Covid-19: As reuniões do grupo Cocaína Anónimos têm cada vez mais procura

O grupo que segue 12 passos, como os Alcoólicos Anónimos, passou de cinco reuniões presenciais para 21 online desde que a pandemia começou.

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O confinamento causado pela nova pandemia não tem alterado a realidade do consumo de drogas Nuno Ferreira Monteiro

A pandemia da covid-19 parece afectar tudo e todos, mas “nos sítios onde se adquire drogas, está tudo normal e é como se o vírus nem existisse, tanto para os que vendem, como para os que compram”, revela Maria (nome fictício), 46 anos, consumidora de cocaína há cerca de dois anos. Depois de várias tentativas para deixar de consumir, descobriu o grupo Cocaína Anónimos (CA), que passou de cinco reuniões presenciais, em Lisboa, para 21 online, desde que os portugueses estão fechados em casa.

O grupo existe há sete anos e descreve-se como uma irmandade que apoia consumidores não só de cocaína, mas de todo o tipo de substâncias, incluindo álcool, através de um programa de 12 passos semelhante ao dos Alcoólicos Anónimos. Maria, que conheceu este grupo recentemente, confessa que o CA tem sido o seu “maior suporte” porque quando estava sozinha, “por muito que quisesse resistir, acabava por consumir”. 

Em condições normais, o grupo promove cinco reuniões presencias por semana em Lisboa, abertas aos cerca de 100 membros e a quem se queira juntar. Mas o estado de emergência e a obrigação de distanciamento social impediram que os encontros se mantivessem. Por isso, após o fecho físico de portas, rapidamente se abriram as digitais e hoje reúnem-se 21 vezes por semana, através de plataformas na Internet, garantindo sempre o anonimato de quem participa.

O crescimento no número de participantes foi rápido. “No espaço de duas semanas juntaram-se a nós mais 20 ou 30 novos membros e até estamos a pensar manter algumas dessas reuniões mesmo depois disto tudo passar”, revela Alexandre, um dos membros fundadores da CA em Portugal.

Já os pedidos de apoio através do telefone (939 166 316) também mostram um aumento substancial. “Nas últimas duas semanas temos recebido tantas chamadas como nos últimos dois meses”, contabiliza Alexandre, que não consome há cerca de nove anos.

Quando questionado se a pandemia estará a afectar a venda de estupefacientes, Alexandre é da mesma opinião que Maria. “As pessoas não fazem ideia do que um adito é capaz de fazer para consumir. Quem quiser, vai fazê-lo. Duvido que a covid-19 esteja a ter algum impacto.”

Então, por que aumentou o número dos que procuram o CA? “Parece-me que por estarem mais tempo em casa, com mais tempo para pensar e maior pressão por parte das famílias, as pessoas estão a perceber que alguma coisa tem de mudar nas suas vidas”, responde Alexandre.

Partilha de experiências

O CA recebe pessoas de todas as idades, “há membros com 16 e com 70 anos, independentemente da etnia, orientação social, religião, partido político, etc.”, enumera o Alexandre. “Aqui não há terapeutas, nem profissionais. Somos compostos única e exclusivamente por pessoas com problemas de consumo”, esclarece.

“Nesta irmandade eu já não me sinto sozinha e vejo pessoas com o mesmo problema que eu, que estão recuperadas. Isso dá-me forças para continuar a lutar contra o vício”, explica Maria, enquanto refere que “é justamente” por o grupo ser composto por toxicodependentes que “a partilha funciona”.

Criado em 1982, nos Estados Unidos, o CA tem filiais por todo o mundo. Actualmente, o fenómeno do aumento do número dos que participam nas reuniões online, em tempo de covid-19, é comum aos sítios onde o grupo trabalha. Estes encontros chegam a ter milhares de participantes online. Em Portugal, surgiu há sete anos, depois de Alexandre o ter descoberto, por acaso, em Madrid, quando lidava com problemas de toxicodependência.

“Eu andei em médicos, terapeutas, psicólogos e psiquiatras, iogas, meditações, centros de tratamento, tudo. Não é que esses métodos não funcionem, mas para mim não funcionaram”, confessa. Já num ambiente de partilha com outros consumidores, o sentimento de compreensão naquela reunião em Madrid levou a que esteja há cerca de nove anos sem consumir. Desde então, o seu “propósito de vida é fazer por outras pessoas aquilo que foi feito” por ele, explica.

Sem nenhum tipo de hierarquia e com funções rotativas entre os membros, o grupo é completamente auto-suficiente em termos financeiros, não cobrando qualquer valor a quem assiste às reuniões nem aceitando apoios ou contribuições de organismos governamentais, instituições ou até de familiares dos toxicodependentes.

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