A crise da subjectividade

O sujeito vive numa bolha que encapsula o tempo, o instante torna-se o único acontecimento.

A subjectividade digital implica novas percepções do espaço, do tempo e do corpo: o espaço deixou de ser “métrico”, euclidiano, referido a três coordenadas, para se tornar “topológico” (na terminologia de Michel Serres), remetendo apenas para um “lugar”. É o que acontece com o utilizador do telemóvel. A experiência do tempo já não remete para uma data ou um calendário, que dispõe o tempo a partir de um ponto zero, em série cronológica e objectiva, mas imerge o indivíduo profundamente num tempo virtual em que conta só o presente instantâneo que absorve passado e futuro, lembranças, expectativas e esperanças. O sujeito vive numa bolha que encapsula o tempo, o instante torna-se o único acontecimento, que tende a auto-referenciar-se. Quanto à experiência do corpo, ela é afectada no mesmo sentido, virtualizando-se. É o que experimentam os hackers, ou aqueles que passam 12 ou 14 horas diante do écran digital: sentem-se esvair-se, fundindo-se com o espaço virtual, perdendo os limites do corpo e do espírito.

Os casos do utilizador do telemóvel e dos hackers são emblemáticos de uma vasta experiência social em que a realidade desaparece sob a proliferação de imagens de todo o tipo, construídas com a tecnologia mais sofisticada. O espaço, o tempo, a matéria, e o corpo virtualizam-se em todos os domínios da experiência. Formam-se assim subjectividades novas que vão coexistindo com as subjectividades “tradicionais”, com as quais entram em conflito.

As subjectividades tradicionais supunham um território fixo em articulação com um calendário imutável e um corpo comunitário, correspondendo às sociedades rurais e arcaicas, que foram perdurando e transformando-se (e desgastando-se) ao longo do desenvolvimento das sociedades capitalistas. Se na sociedade pós-industrial que é a nossa emergiram subjectividades de tipo “digital” facilmente adaptáveis a um espaço e a um tempo virtuais, e que tendem a dispensar o corpo, é porque o indivíduo e a colectividade sofreram uma imensa desterritorialização que abalou e desmantelou os referentes tradicionais. A desterritorialização das populações, das culturas, das imagens e das emoções, acompanhou a evolução cada vez mais rápida da técnica e das tecnologias, até se chegar à comunicação digital, em tempo real. Esta desterritorialização universal não constitui apenas um efeito da economia capitalista, pois, agindo em feedback, estimula-a, provoca-a, fá-la crescer. Por outro lado, a movimentação constante das populações teve desde sempre como consequência imediata a transformação dos territórios. Estes deixaram de ser o lugar de envolvência onde o espaço, as coisas, o bairro, a cidade, a paisagem, encerravam e devolviam o sentido da vida, onde esta decorria em ritmos ainda incorporáveis, para se tornarem, cada vez mais, lugares de passagem, de trabalho precário, de azáfama e tensão, lugares hostis com um mínimo de ligação afectiva com a existência de cada um.

Os saberes ancestrais, o respeito pelos velhos e pelos mortos, o laço com a terra natal, e depois, a família e a educação, a relação política — tudo isso se estilhaçou e se dispersou sob o choque e a pressão permanente do desenvolvimento do capitalismo. A desterritorialização e, hoje, a virtualização de todos os conteúdos sociais, culturais, existenciais, conduziram a um desequilíbrio fundamental, abrindo um fosso entre a nova realidade virtual que se impõe progressivamente em todos os domínios, e “os valores” tradicionais em que assentava a vida individual e colectiva. Esta desfasagem define a crise actual da subjectividade, espartilhada entre a desterritorialização digital e a sedentarização arcaica nos velhos territórios identitários. A coexistência, essencialmente conflituosa, entre estas duas forças, entre a subjectividade digital e a subjectividade tradicional, provoca os maiores disfuncionamentos (e patologias: stress, depressão, burn-out e inúmeras doenças do trabalho). Mas a crise da subjectividade não é senão uma manifestação da caotização geral que abre e espalha brechas em todos os campos, opondo as exigências da economia financeira aos estratos jurídicos, institucionais ou culturais, e cada estrato aos outros, desenvolvendo falhas mesmo num só estrato, numa crise generalizada da vida social e individual.