Metade das mortes europeias em lares de idosos – uma “tragédia humana inimaginável”, diz OMS

Falta de equipamento de protecção e imposição de quarentenas desprotegeram e reduziram o número de funcionários em residências e lares europeus, onde residem alguns dos mais vulneráveis à pandemia.

Lar de idosos
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Quarto do lar de idosos de Valverde del Majano, em Espanha Reuters/SUSANA VERA

A Organização Mundial de Saúde (OMS) assumiu esta quinta-feira, através do seu director regional para a Europa, Hans Kluge, que metade das mortes causadas pelo novo coronavírus nos países europeus teve lugar em residências e lares de idosos. Estabelecimentos onde Kluge diz estar em curso uma “tragédia humana inimaginável”, que poderá ter sido consequência indirecta da prioridade dos Governos em equipar e proteger hospitais e unidades de saúde.

“De acordo com as estimativas dos países da região europeia, quase metade daqueles que morreram com covid-19 eram residentes em estabelecimentos de cuidados continuados”, citou o dirigente da organização mundial, em declarações aos jornalistas, atestando a fidedignidade dos cálculos europeus. 

Segundo os números oficiais, organizados no site da Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, já morreram mais de 113 mil pessoas por causa da doença em toda a Europa, com Itália (25.085 mortos), Espanha (22.157) e França (21.340) à cabeça.

A maior partes dos países europeus decretou medidas de quarentena e proibiu as visitas aos lares de idosos e de pessoas com deficiência, numa tentativa de proteger uma fatia da população considerada altamente vulnerável à doença – quer seja pela idade avançada, por doenças pré-existentes ou pelas “dificuldades cognitivas” provocadas por demências ou patologias semelhantes.

Mas, em alguns casos, a estratégia acabou por se revelar contraproducente, já que resultou na diminuição do número de funcionários e não foi acompanhada nem pela realização massiva de testes à infecção nestas instituições, nem pelo reforço da protecção dos seus funcionários.

“A maneira como muitas instituições prestam os seus cuidados dá ao vírus caminhos para se propagar”, afirmou Hans Kluge. “[O sector] tem sido negligenciado há muito tempo”, acrescentou, defendendo mudanças “imediatas e urgentes” na maneira como os lares funcionam, para garantir “apoio físico e mental” e um equilíbrio entre as necessidades dos pacientes, das suas famílias e dos profissionais.

Os diferentes métodos utilizados por cada país na contagem dos mortos e infectados pela covid-19 são um entrave à recolha, tratamento e comparação estatística das características etárias das vítimas da doença entre eles. Um estudo da London School of Economics, divulgado na semana passada, estimava que entre a 42% a 57% das mortes registadas na Bélgica, Canadá, França, República da Irlanda e Noruega, teve lugar em lares, e tem servido de base para outras sondagens sobre o impacto do vírus neste tipo de estabelecimentos. 

Na quarta-feira o ministro da Saúde britânico, Matt Hancock, contrariou as estimativas da comunidade académica e científica do Reino Unido, dizendo que as mortes em lares no país podem vir a corresponder a 20% do total óbitos e não a 40%. Na Alemanha, o Instituto Robert Koch – a agência responsável pela investigação em Saúde Pública do Governo Federal – coloca a fasquia num terço dos 5354 mortos. 

A France 24 cita as autoridades sanitárias francesas para calcular que mais de um terço das 21.340 mortes ocorrem em instituições e residências para idosos em França, e a RTVE, de Espanha, apresenta uma percentagem bem mais elevada, baseada nos dados do Ministério da Saúde: quase 69% dos que morreram com covid-19 em solo espanhol residia em lares.

Com Lusa

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