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Penso D. Leonor, na D. Adelina, na Carla, na Paula, na Elisabete, na Maria João e na Fernanda. Ter medo do vírus é um luxo a que não se podem dar.

Quando a vida põe dificuldades inesperadas no caminho, cada um, nas suas circunstâncias, com as suas forças e fraquezas, tenta passar o melhor que pode. Nesses momentos de sofrimento generalizado, é boa regra não contemplarmos excessivamente o nosso umbigo nem exagerarmos os nossos méritos. Como disse Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego, “considerar a nossa maior angústia como um incidente sem importância, não só na vida do universo, mas na da nossa mesma alma, é o princípio da sabedoria”.

Na sexta semana de confinamento domiciliário, no meio desta crise que desorganizou por completo a vida de toda a gente, olho à volta e não tenho coragem para me queixar de nada. Pelo contrário, sinto-me um privilegiado. Os tribunais foram a primeira instituição pública a entrar em serviços mínimos. Uma semana antes da declaração do estado de emergência, já estava a trabalhar em casa, com acesso remoto aos processos, usando o equipamento que o Estado me entregou e com oficiais de justiça no tribunal a quem posso pedir apoio. Sou eu que aplico a lei que determina os actos que devem ou não ser praticados e decido, no limite, o que tenho de fazer, quando e em que condições. Se, por qualquer razão, tiver de me deslocar ao tribunal e sentir que não me são dadas suficientes condições de segurança, posso simplesmente optar por não ir. Ou seja, no plano profissional, sou dos que se encontram numa situação de exposição ao risco de contágio mais controlada.

A maior parte das pessoas da comunidade de trabalho em que me insiro não tiveram a mesma sorte.

Penso na D. Leonor, do tribunal de Almada: porteira, recepcionista, vigilante, segurança, telefonista, relações públicas, arquivista, estafeta; tudo o que for preciso, ela faz. Há 40 anos a trabalhar, com um ordenado que não deve chegar a 700 euros, cumpre rigorosamente, não se queixa e tem sempre uma graça ou uma resposta simpática. Para ela, não há direito a refugiar-se em casa para se esconder do vírus nem autorização para ter medo. Está no seu posto, na linha da frente, a fazer o que sempre fez, sem escolha.

Penso na D. Adelina, a senhora da limpeza que todos os dias corre o tribunal, de uma ponta à outra, de balde e esfregona, atrás de cada pessoa que entra e sai, a lavar, a desinfectar, para minimizar o risco dos outros. Nela e em todas essas pessoas simples, modestas, invisíveis, que, apesar das imensas dificuldades, se dão por felizes por terem trabalho e poderem levar para casa todos os meses o salário mínimo que dá comer aos filhos e lhes paga os livros da escola. Ter medo do vírus é um luxo a que não se podem dar.

Penso na Carla, na Paula, na Elisabete, na Maria João e na Fernanda, as oficiais de justiça do meu tribunal, que me dão todo o apoio de que preciso à distância e asseguram com a sua presença o funcionamento possível. Altamente especializadas, com salários modestos e poucas condições de trabalho, são elas que recebem as pessoas, que preparam as salas, que mexem nos processos, que a tudo respondem com prontidão e um sorriso. Com mais medo ou menos medo, aguentam firmes na primeira trincheira.

Numa pirâmide, as pedras do topo são as que brilham mais e que toda a gente vê, mas as da base, mais sombrias, são as mais fortes, que aguentam com o peso todo. Se alguma coisa esta crise nos ensinou sobre a organização do trabalho e a importância social de cada profissão, é que as peças mais pequenas, que pareciam insignificantes e a que nos habituámos a dar menos valor, são, afinal, essenciais para manter a máquina em funcionamento.

Brevemente, de forma gradual, os tribunais vão reabrir. É necessário. Não é possível ter o país parado por muito mais tempo, quando já se percebeu que vem aí uma nova tempestade de problemas para resolver. Há muito trabalho para fazer, tantos e tantos casos urgentes que ficaram para trás, casos novos que vão chegar aos milhares, em resultado da crise. Para os tribunais poderem funcionar em pleno – ou o mais próximo possível disso – é preciso garantir as condições de segurança e a funcionalidade de todas as peças humanas da engrenagem.

“A gratidão é o único tesouro dos humildes”, disse William Shakespeare. Por isso, não custa nada dizer obrigado a quem tanto mereceu e costuma ficar no esquecimento.

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