A enfermeira que desenha os Cuidados Intensivos. “Coragem é calçar saltos altos no final de um turno”

No meio de uma sala onde estão os doentes mais graves infectados com a covid-19, debaixo de uma máscara que aleija e entre monitores e ventiladores, uma enfermeira do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, encontrou no desenho a terapia certa para enfrentar o novo coronavírus.

Marli Vitorino é enfermeira numa Unidade de Cuidados Intensivos Médico-Cirúrgicos (UCIP) do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, dedicada ao tratamento de doentes com covid-19. Está habituada a lidar com doentes em estado grave, mas não com tantos de uma vez e a precisarem de tantos cuidados. 

Foi no meio de um desses turnos, quando os ponteiros do relógio pareciam não andar e o desconforto com a máscara e os óculos se acentuava, que pegou numa folha em branco para se distrair. Costuma escrever, mas começou a desenhar. 

“Estou a desenhar muito mais do que estou a escrever”, conta Marli, 30 anos acabados de fazer, em entrevista ao PÚBLICO, como se também ela estivesse surpreendida consigo mesma. Na mão traz um caderno onde, nas horas de descanso, prossegue o impulso que surgiu dentro da UCIP. “A ideia inicial era escrever algumas reflexões. Mas os desenhos prevaleceram e acabam por ser uma terapia”. 

Os esboços feitos dentro da “zona vermelha” do hospital – a zona contaminada, onde estão os doentes infectados com o vírus SARS-CoV-2, não podem sair de lá, mas o caderno já tem uma mão cheia de novos traços. Numa folha está “uma médica a analisar o raio x de um utente”, noutra está “uma assistente hospitalar exausta a calçar uns sapatos de salto alto numa saída de vela [no final do turno da noite]”. Para Marli, este foi um momento de “alguma coragem e boa disposição” depois de um trabalho “muito, muito desgastante”. 

Subir uma montanha 

Se os desenhos apareceram por acaso, o trabalho numa unidade de cuidados intensivos não. Marli tem uma pós-graduação na área de emergência médica, uma área que “sempre me apaixonou”. Mas não estava preparada para a exigência de cuidados que o novo coronavírus trouxe. Se antes eram raros os dias em que precisava de virar um doente (uma manobra utilizada nas pessoas que estão pior ou que não melhoraram com o ventilador), agora são raros os turnos em que não tem de o fazer. 

“Eu recordo-me que no primeiro dia tive dores de cabeça bastante fortes. É como se, de repente, nós tivéssemos de subir uma montanha e todos os passos que damos à medida que vamos subindo, o que era fácil passa a ser difícil. Mudar de posição a um doente era relativamente fácil no início do turno, no final do turno já se torna mais cansativo.” 

No primeiro dia de trabalho com a covid-19, Marli chegou a questionar a sua capacidade para estar ali. Mas foi só o primeiro choque.  Agora, quando não está a trabalhar, está a estudar esta nova doença. E quando não está a estudar, está a desenhar. Uma terapia revelada pela pandemia. Hoje, não tem dúvidas: “Aqui é o meu lugar. Não o trocaria por outro”. 

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