Uso obrigatório de máscara no regresso à normalidade – porquê?

A evidência mostra que o uso de máscaras em locais públicos ou de trabalho deverá ser seriamente equacionado antes e durante todo o período da fase de “normalização”, que bem pode demorar ainda uns longos meses.

Ao longo destas últimas semanas, tem-se vindo a assistir a uma mudança na forma como é encarado o uso de máscaras por parte da população geral. De facto, no Ocidente, o uso generalizado de máscaras começou por ser desaconselhado por entidades como o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) ou pelo seu homólogo europeu (ECDC). Tais entidades, contudo, modificaram as suas recomendações [1] [2], com o CDC a recomendar, inclusive, o uso de máscaras de tecido em locais públicos e a ensinar os cidadãos a fabricarem as próprias máscaras [1].

Esta mudança pode em parte ser devida ao facto de, numa fase inicial, se ter confundido ausência de evidência com evidência de ausência [3]. Ou seja, verificava-se um contexto de falta de evidência científica relativa ao uso de máscaras no contexto da infeção covid-19, e escassez relativa das mesmas com necessidade de priorização para os profissionais de saúde [3]. Todavia, a evidência científica que foi sendo subsequentemente gerada favorece hoje o uso de máscaras!

Na verdade, desde logo é possível fazer comparações entre países, mesmo deixando de lado os países asiáticos, dado o maior número de possíveis fatores de confundimento (tais como a experiência com a SARS-CoV-1, a execução de um maior número de testes e/ou a maior utilização de ferramentas tecnológicas no combate à infeção covid-19) – a República Checa (atualmente com 5831 casos confirmados e 129 óbitos por covid-19 [4]) e, em menor escala, a Áustria e a Bósnia-Herzegovina, têm sido classicamente apontadas como exemplo favoráveis ao uso de máscaras de proteções do rosto em locais públicos.

Contudo, a evidência não se fica pela potencialmente problemática comparação entre países, e envolve estudos experimentais [5], análises epidemiológicas e modelos matemáticos. No que respeita à evidência epidemiológica existente, uma das descrições mais interessantes prende-se com o estudo de uma deslocação de um paciente de Chongqing (China) sintomático mas desconhecendo que estava infectado [6]: o trajeto envolveu duas viagens de autocarro, sendo que na primeira o paciente viajou sem máscara e na segunda utilizou uma máscara que havia comprado no local onde fez escala. Dos 39 outros passageiros do primeiro autocarro, cinco ficaram infetados com covid-19, ao passo que nenhum dos outros 14 passageiros do minibus usado na segunda viagem desenvolveu infeção [6].

Já estudos utilizando modelos matemáticos evidenciaram que as máscaras, mesmo com eficácia limitada, actuam no sentido de se reduzir, substancialmente, o risco de novas infeções e a ocorrência de mortes [7]. Um equipa de investigação simulou inclusive cenários de recursos limitados, tendo verificado melhores resultados quando indivíduos idosos não-infetados eram também priorizados no que respeita à utilização de máscaras [7].

Acresce ainda a evidência, cada vez mais forte, relativa ao importante papel de indivíduos pré-sintomáticos ou assintomáticos na transmissão da infeção covid-19 (cuja verdadeira proporção é difícil de estimar) [8][9], bem como a possibilidade de transmissão deste vírus por aerossol [10].

Por outro lado, em contextos como o atual, estudar isoladamente medidas de proteção não-farmacológica – como sendo o uso de máscaras – da forma que metodologicamente seria mais adequada e sem violar princípios éticos não se revela possível. Nesse sentido, se é verdade que a evidência científica parece favorável ao uso de máscaras/proteções do rosto em sítios públicos, outras medidas como a frequente higienização das mãos e o distanciamento social não deverão ser descuradas. Assim, o objetivo é o de complementar a prevenção da transmissão por contacto (através da higienização das mãos) com o da transmissão por gotícula ou aerossol (inalação de partículas víricas) através do uso de máscaras, sobretudo em ambientes fechados como escritórios, supermercados ou transportes públicos.

Ou seja, embora a altura para aliviar as medidas restritivas ainda esteja longe, quando tal acontecer o risco por infeção covid-19 não terá ainda desaparecido, pelo que o uso de máscaras em locais públicos/de trabalho deverá ser seriamente equacionado antes e durante todo o período da fase de “normalização” que bem pode demorar ainda uns longos meses.

Conjuntamente com os testes serológicos de imunidade, a utilização generalizada de máscaras pela população geral em situações de trabalho, de convívio ou de compras poderá muito bem tornar-se um factor importante para se retomarem as imprescindíveis atividades económicas, minorando o risco de voltar a pôr os ganhos de achatamento da curva em causa, e de se registar falência do nosso Serviço Nacional de Saúde e de mortes evitáveis por esse colapso! 

Referências

[1] Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Coronavirus Disease 2019: Recommendations for cloth face covers. 2020 (https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/prevent-getting-sick/cloth-face-cover.html).

[2] European Centre for Disease Prevention and Control. Using face masks in the community. Stockholm: ECDC; 2020.

[3] Feng S, Shen C, Xia N, et al. Rational use of face masks in the COVID-19 pandemic. The Lancet Respiratory Medicine. 2020 (https://doi.org/10.1016/S2213-2600(20)30134-X).

[4] Dong E, Du H, Gardner L. An interactive web-based dashboard to track COVID-19 in real-time. The Lancet Infectious Diseases. 2020 (https://doi.org/10.1016/S1473-3099(20)30120-1).

[5] Leung NHL, Chu DKW, Shiu EYC. Respiratory virus shedding in exhaled breath and efficacy of face masks. Nature Medicine. 2020.

[6] Liu X, Zhang S. Covid-19: Face masks and human-to-human transmission. Influenza and Other Respiratory Viruses. 2020 (https://doi.org/10.1111/irv.12740).

[7] Worby CJ, Chang HH. Face mask use in the general population and optimal resource allocation during the Covid-19 pandemic. medRxiv. 2020 (https://doi.org/10.1101/2020.04.04.20052696).

[8] Li R, Pei S, Chen B, et alSubstantial undocumented infection facilitates the rapid dissemination of novel coronavirus (SARS-CoV2). Science. 2020 (10.1126/science.abb3221)

9. Day M. Covid-19: four fifths of cases are asymptomatic, China figures indicate. BMJ. 2020 (https://doi.org/10.1136/bmj.m1375).

10. van Doremalen N, Morris DH, Holbrook MG, et al. Aerosol and surface stability of SARS-CoV2 as compared with SARS-CoV-1. New England Journal of Medicine. 2020 (10.1056/NEJMc2004973