PAULO PIMENTA
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PAULO PIMENTA

Megafone

O vírus que o vírus trouxe

Para o Estado, neste caso através da sua representação local, não há gesto cívico mais indicado do que a denúncia — ou, para quem quiser ser mais sofisticado, ser bufo. A denúncia de quem? De um malvado criminoso, de um terrível malfeitor? Não, de alguém que saiu de casa.

“Aos vossos avós foi-lhes pedido para irem à guerra, a vocês pedem-vos para ficar no sofá. Tenham noção!”, dizia Rodrigo Guedes de Carvalho numa das emissões do Jornal da Noite da SIC, em Março passado. O pensamento luminoso não era da sua autoria, como reconheceu, honesto, o pivot da estação de Carnaxide; antes tinha sido pedido emprestado às redes sociais, esses centros de intelectualidade comparáveis aos salons littéraires de outros tempos. Mas, mesmo renegando a paternidade da obra-prima, o país e as redes sociais (passe a redundância), enlevados pela nobreza do gesto, não deixaram de louvar o jornalista competente, a pessoa idónea e o ser humano magnífico. E ainda bem que o fizeram. Realmente, o que há para não gostar? Que levante o braço quem nunca ansiou ver um jornalista transformar-se num pedagogo moralista.

Mas o jornalista da SIC, no seu tom coloquial e ameno, sempre é mais suportável do que os estadistas de vão de escada que pululam um pouco por todo o lado, com especial incidência nas redes sociais (prometo que é a última vez que falo nelas), insuportavelmente arrogantes e dotados de uma superioridade moral sem limites, que não conhecem outra linguagem que não seja a do insulto e outro gesto que não seja o dedo em riste. Para estes iluminados, a única solução é ficar em casa um mês, dois meses, três meses, mesmo um ano se for preciso, e quem se atrever a questionar levemente a racionalidade quer económica quer relacional dessa loucura é logo triturado e vilipendiado.

Quanto ao lado económico, faltam-me os conhecimentos para perorar sobre as consequências de mais uns meses de confinamento, por isso fico-me por um óbvio genérico: será um desastre. Mas também do ponto de vista relacional manter este estado de torpor colectivo por muito mais tempo é absolutamente insustentável, apesar da insistência com que os estadistas do confinamento indeterminado agitam o medo da contaminação e da morte. Ficar em casa meses a fio, em muitos casos num definhamento contínuo, apenas substitui o vírus inicial por outro não menos detestável, o da solidão. O primeiro pode matar, o segundo mata sempre.

Mas, infelizmente, também o próprio Estado tem contribuído para um ambiente crescentemente irrespirável e paranóico que não faz outra coisa a não ser legitimar o revanchismo social e o apetite pelas jugulares alheias das mentes “facebookianas” (peço desculpa por ter quebrado a promessa). Têm algum sentido as exibições de parafernália policial (drones falantes incluídos) a que temos assistido e que as televisões apresentam orgulhosamente? Talvez sirvam para controlar as excursões de milhares de pessoas que se vêem por esse Portugal fora...

Mas o mais chocante e surreal chegou através da junta de freguesia da localidade onde vivo. Como quem não quer a coisa, no meio de algumas recomendações sensatas para quem viesse do estrangeiro ou de regiões afectadas, eis que surgia num tom destacado a seguinte pérola: “DENUNCIE casos de desobediência.” Perdão? Como? Faça o quê? “DENUNCIE”. Parece mentira, mas não é. Para o Estado, neste caso através da sua representação local, não há gesto cívico mais indicado do que a denúncia — ou, para quem quiser ser mais sofisticado, ser bufo. A denúncia de quem? De um malvado criminoso, de um terrível malfeitor? Não, de alguém que saiu de casa. Se fizermos silêncio por um instante, talvez consigamos descortinar as palavras de gáudio e os gestos de apoio das mentes “facebookianas”. Sim, sim, cá estão elas. Sonoras e estridentes! E quando alguém lhes tenta falar de democracia e liberdade dizem que não são fluentes em línguas estrangeiras.

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