento proveniente de energias renováveis dos últimos anos, está dependente em 75% de combustíveis fósseis, isto é, de petróleo, gás e carvão, todos eles importados (2018, últimos dados oficiais disponíveis).

Tudo indica, portanto, que a revolução ou transição energética já iniciada (e conforme várias decisões da Comissão Europeia o salientam – Estratégia 2050, Green Deal) será muito em breve acelerada a nível Mundial e Europeu na procura de fontes alternativas que assegurem, sem disrupções, os nossos consumo energético, desenvolvimento e qualidade de vida. Como em toda a história da Humanidade, os recursos minerais e o seu aproveitamento constituirão uma das principais bases da nossa sustentabilidade. Toda a infraestrutura que necessitaremos de construir para abastecer o nosso consumo energético neste novo cenário necessitará de vários recursos minerais, críticos e estratégicos, como o cobre, o chumbo, o zinco, as rochas industriais, as terras raras, os metais preciosos, o lítio, só para citar alguns.

Portugal é reconhecido internacionalmente pelo seu potencial mineral em vários destes recursos, produzindo inclusivamente alguns deles. Infelizmente não foi possível criar para todos eles cadeias de valor que nos permitiriam, não só, captar o respetivo valor acrescentado como diminuir a nossa dependência do exterior, incluindo a energética.

Mas, para um deles, isso ainda é possível: o lítio, como aliás vários países europeus e a própria Comissão Europeia preconizam na European Battery Alliance. Além dos recursos já identificados e do enorme potencial, temos também um Governo empenhado em promover a construção da referida cadeia de valor deste metal no País, temos instituições de investigação e académicas com excelente conhecimento nestas matérias e, finalmente, temos empresas que têm vindo a apostar e a investir no País, com capacidade tecnológica suficiente para desenvolver os respetivos projetos de forma ambientalmente correta e em benefício das comunidades locais, dos municípios, das regiões, do País.

Não estamos só a referir-nos à fabricação de baterias para veículos elétricos e híbridos, mas principalmente ao papel fundamental que o lítio terá na construção de centrais de armazenagem energética, que serão absolutamente estratégicas no abastecimento à sociedade neste novo contexto. Com menos emissões a nível global, mas com idêntica sustentabilidade e segurança na resposta às nossas necessidades de consumo.

Acresce o facto que o aproveitamento global dos nossos recursos minerais e a construção desta e de outras cadeias de valor, assim como contributos de outros sectores primários da nossa economia, onde todos os outros enraízam, terão um papel determinante na recuperação económica do País no período posterior aos tempos difíceis que hoje atravessamos e que tanto desejamos que terminem rapidamente.

Esperemos que o País não desperdice esta oportunidade.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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