Editorial

O lugar do 25 de Abril é na Assembleia

A casa da democracia não fechou as portas até agora e não o podia fazer no dia em que evoca o momento que as abriu de vez

O melhor esclarecimento sobre a polémica em torno das celebrações do 25 de Abril veio de Catarina Martins, do Bloco de Esquerda. Disse a deputada: “Não se trata de abrir o parlamento para festejar. Trata-se de não o fechar no dia em que se assinala a democracia”. A partir desta definição do que está em causa, podemos discutir se devem ser 50 ou 30 convidados ou se será melhor aparecerem 50 deputados em vez dos 77 aprovados. Podemos admitir que em vez dos 130 deputados e convidados previstos devam ser só 90. Mas depois de se assumirem todas as precauções, todos os limites que cumpram as regras sanitárias, obedecendo a todas as acções que sirvam como exemplo, o 25 de Abril que não pode sair à rua deve ser celebrado na Assembleia.

Para começar, constate-se o óbvio: a comemoração nos termos em que foi anunciada foi aprovada por 90% da representação parlamentar. Ao que sabemos, esse momento culminou dias de negociações que envolveram os partidos, o governo, o presidente da Assembleia da República e o Presidente. Estando descartada a possibilidade de uma festa com os contornos tradicionais, as opções em aberto ou davam para uma cerimónia desalmada feita por videoconferência ou num momento que conservasse a solenidade possível da data. Optou-se e bem pela segunda via. A casa da democracia não fechou as portas até agora e não o podia fazer no dia em que evoca o momento que as abriu de vez.

Não colhem por isso os apelos dos subscritores de uma petição a correr quando dizem que “não se admite” a comemoração quando “se pede aos portugueses que se abstenham de sair de casa”. Primeiro porque há milhares de portugueses que no cumprimento das suas obrigações ou necessidades têm de sair de casa todos os dias. É o que se exige aos políticos que nos representam no 25 de Abril. “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”, continua o texto da petição, insinuando que o confinamento é um castigo e não uma protecção, e sugerindo que o 25 de Abril, mais do que um momento solene da democracia, é uma espécie de festim luxuriante destinado a privilegiados.

Com todas as garantias de segurança, com menos convidados e menos deputados (o PS e o PSD já o assumiram) a cerimónia na Assembleia faz todo o sentido. Se o líder do CDS se ausentar, sobra a conclusão: para ele, evocar o 25 de Abril não é um seu dever enquanto líder de um partido democrático. É apenas uma extravagância que um bando de privilegiados utiliza para, como afirma a petição, escaparem ao confinamento e se adornarem com cravos e banquetearem com discursos.

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