Direito de Resposta: Deus escreve direito por linhas tortas!

Direito de resposta de Jorge Bacelar Gouveia ao artigo de opinião “Liberdade religiosa e o bom senso católico”.

No PÚBLICO de 17.4.2020, a sua antiga diretora, Bárbara Reis, teve a “amabilidade” de me chamar “constitucionalista radical” - e até de me comparar a Trump e a Bolsonaro, pasme-se (?!) - por causa da suspensão da liberdade religiosa coletiva que o estado de exceção tem determinado, um assunto que abordei em artigo de opinião publicado nesse jornal em 1.4.2020, opinião veiculada nesse mesmo dia no programa da RTP Linha Direta, dirigido por António Esteves, cujo excerto aqui vos deixo.

Na verdade, o sentido de humor da Dra. Bárbara Reis, ao chamar-me “constitucionalista radical”, seria mesmo refinado se não fosse tragicamente revelador do seu drama obsessivo de “educadora da opinião pública”, além de ser um comentário - e digo-o com todo o respeito e fair play, matéria que não é o seu forte - que padece de quatro males:

- o mal da ignorância do conhecimento do texto da Constituição Portuguesa - não leu o art. 19º, nº 6, da CRP, no qual a liberdade religiosa não pode ser suspensa no estado de exceção;

- o mal da intolerância, na variante da “intolerância anti-religiosa” - porque todos sabemos que o ateísmo (que confessa professar) é também uma “religião”, uma religião “negativa”, - para com os que têm fé, ou pelo menos os das fés que não refere no artigo, citando um conhecido atleta, em relação aos quais a atividade de culto não se resume apenas às missas, mas, por exemplo, sair de casa e praticar atos de culto num templo, o que está proibido pelo art. 5º do decreto de exceção, não tendo esta jornalista - se é mesmo ateia... - que se pronunciar sobre o que é mais ou menos importante na liberdade da crença que cada acha sobre o que é mais ou menos importante fazer;

- o mal da desinformação, apoucando a minha opinião, dando a entender que era uma “voz isolada”, quando têm sido várias as pessoas a chamar a atenção para este problema, como o excelente comentário que o Doutor Luís Salgado de Matos publicou no seu site Estado e Igreja, antigo e exímio colaborador do PÚBLICO, periódico que até lhe rejeitou publicar uma carta ao Primeiro-Ministro, segundo contou nesse seu blogue, ou Jorge Botelho Moniz, ou vários católicos que estão a reunir assinaturas no sentido de sublinhar o excesso das medidas draconianas tomadas pela hierarquia católica;

- o mal da desonestidade intelectual, ao misturar alhos com bugalhos, pois que a propósito de uma questão concreta que discute - a liberdade religiosa no estado de emergência de Portugal - subliminarmente insinua que esses “constitucionalistas radicais” não fazem nada ou não se incomodam com a perseguição religiosa no mundo, referindo várias religiões perseguidas, incluindo os bahá'i.

Para terminar, fica a Dra. Bárbara Reis a saber - para que se evidencie a necessidade de se preparar melhor quando escreve sobre assuntos que conhece superficialmente - que quando fui membro da Comissão da Liberdade Religiosa, no seu primeiro mandato, eu e todos os colegas dessa comissão defendemos o reconhecimento e a proteção da confissão bahá'i, como de muitas outras minorias religiosas.

Numa coisa estaremos de acordo: a hierarquia católica ficará feliz com o conforto e o apoio inesperado desta ateia confessa. Deus escreve direito por linhas tortas!