Detecção de 51 casos positivos num lar em Gaia “mostra a utilidade” da opção tomada pela câmara

Vários lares foram já testados em Gaia desde sábado. Autarquia cansou-se de esperar e avançou a expensas próprias, com o hospital local.

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Equipa de Gaia vai rastrear mais de 2500 pessoas nos lares do concelho LUSA/MIGUEL PEREIRA DA SILVA

O presidente da Câmara de Gaia considera que a identificação de 51 casos de infecção com covid-19 no Lar de Santa Isabel, na cidade, mostra que foi útil e correcta a opção do município que, cansado de esperar pela intervenção da ARS-Norte, por via do Agrupamento de Centros de Saúde Gaia-Norte, montou, com o hospital Santos Silva, uma operação de testes a todas as instituições de acolhimento de idosos e deficientes do concelho. 

“Tentamos sempre manter uma atitude cooperante, sem nos pormos em bicos de pés. Mas se há uma semana e meia havia seis casos, era preciso que aquele lar tivesse sido testado mais cedo. Se isso tivesse acontecido talvez não chegássemos a estes números”, lamenta o socialista Eduardo Vítor Rodrigues. 

O Lar de Santa Isabel, que acolhe cerca de 120 utentes com idades entre os 75 e 90 anos, e tem cerca de cem funcionários, foi o primeiro a ser abordado pela equipa móvel criada com recurso à contratação de profissionais, numa parceria entre a câmara, que paga o serviço, e o hospital, que assume a direcção técnica dos procedimentos. O rastreio começou no sábado e prosseguiu mesmo durante o domingo, explicou Eduardo Vítor Rodrigues.

A autarquia já tinha mostrado disponibilidade para assumir os custos de uma operação destas, que envolve 17 profissionais de saúde, uma carrinha alugada e testes para 1700 utentes e mais de 800 profissionais a trabalhar nos lares. Mas sem resposta, Eduardo Vítor Rodrigues admite que na quinta-feira pôs “as mãos à cabeça”. “Isto não pode ser tratado da mesma forma [burocrática] de uma obra para asfaltar uma estrada. Se não entrávamos ali depressa, ainda corríamos o risco de ter de lá ir com uma agência funerária, em vez da equipa de enfermeiros”, criticou, assinalando que só neste lar já morreram quatro utentes com covid-19

Identificados os doentes, estes foram separados dos restantes utentes do lar, que tem vários pisos, seguindo, aliás, aquele que é o protocolo da Direcção-Geral de Saúde nestes casos, nota o autarca. À agência Lusa, o director do lar adiantou esta segunda-feira de manhã que treze pessoas foram internadas no Hospital de Gaia. Eduardo Vítor estima — e espera — que não haja nenhuma outra situação tão grave nos 59 serviços que vão ser percorridos, nos próximos dias, pela unidade móvel que está a trabalhar desde sábado, mas pede ao Governo que reflicta sobre o que se passou.

Gaia, que entre os municípios vizinhos, como Porto ou Matosinhos, “foi o último a tomar em mãos esta questão dos testes aos lares, faz isto porque, financeiramente, o consegue fazer. Como será nos outros municípios mais pequenos?” — questiona o socialista. Para o autarca, a experiência do combate à covid-19, que, assinala, mostra também um certo esvaziamento de competências e meios dos serviços intermédios da administração do Estado, deveria levar ainda a que se repense a descentralização de competências, em áreas como a Educação ou a Saúde, que não deve ser proposta de forma igual para municípios com mais e menos capacidade de intervenção, considera.

A ARS do Norte escusou-se a entrar em polémica com o autarca e, ao PÚBLICO, confirmou o teste aos utentes e funcionários do Lar de Santa Isabel, “aguardando-se o resultado de 12 profissionais”. “A Administração Regional de Saúde do Norte, através da Autoridade de Saúde Pública do Concelho de Vila Nova de Gaia, está a acompanhar a situação no Concelho, de acordo com a necessidade”, adiantou o gabinete de imprensa deste organismo, acrescentando que, de acordo com a estratégia divulgada esta segunda-feira pelos Ministérios da Saúde e do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, “até à primeira semana de Maio vão ser testados todos os profissionais dos lares da região Norte, situação que já se iniciou na área geográfica de Vila Nova de Gaia e Espinho”, garante.

Os dados divulgados nesta segunda-feira pela Direcção-Geral da Saúde revelam que houve nas últimas 24 horas mais 21 mortes de covid-19, aumentando o total para 735 desde o início da pandemia. O país tem um total de 20.863 casos de infecção – o que corresponde a uma taxa de crescimento de 3,2% face ao dia anterior. 

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