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Covid-19, o risco global e os seus efeitos sistémicos

Os efeitos a curto prazo da covid-19 fazem o ano de 2020 completamente refém deste vírus, seja no plano da saúde pública ou da saúde da economia. Enquanto o vírus se globaliza a velocidades diferenciadas consoante as zonas do globo e prepara, por essa via, as próximas vagas da pandemia, os efeitos sistémicos mais longos surgem no horizonte cada vez com maior nitidez.

Com a covid-19 percebemos melhor como o risco global, difuso e invisível se torna cada vez mais ameaçador. Em 1999, no livro World Risk, Ulrich Beck propõe-nos uma teoria do risco global em consequência da globalização dos fatores de risco veiculados pelos mercados globais, as migrações transnacionais, os grandes eventos internacionais, as comunidades científicas. O risco global tem um mérito indiscutível, obriga-nos a pensar o modo de organização das comunidades de risco, uma forma de “cosmopolitismo metodológico” para combater os grandes riscos.

Os riscos globais segundo o WEF

É aqui que nós estamos. A covid-19 chegou sem avisar e não tem pressa de partir. O World Economic Forum (WEF) de Davos publica anualmente um relatório de avaliação sobre o estado do risco. Olhando para a tabela, o que é mais assustador é a possibilidade real de cenários multirrisco, por exemplo, na atual conjuntura, para onde convergem a emergência climática, a emergência sanitária e a emergência social. Vejamos algumas linhas de leitura e interpretação do problema.

Em primeiro lugar, as falhas na governação global determinaram que uma crise imobiliária e hipotecária em 2008, americana na sua génese, se transformasse numa crise europeia de dívida soberana e bancária grave a partir de 2010.

Em segundo lugar, a relutância das potências globais, sobretudo a partir de 2016, transformou-se numa crise das instituições multilaterais liberais e o risco geopolítico subiu na mesma proporção.

Em terceiro lugar, a mesma relutância internacional reduziu substancialmente o empenhamento dos grandes Estados para regular todo o tipo de riscos ambientais, dos mais impressivos (nucleares, biológicos e químicos) aos mais pessoais (a multiplicação de vários tipos de febre e gripe), como é o caso da covid-19.

Em quarto lugar, são evidentes as falhas de governação global para prevenir e regular as várias emergências e os seus efeitos sistémicos, na exata medida em que as culturas de risco e prevenção prevalecentes são, também, culturas antigas e culturas de medo.

Em último lugar, aquilo que poderíamos designar como o “paradoxo preferido do capitalismo”, a saber: todos os problemas se resolvem com uma dose adequada de tecnologia, mobilidade e organização, dose a menos não resolve o problema, dose a mais gera um novo problema devido à sua eventual propagação sistémica. Todos estes fatores nos remetem para a ideologia do risco global e suas modalidades de cobertura. Esta é a razão pela qual a definição do risco científico e técnico é um problema probabilístico, de risco previsível, a menos que um erro involuntário ou um cisne negro sejam a justificação.

A teoria social e o padrão do risco global

Na primeira modernidade da sociedade urbano-industrial os nexos estão bem estabelecidos, a saber, a ciência domina a natureza e o Estado domina o homem. O risco é um produto da sociedade urbano-industrial e das respetivas aplicações da ciência moderna. Com a segunda modernidade, porém, estes dois nexos são postos em causa. O risco cresce com a modernização e com a falta de confiança nas instituições do Estado. E, a este propósito, o que nos diz a teoria social, hoje, no tempo da modernidade tardia da sociedade contemporânea, sobre a cultura e o padrão do risco global?

