A princípio, não queria vir para casa...

Quando cheguei ao aeroporto, parecia que tinha entrado num filme: toda a gente usava máscaras, os altifalantes relembravam os passageiros da distância de segurança e olhos esbugalhavam um pouco por todo o lado de cada vez que alguém tossia ou espirrava.

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Jerry Zhang/Unsplash

Numa destas manhãs recebi um aviso no email: “O seu voo de volta para Bruxelas é amanhã”... mas a verdade é que já não é. Num mês, tudo mudou: voltei para Portugal (deixando metade da minha vida para trás), o meu mestrado passou a ser inteiramente online (parece que sou oficialmente parte da #ClassOfCovid19) e alguns dos meus projectos foram suspensos até nova avaliação (incluindo o meu estágio). Os dias têm sido mais calmos, mas certamente também mais preenchidos com ansiedade. Lembro-me muitas vezes de que 2019 foi o ano em que mais me queixei por falta de tempo para descansar — e, agora, 2020 está a forçar alguns de nós a fazê-lo, às custas do tremendo sacrifício daqueles que não podem parar ou que foram severamente afectados, directa ou indirectamente, pela covid-19.

Ainda me lembro das primeiras notícias acerca desta nova doença e de pensar “não vai chegar cá” — um erro crasso que a maior parte de nós cometeu, do alto do confortável estilo de vida que sempre nos foi assegurado. No estágio, uma das minhas tarefas passa/passava por recolher diariamente notícias sobre o estado do mundo, pelo que vi toda esta situação desenrolar-se através de um ecrã de computador. A diferença entre a maneira despreocupada com que, no início, os estagiários falavam e trabalhavam o novo coronavírus e o ambiente pesado, quase aterrador, que precedeu a declaração de pandemia e o consequente fecho do escritório foi gritante. Pessoalmente, lembro-me até de ter medo de andar de comboio (que apanhava todos os dias para chegar ao escritório), algo que sempre adorei, desde miúda. A partir do momento em que categorizei o vírus como uma ameaça, as coisas mais mundanas e outrora triviais passaram a deixar-me demasiado alerta.

A princípio, não queria vir para casa. Queria ficar porque tinha medo de vir e poder infectar a minha família. No entanto, tudo começou a acontecer depressa demais: países muito próximos e semelhantes ao nosso, Itália e depois Espanha, começaram a ser fortemente afectados, a República Checa fechou todas as fronteiras, e notícias de açambarcamentos e previsões assustadoras começaram a chegar um pouco de todo o mundo — e, inevitavelmente, mexeram com o bichinho da ansiedade, que queria ajudar e estar com a família caso o pior acontecesse. No meio de muita confusão e lágrimas, comprei o meu bilhete de saída. Olhando para trás, sinto que fui uma privilegiada: tive tempo, hipótese e condições de o fazer.

Quando cheguei ao aeroporto, parecia que tinha entrado num filme: toda a gente usava máscaras, os altifalantes relembravam os passageiros da distância de segurança e olhos esbugalhavam um pouco por todo o lado de cada vez que alguém tossia ou espirrava. Lembro-me de ter as palmas das mãos muito suadas por debaixo das luvas de látex, e de quase saltar do meu banco quando uma senhora se aproximou um bocadinho demais para pedir ajuda para chegar até à sua porta de embarque. Foi o pior voo da minha vida — e, para alguém que já teve muito medo de voar (ao ponto de cancelar e evitar viagens), isto significa muito. Passei o pré, o durante e o pós-voo com o estômago na boca, apesar de ter sido dos voos mais silenciosos e sem turbulência da minha vida. A turbulência, essa, imperava noutro lado. Quando o meu avião aterrou, chorei... No entanto, não estou certa se foi porque senti medo ou (uma maior) segurança.

Agora, depois de semanas em quarentena (e um total de cinco em confinamento), tenho medo de toda uma nova panóplia de coisas: perder aqueles que amo e não estimei o suficiente antes de isto tudo começar, abraçar aqueles que moram comigo, que este aperto que sinto no peito não seja só ansiedade ou que a minha dificuldade em respirar não seja só por causa das alergias. No esquema maior das coisas, também tenho medo por aqueles que sofrem numa altura destas, sejam eles sem-abrigo, refugiados, vítimas de violência doméstica, pessoas carenciadas ou profissionais expostos à doença diariamente. Temo que a economia caia a pique e que o extremismo político suba de tal maneira que a minha geração e as que se seguirão tenham os seus futuros e liberdades hipotecados, tal como aqueles que, antes de nós, trabalharam para que isso não nos acontecesse.

Acerca do futuro? Certezas não tenho, e dúvidas tenho-as a mais. Portanto, posso apenas repetir o que ouvi alguém dizer na televisão há dias: “Não sei se vai ficar tudo bem... sei que vai ficar tudo diferente” — e, tal como aqueles antes de nós, vamos ultrapassar essa diferença... juntos.