Rui Gaudencio
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Rui Gaudencio

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Hoje, mais do que nunca, é essencial comemorar Abril

Hoje, mais do que nunca, é importante celebrar Abril e estaremos todos juntos com a Assembleia da República, nas nossas janelas a entoar a Grândola, Vila Morena e a dizermos, mais uma vez, que a liberdade, seja por que circunstância for, nunca pode ser suspensa.

Tem causado alguma celeuma, particularmente na ala da direita, a celebração do 25 de Abril pela Assembleia da República. É certo que vivemos tempos excepcionais, fruto de uma pandemia que nos tem levado a reinventar o dia-a-dia do país e nos tem imposto grandes limitações, nomeadamente em termos de circulação e associação. Não nos tem sido permitido visitar os nossos familiares com a frequência que desejávamos, reunirmo-nos com os amigos para noites bem passadas ou simplesmente sair de casa para ir trabalhar no caso dos milhares que já estão em lay-off ou enfrentam despedimentos.

É muito o que nos tem sido exigido e temos sabido corresponder à gravidade destes tempos e dar o exemplo de como um SNS público é essencial para responder às necessidades normais ou excepcionais deste país. A saúde estará sempre em primeiro lugar e tudo devemos fazer para controlar a pandemia e evitar que mais compatriotas morram vítimas deste vírus. No entanto, é importante não esquecer que vivemos num estado democrático e que nenhum estado de excepção vale a amputação da nossa liberdade colectiva.

A direita portuguesa, nomeadamente o CDS, aproveita este tempo de excepção para tentar impedir que o 25 de Abril seja celebrado na Assembleia da República. É uma posição muito fácil de defender perante uma sociedade alarmada, receosa do presente e com medo do futuro, contudo o que é exigido aos partidos é que transmitam outra coisa à população, uma sensação de confiança para estes e para os tempos que hão-de vir.

Numa altura em que se colocam em cima da mesa soluções tão gravosas como a da geolocalização ou a de rastreamento via Bluetooth, em que os sindicatos estão alheados da discussão política e as greves estão impedidas, é imperioso que não sejamos capturados pelo medo e continuemos com apego à liberdade. Preparam-se para oferecer soluções em que os passos das pessoas são seguidos, os dados das pessoas são transmitidos e a privacidade é descartada em prol da segurança pública. O medo sempre foi terreno fértil para a implementação de soluções draconianas e, em última instância, da instauração de ditaduras. Devemos ter medo sim, mas não podemos ser capturados por ele sob pena de não reconhecermos a sociedade pós-pandemia.

O 25 de Abril vai ser celebrado na Assembleia da República, casa da democracia e assim deve ser. O facto é que o Parlamento não suspendeu os trabalhos e têm-se lá reunido todas as semanas para discutir, por exemplo, o estado de emergência. Com as devidas precauções e com menos gente no hemiciclo, a celebração terá a dignidade que se lhe exige e não contrariará qualquer indicação da DGS. É um momento muito importante para o país, uma data que nos une em algo comum, na celebração não de um dia, mas de décadas de luta antifascista e pela liberdade. É a celebração de um povo que deu um murro na mesa e não permitiu que nada fosse com antes. É precisamente isto que é crucial que se faça no dia 25 de Abril de 2020: dar vivas à liberdade e deixar bem claro que não vamos permitir que, sob qualquer pretexto, se queira instalar em Portugal um clima de medo que nos leve a aceitar pacificamente soluções como o geotracking, sistema usado actualmente para rastrear os ofensores no âmbito da violência doméstica.

Hoje, mais do que nunca, é importante celebrar Abril e estaremos todos juntos com a Assembleia da República, nas nossas janelas a entoar a Grândola, Vila Morena e a dizermos, mais uma vez, que a liberdade, seja por que circunstância for, nunca pode ser suspensa.

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