PÚBLICO -
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Os efeitos da covid-19 fazem o ano de 2020 completamente refém deste vírus REUTERS/Lucas Landau
  • O risco é um risco antropogénico: os riscos globais são, quase todos, de origem humana, esse é o preço da sociedade urbano-industrial da modernidade tardia;
  • O risco é uma construção social e política: há conflito de interesses, uma ideologia do risco, uma indústria e um negócio, a definição do risco cabe numa relação de poder;
  • O risco é um risco sistémico: o nível de ameaça, perigosidade e propagação aumenta exponencialmente com o grau de interdependência dos riscos;
  • O risco varia com as diferentes culturas de risco: um campo simbólico e um campo de forças muito poderosos onde correm expectativas, perceções, superstições, encenações, representações, conhecimento;
  • O risco é um risco aleatório e probabilístico: o risco não respeita fronteiras, cruza o espaço-território em todas as direções, atingindo atividades, lugares e pessoas;
  • O risco é um risco difuso: devido à sua aparente invisibilidade não pode ser privatizado por via de uma companhia de seguros, mas socializado por via do contribuinte;
  • O risco está associado a uma baixa intensidade de cultura de prevenção: em particular, a baixos níveis de investimento em operações de esclarecimento e mitigação que são, geralmente, as primeiras sacrificadas em conjunturas de crise;
  • O risco está muito associado a comportamentos locais e individuais: na medida em que só as pequenas mudanças de comportamento quotidiano materializam as grandes orientações das políticas globais;
  • O risco tem uma distribuição geográfica desigual: embora não escolha os seus alvos, as suas ocorrências ou acontecimentos agravam sobremaneira a situação dos países pobres onde assistimos à destruição continuada de atividades, territórios e regiões inteiras;
  • O risco é o fruto direto de falhas de governação global: a conexão causa-efeito dos riscos não é acompanhada de uma governança multiníveis com o mesmo grau de integração e responsabilidade.

Covid-19, interdependência global e efeitos sistémicos

Os efeitos a curto prazo da covid-19 fazem o ano de 2020 completamente refém deste vírus, seja no plano da saúde pública ou da saúde da economia. Enquanto o vírus se globaliza a velocidades diferenciadas consoante as zonas do globo e prepara, por essa via, as próximas vagas da pandemia, os efeitos sistémicos mais longos surgem no horizonte cada vez com maior nitidez. Vejamos alguns desses efeitos:

  • A implementação do acordo de Paris e a estratégia global de combate às alterações climáticas; está em causa, nos próximos anos, a eficácia e a efetividade deste combate, não obstante os efeitos positivos de menores emissões de CO2 para a atmosfera devido aos estados de emergência declarados.
  • A estratégia de transformação tecnológica e digital, nos planos global, europeu e nacional; a pandemia altera as perceções geopolíticas atuais e não sabemos, ainda, como se fará o ajustamento, por exemplo, em relação ao lançamento da tecnologia 5G proveniente da China; está em causa, portanto, a eficácia, a segurança e a bondade desta estratégia considerada um dos elementos nucleares da geopolítica mundial.
  • O futuro próximo do multilateralismo como instrumento de uma globalização regulada; se a pandemia tiver efeitos benignos nas relações internacionais poderá servir para reforçar o multilateralismo, mas, neste momento, perante tanta incerteza, está em causa o papel das instituições nesse contexto e a estabilização das relações comerciais no plano global.
  • A liberdade de circulação de pessoas em geral – turistas, trabalhadores migrantes, refugiados – será profundamente afetada; dependendo da duração e latitude da pandemia podemos estar à beira de um movimento geral de “desglobalização” e maior controlo da mobilidade de pessoas e bens; fica a curiosidade de saber se, por causa desta pandemia, haverá uma próxima metamorfose do capitalismo.
  • Os cenários que se fazem em matéria de recessão económica em 2020 giram à volta dos 5%; seja qual for a quebra do PIB, os países europeus serão empurrados, tarde ou cedo, para o mercado global da dívida pública; mesmo que a União Europeia cubra as primeiras necessidades através do BCE e do MEE (Mecanismo Europeu de Estabilidade), o recurso ao mercado da dívida será inevitável; como se irão comportar os mercados nesta matéria?
  • A pandemia causa um sério revés na política sociodemográfica de cada Estado e na sua política de proteção e segurança social; estão em causa, a interdependência entre os saldos natural e migratório e a consistência financeira e operacional do Estado Social face aos problemas de proteção da sociedade sénior e da próxima vaga de desempregados.
  • A pandemia obriga-nos a rever em profundidade o modo como conduzimos as relações entre três gerações: a geração dos mais jovens (a escola nos seus vários níveis), a geração dos que trabalham (as várias modalidades de trabalho) e a geração sénior (os reformados e a sua situação social); estou convencido de que a pandemia irá acelerar esta reflexão no sentido de outras formas de sociabilidade e convivialidade.
  • Uma vez resolvido o problema nos países mais desenvolvidos, fica por saber como vamos impedir que a pandemia cresça de forma descontrolada nos países não desenvolvidos; está em causa uma segunda vaga da pandemia, a mutação do vírus e o seu eventual regresso aos países desenvolvidos de forma ainda mais virulenta.
  • Em função da duração e intensidade da pandemia, está em causa a convergência entre a desestruturação dos mercados de trabalho, o desemprego de trabalhadores migrantes, o crescimento das desigualdades sociais, a demagogia partidária e o populismo político iliberal; está em causa a “indústria do emprego” e a formação das redes de pluriatividade e plurirrendimento, mas, também, a democracia política tal como a conhecemos.
  • Perante a estagnação política da União Europeia, pode estar em causa o futuro da Europa tal como a conhecemos; não quero vaticinar a morte anunciada do projeto europeu, mas sendo o problema dos “eurobonds” apenas a ponta do icebergue fica em causa a legitimidade da União Europeia e, no horizonte, a sua progressiva balcanização.

