Sub-30: trança a trança, entre cerâmica e cestos, Eneida resgata raízes

Com 30 anos, a designer de produto Eneida Lombe Tavares cruza nas suas peças cerâmica e cestaria e, pelo meio, resgata raízes e ofícios: "Isto não vai acabar, se calhar ainda vamos desaparecer primeiro." 

"Cuidado, isto está tudo armadilhado" é a recomendação que Eneida Lombe Tavares faz à entrada do "caos arrumado" do seu atelier. "Desde miúda que sabia que queria seguir uma área de expressão", conta a designer de produto, que sempre gostou de arte. Aos 30 anos, recorda o imaginário com que cresceu, que só conhecia "através de imagens, de histórias, de familiares”. Daí foi criando a sua "própria imagem daquilo que poderia ser" a sua herança cultural, angolana do lado da mãe e cabo-verdiana do lado do pai.

Da “procura pelas técnicas e materiais que tinham a ver com as raízes”, nasceu um corpo de trabalho marcado maioritariamente pela cestaria — “é uma coisa que tem aquela ligação à natureza, se se fizer o percurso todo", elabora; "ir buscar as fibras, prepará-las, é todo um processo”. O interesse pelo entrançar das fibras naturais pode vir da relação próxima que sempre teve com a trança. Lembra-se, com uma paciência inabalável que ainda transparece, de passar em criança "umas quantas horas a entrançar o cabelo”.

De entre todos os seus projectos, o "mais conhecido" deverá ser Caruma, série composta por três peças em que cruza cerâmica com cestaria — disponíveis em amarelo, azul ou cor natural. Dedica-se a esta obra artística desde 2014 e "as encomendas continuam a chegar". “Quando percebi que ia juntar a cerâmica e a cestaria, joguei muito com os contrastes, entre as medidas exactas do primeiro e a liberdade de produção do segundo”, explica. A parte “orgânica” da peça, pouco a tem desenhado, preferindo jogar com as formas que a caruma dá, “à medida que a peça se vai produzindo”. "Isto nunca é erro, é particularidade", graceja, enquanto trabalha.

Actualmente, está a morar nas Caldas da Rainha, cidade para onde se mudou aos 18 anos, para se formar em Design Industrial na Escola Superior de Artes e Design. Terminado o mestrado, a artista nascida no Barreiro percebeu que  ficaria por ali – “a minha primeira reacção foi ‘onde é que vou guardar as minhas coisas?’, estava cheia de tralha”. Assim, decidiu abrir o seu atelier, qual colecção de utensílios, ferramentas, cestos, cerâmicas e vidros, sem fim à vista. Partilha-o com o namorado Jorge Carreira, com quem forma o colectivo Estúdio Mulato.

“Foi fácil emancipar-me e tornar-me independente”, revela, numa cidade que tem “montes de ateliers”. Admira os artesãos com quem contacta, “um poço de conhecimento”, numa área de trabalho em que “as pessoas não são fábricas”. “São técnicas que requerem muito tempo e o resgate desses ofícios por parte das gerações mais novas é extremamente importante”, considera. Conversas sobre o fim das práticas manuais, afugenta-as: “Epá, isto não vai acabar, se calhar ainda vamos desaparecer primeiro.”

Diz que o público tende a entender as suas peças e que, se até 2019 as suas obras iam maioritariamente para o estrangeiro, pela primeira vez “sentiu alguma mudança”, com o aumento da procura portuguesa. Tal também se pode dever à entrada em cena da Vicara, uma marca de “gente da vizinhança, um grupo coeso e amigo” que comercializa as suas peças e as promove em feiras, nacionais e internacionais. Em plena pandemia do novo coronavírus, contudo, o foco agora passou para o online.

Uma Caruma amarela está actualmente em exibição na residência oficial do primeiro-ministro, o que a deixa “extremamente satisfeita”. O facto de a exposição de chamar Traços da Cultura Portuguesa deixa-a “duplamente contente" — "porque, de repente, representar Portugal significa representar mesmo Portugal, com todas as pessoas que fazem este território de gente que não sabe bem de onde é que veio”. Também na busca dessa compreensão tem andado a resgatar imagens de catálogos da época colonial. "Interessa-me esta questão de desconstruir", tece, enquanto folheia cuidadosamente um livro da década de 60. É uma “necessidade de saber mais sobre a história recente de Portugal, o outro lado da história”, bem como do percurso da sua família, que assentou em Portugal na década de 70. Já esteve em Cabo Verde por duas vezes, mas nunca em Angola. Irá, um dia, tal como fez para Cabo Verde, primeiro num ambiente "estritamente familiar”, depois em trabalho. Encara essas viagens como um regresso ao “ponto de partida” – “tenho que forçar, estes trânsitos têm que acontecer”.

Para já, não é o novo coronavírus que a vai parar. Por estes dias, está a trabalhar numa nova cadeira com o parceiro, Jorge, e sente-se pronta para ampliar o projecto. Quer fazer colaborações e projectos com outras pessoas e continuar numa lógica de pequenas séries de design, no seu atelier próprio. Mas, por agora, está a “tentar perceber se o projecto pode crescer e ter uma equipa", ser "forte o suficiente para empregar pessoas”. “Acho que pode ser desafiante, isso seria o ideal.”

A série Sub-30 dá a conhecer jovens talentos portugueses.

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