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Pandemia covid-19: impacto nos doentes oncológicos

Há outras doenças que vão matar muito mais portugueses que a pandemia da covid-19 – AVC, enfarte e cancro, onde o panorama é cada vez mais aterrador.

A pandemia da covid-19 é um dramático acontecimento que atinge transversalmente toda a população mundial, com situações epidemiológicas diversas e ainda não explicáveis. Por exemplo, o mapa que nos é apresentado diariamente pela Direcção-Geral da Saúde (se real e numericamente correcto) é um enigma que divide diversos especialistas, autarcas, entidades de saúde e até políticos.

Com humildade deveremos assumir que o Serviço Nacional de Saúde não estava, de modo nenhum, preparado para esta pandemia, tal como a grande maioria dos países.

Compreendemos e assumimos que o seu combate é uma prioridade e que todas as potencialidades, bem como a organização e reestruturação de todas as instituições hospitalares e de cuidados primários de saúde procuraram, de maneiras diferentes, responder.

Há, no entanto, sem entrar na discussão epidemiológica dos diferentes aspectos da pandemia, situações que não estão a ser devidamente acauteladas, como, por exemplo, a dos doentes idosos e infectados em todos os lares do país. Estes não têm sido internados nos hospitais e são mandados regressar aos lares que não têm as mínimas condições de os receber – sem pessoal, sem material, sem formação e sem isolamento minimamente adequado. Será um princípio de uma selecção natural? Será que desistimos de investir nos idosos e menos privilegiados? Também não se compreende porque os profissionais de saúde não são todos testados de imediato e, posteriormente, de modo periódico.

Fundamentalmente, a razão destas considerações remete para o esquecimento de várias patologias que estiveram acauteladas e que, neste momento, são sistematicamente secundarizadas. Há outras doenças que vão matar muito mais portugueses que a pandemia da covid-19 – AVC, enfarte e cancro.

Nomeadamente no cancro, o panorama é cada vez mais aterrador pois, para além de uma maior incidência, há uma enorme dificuldade na acessibilidade em todos os campos – primeiras consultas, diagnóstico, tratamentos e follow-up.

Com efeito, as situações dos doentes com cancro não estão ser acauteladas. Descurar a luta e os pequenos sucessos que vínhamos a ter no campo da oncologia, de modo lento mas progressivo, vai representar um retrocesso de vários anos.

As listas de espera, já assumidas há vários meses por hospitais da especialidade, vão aumentar de modo exponencial.

Os doentes com cancros iniciais, que atempadamente seriam curados, ou aqueles que teriam uma longa sobrevivência com qualidade de vida, terão muito menos esperança que isso aconteça.

Veremos no final do ano que, estatisticamente, as mortes por cancro e a diminuição da sobrevivência aumentarão exponencialmente. Anteriormente, todos estes cuidados de saúde e, sobretudo, a acessibilidade era razoável (não boa), mas presentemente assiste-se a uma completa deterioração e desorganização relativamente aos doentes com cancro.

Não há linhas condutoras para os diversos hospitais públicos e cada conselho de administração, dentro das suas exíguas capacidades, desenha planos de contingência que pensam ser os melhores. Há esforço, há queixas, há insuficiências intransponíveis e as soluções apresentadas para os doentes são diferentes e adaptadas às realidades existentes.

Uma nota para referir que as normas emanadas pela Direcção-Geral da Saúde em 4 de Abril, e relativas aos doentes com cancro, embora teoricamente e na generalidade estejam correctas, são meros indicadores de ideias e prazos que ninguém vai poder cumprir.

Como nota final, um aplauso para o civismo da população e, de modo especial, para os profissionais de saúde que têm tido um comportamento exemplar e se têm entregado de alma e coração às múltiplas solicitações, pondo em risco, por falta de meios e também pelo esforço despendido, a sua própria saúde e vida.

Temos esperança que esta situação se resolva o mais rapidamente possível pois, para alem da covid-19, há muita vida para viver e inúmeros doentes para tratar de modo adequado e em tempo útil.

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