Covid1-9, os sinais positivos, apesar de tudo

Num contexto tão sombrio, existem, porém, alguns sinais positivos que precisarão de ser prosseguidos.

  • Em primeiro lugar, importará não esquecer que a forte redução das emissões de CO2 para a atmosfera é, em si mesmo, um excelente contributo para a melhoria da saúde pública. Aprender esta lição é uma prova de inteligência.
  • Em segundo lugar, as medidas excecionais tomadas pelas autoridades públicas, se aplicadas com eficácia, deverão conter a recessão económica dentro de limites razoáveis e, desse modo, aliviar o risco de uma crise mais prolongada.
  • Em terceiro lugar, fica provado que as tecnologias digitais podem fazer muito mais pela indústria da saúde e esta crise sanitária pode e deve precipitar mais investimento público e mais esforço colaborativo público-privado no setor.
  • Em quarto lugar, a pandemia da covid-19 demonstrou à evidência que são possíveis outras modalidades de organizar o trabalho e o ensino, mais amigas da família e dos idosos.
  • Em quinto lugar, é preciso acreditar em que a pandemia possa desencadear uma vaga de solidariedade internacional e, desse modo, reabilitar a confiança e o papel central das organizações internacionais.
  • Em sexto lugar, é ainda possível que a União Europeia retome o roteiro para completar a união económica e monetária até 2025, tal como proposto pela Comissão Europeia em 2017.
  • Em sétimo lugar, e porventura mais crítico, é preciso que estejamos preparados para um programa excecional de apoio aos países de expressão oficial portuguesa, no caso de a pandemia se alastrar pelo continente africano.
  • Finalmente, é imperioso que reconsideremos o modo como organizamos a nossa solidariedade social e que, doravante, uma genuína ética do cuidado esteja no coração da cidade inteligente, em especial, no combate à iliteracia digital e na promoção das plataformas descentralizadas de coprodução de serviços ambulatórios e domiciliários.

Notas Finais

Aqui chegados, e em matéria de riscos globais e sistémicos, as nossas diferentes pegadas – ambientais, sanitárias, hídricas, digitais, alimentares, securitárias, tecnológicas, industriais – vão devolver-nos com custos acrescidos e graves muitos dos nossos erros de comportamento. Aliás, a possibilidade de haver episódios multirriscos é tão elevada que sentimos, de imediato, um nó na garganta. Basta pensar, por exemplo, na convergência entre a pandemia, o risco de incêndio que se aproxima, o risco climático ou o risco cibernético. A acrescer a esta eventualidade, é preciso contar com a encenação do risco e o risco espetacular que passam, geralmente, pelo crivo mediático e que condicionam fortemente a perceção do risco individual e da sua subjetivação.

Finalmente, sabemos que os custos do risco global são incomportáveis para os Estados mais vulneráveis e que o controlo do risco é uma tarefa infindável. Por isso, registo, positivamente, a recente decisão do Eurogrupo em apoiar as populações mais atingidas pela pandemia com um envelope financeiro de 540 mil milhões de euros e redes de segurança dirigidas à proteção dos trabalhadores, à salvaguarda das empresas e ao financiamento das intervenções públicas, ao mesmo tempo que é, também, aberta a possibilidade de criação de um fundo de resgate com um baixo nível de condicionalidade.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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