MP acusa homem que foi buscar jovem a Barcelona e a sequestrou em garagem no Seixal

Julgamento começa esta segunda-feira, em Almada. O advogado da ofendida pede uma indemnização de 30 mil euros.

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Os ferimentos infligidos à vítima obrigaram a atendimento hospitalar Paulo Pimenta (arquivo)

O homem que foi buscar a ex-namorada a Barcelona e a trancou numa garagem em Paio Pires, no concelho do Seixal, acusado de violência doméstica e de sequestro, começa a ser julgado esta segunda-feira, em Almada. 

A acusação do Ministério Público (MP), a que a agência Lusa teve acesso, relata inúmeros episódios de agressões físicas, de ameaças de morte e de ofensas verbais, entre Maio de 2017 e 21 de Agosto de 2019, dia em que a jovem conseguiu escapar da garagem para onde fora levada pelo arguido, depois deste a ir buscar a Barcelona, cidade para onde a jovem tinha ido um mês antes devido “às agressões, ameaças e humilhações que vinha sofrendo”.

A acusação diz que o arguido, de 31 anos e em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional do Montijo, e a vítima iniciaram uma “relação amorosa” depois de se conhecerem em Fevereiro de 2017, numa loja de conveniência, na Faculdade de Ciências, em Lisboa.

“Cerca de dois meses após o início do relacionamento, o carácter ciumento do arguido revelou-se e passou a ter uma conduta possessiva e controladora para com a ofendida: controlando a roupa que vestia, proibindo-a de vestir determinadas peças, como calções, exigindo saber a que horas acedia e saía das redes sociais, querendo saber onde se encontrava, exigindo que lhe enviasse por telemóvel prints com indicação da sua localização, data e hora, e proibindo-a de estabelecer qualquer tipo de relações de amizade com outras pessoas”, descreve a acusação.

O MP conta que “as primeiras agressões físicas” (bofetadas e empurrões) aconteceram em meados de 2017, precisando que, em Junho, o arguido entrou na residência da jovem, sem o seu conhecimento. “Quando a ofendida chegou, desferiu-lhe pancadas e apertou-lhe o pescoço, perguntando por onde andara e disse-lhe: “Dou cabo de ti, eu mato-te”, lê-se no documento. No dia seguinte, o arguido “pediu desculpa” à vítima por mensagem de telemóvel, mostrando-se arrependido. Contudo, ainda segundo o MP, o violência continuou a agravar-se.

“Agredindo-a física e verbalmente, desferindo-lhe murros e pontapés por todo o corpo, puxando-lhe o cabelo, arrastando-a pelo chão agarrada pelo cabelo, batendo-lhe com a cabeça contra as paredes e contra o veículo, fosse em casa, fosse na via pública, provocando-lhe hematomas e dirigindo-lhe as seguintes expressões: ‘(...) Não vales nada, vou-te matar, acabo com a tua vida, não tenho problemas nenhuns em bater-te como bato em homens, não és minha, não és de mais ninguém'”, sustenta ainda a acusação.

Em 29 de Julho de 2019, devido ao “medo e às agressões, ameaças e humilhação”, a jovem foi residir com uma tia na cidade de Sant Pere de Ribes, perto de Barcelona, Espanha, na qual se manteve sem contactar com o arguido até 18 de Agosto, dia em que lhe enviou uma mensagem pelo Instagram, perguntando-lhe como é que ele estava, depois de saber que a procurava junto da casa de familiares.

Trancada na garagem

Na sequência da conversa, o arguido prometeu-lhe “que iria mudar e que nunca mais a iria agredir”. A jovem manifestou o desejo de regressar a Portugal e facultou a sua localização ao arguido, que a foi buscar de carro na tarde de 19 de Agosto. Assim que chegou, porém, “o arguido saiu da viatura, dirigiu-se à ofendida muito exaltado, esbracejando e gritando”, seguindo-se mais agressões, após as quais conversaram cerca de hora e meia, na qual o agressor pediu desculpa e convenceu a vítima a regressar a Portugal, prometendo-lhe “que iria mudar radicalmente de comportamento”.

O MP sustenta que logo após iniciarem a viagem, o arguido agarrou no telemóvel da ofendida e arremessou-o para a via pública. Acto contínuo, parou o automóvel e “espezinhou o aparelho, destruindo-o, deixando a ofendida incontactável”, prosseguindo a viagem com destino ao Seixal, no distrito de Setúbal, onde chegaram ao final do dia 20 de Agosto.

Nessa madrugada, devido às dores e às queixas apresentadas pela jovem, fruto das agressões, o arguido levou-a ao Hospital Garcia da Orta, em Almada. O homem voltou depois para apanhar a jovem e levou-a para uma garagem em Paio Pires, onde esteve trancada até conseguir fugir para a casa da mãe na Arrentela, concelho do Seixal, depois de o arguido se ter esquecido das chaves.

O advogado da ofendida, Hélder Cristóvão, apresentou um pedido de indemnização cível de 30 mil euros.

O início do julgamento está previsto para as 9h30 de segunda-feira no Tribunal de Almada e deverá ser presencial.

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