NFS - Nuno Ferreira Santos
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Porque continua a ser importante analisar as drogas durante a pandemia?

Já nos chegaram relatos que, após algumas semanas de estado de emergência, o preço das substâncias aumentou e a acessibilidade diminuiu, o que potencia maiores níveis de adulteração e a introdução no mercado de substitutos mais potentes ou tóxicos.

Adicionar outras substâncias às drogas para aumentar a potência, contornar a lei e aumentar o lucro é, provavelmente, uma prática tão antiga como o próprio uso de drogas. Foi a 18.ª emenda da Constituição dos Estados Unidos da América que ratificou a proibição da produção, venda e transporte de bebidas intoxicantes. Corria o ano de 1919 e esta tentativa de reformar o segmento da sociedade responsável pela produção e distribuição do mais importante intoxicante da nossa sociedade, o álcool, retirou a licença de vinicultores, cervejeiros, destiladores, grossistas, retalhistas e de todos os envolvidos neste negócio. Ficou conhecida como a lei seca. Como seria de esperar, uma considerável franja da sociedade continuou a procurar álcool. Em 1925, contavam-se mais de 30 mil bares ilegais só na zona de Nova Iorque. O bootlegging, a produção e tráfico de álcool durante a lei seca, gerou milhões de dólares e permitiu que os sindicatos do crime investissem em actividades paralelas como tráfico humano e de armas. Os detalhes desta história são fáceis de encontrar, basta aproveitar o período de quarentena para espreitar a mini-série documental Prohibition de Ken Burns e Lynn Novick.

Para contornar as dificuldades de intoxicação durante a lei seca, tornou-se prática comum beber outros produtos que continham álcool, como o Jamaican Ginger, uma preparação à base de extracto de raiz de gengibre que continha mais de 70% de álcool e era vendida para tratar infecções e problemas de digestão. Quando as autoridades obrigaram as farmácias a alterar a composição do Jamaican Ginger para lhe dar um travo amargo que dificultasse a ingestão, os bootlegers começaram a usar aditivos para tornar este xarope mais palatável. Um desses aditivos, o TOCP, veio a descobrir-se ser neurotóxico depois de provocar paralisia parcial em mais de 50 mil americanos devido a danos na medula espinhal.

É verdade que, com a lei seca, o número de consumidores de álcool diminuiu de forma global, mas as bebidas disponíveis passaram a ter um conteúdo mais elevado de álcool, a ter outras substâncias tóxicas adicionadas e o consumo passou a acontecer de forma escondida, sem controlo sanitário. Para além do aumento da violência e da criminalidade, consumir álcool durante esses anos passou a apresentar mais riscos de saúde e sociais. Eventualmente tornou-se claro que a proibição do álcool não funcionava, trazia à sociedade mais problemas do que os que resolvia e a contestação popular fez com que a lei fosse revogada.

Contudo, o mesmo não aconteceu ainda com a maioria das outras drogas. Quem consome drogas, ainda tem de o fazer às escondidas e tomar precauções para não ser apanhado nas malhas da lei. A produção e distribuição de drogas são geridas por organizações criminosas que, em geral, têm poucas preocupações com a qualidade do produto final. Por exemplo, uma grande parte da cocaína que circula no mercado informal está adulterada com levamisol, um desparasitante animal potencialmente mais tóxico que a própria cocaína e que se acredita intensificar os efeitos. A variação da composição química das drogas é um dos factores que mais aumenta os riscos do seu consumo. No ano passado, os Estados Unidos contabilizaram mais de 30 mil mortes por overdose causadas por derivados do fentanilo, substâncias utilizadas para adulterar opióides como a heroína ou analgésicos.

Para responder a este fenómeno, nos anos 60 começaram a surgir serviços de drug checking. Este tipo de serviços permite que as pessoas que usam drogas entreguem amostras das suas substâncias para análise e recebam informação sobre o seu conteúdo, assim como aconselhamento especializado que lhes permita minimizar os potenciais riscos do seu consumo. Este tipo de projectos, promovidos por universidades ou organizações não-governamentais, estão hoje disseminados por quase todos os países da Europa. Neste momento já é possível afirmar que os dados obtidos através de um serviço de drug checking permitem desenhar respostas ajustadas que potenciam a saúde e o bem-estar das pessoas que consomem drogas e da comunidade, com a vantagem de serem serviços rentáveis, tendo um óptimo rácio custo/benefício.

Em Portugal, a associação Kosmicare já disponibiliza o serviço de drug checking em festivais há uns anos. No entanto, em Setembro do ano passado, graças ao financiamento do SICAD (Ministério da Saúde) e da Câmara Municipal de Lisboa, a Kosmicare criou um espaço de atendimento em Lisboa. Neste espaço é possível qualquer pessoa entregar pequenas amostras de substâncias para análise, assim como ter aconselhamento especializado sobre questões relacionadas com o consumo de drogas e saúde.

Desde que abriu portas, o serviço da Kosmicare já analisou dezenas de amostras de diversas drogas, o que possibilitou, por exemplo, sinalizar várias pastilhas de MDMA com doses 2 a 3 vezes superiores à normal. A comunicação desta informação aos/às utilizadores/as permitiu reduzir o risco imediato de overdose, mas também chegar a muitos/as jovens que estão a iniciar os seus consumos e que não procuram apoio nos serviços de saúde mais convencionais.

Os dados recolhidos pela Kosmicare (resumidos aqui e aqui) indicam que o serviço tem um impacto positivo na tomada de decisão das pessoas. Mais de 80% das pessoas que descobrem que a composição química da substância que tencionam consumir não corresponde à sua expectativa, não consomem. Para além disso, muitas delas passam a adoptar uma série de comportamentos para proteger a sua saúde.

Sabemos que as pessoas não deixam de consumir drogas em alturas de profunda crise e que poderão até consumir ainda mais, principalmente como estratégia para lidar com a ansiedade e o medo. Neste momento ainda não é possível avaliar o impacto global que medidas como a restrição de movimentos de pessoas e bens e isolamento social poderão ter, por um lado nos mercados de drogas e por outro nos comportamentos das pessoas que as consomem. Já nos chegaram relatos que, após algumas semanas de estado de emergência, à semelhança do que está a acontecer com outros produtos, o preço das substâncias aumentou e a acessibilidade diminuiu, o que potencia maiores níveis de adulteração e a introdução no mercado de substitutos mais potentes ou tóxicos. Além disso, o consumo em isolamento, principalmente de substâncias adulteradas, acarreta elevados riscos de overdose ou outras emergências.

A detecção atempada de introdução de novas substâncias no mercado pode salvar vidas e é disso que precisamos neste momento. O serviço de drug checking da Kosmicare continua a funcionar, sendo a entrega de amostras possível após marcação através do e-mail [email protected] ou do número 911 185 758.

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