Música em tempos de pandemia: “Hoje trememos, amanhã estaremos bem”

Vai Ficar Fixe é o single de apresentação de gohu - heterónimo do publicitário português Hugo Veiga - e quer ser um antídoto para que o vírus não "contamine a nossa mente".

Há muito que Hugo Veiga se queria dedicar a um projecto musical. O publicitário português mais premiado internacionalmente - tendo arrecadado em 2013 um Leão de Ouro no festival de publicidade Cannes Lions com uma campanha viral da Dove  - teve a sua primeira experiência musical aos 16 anos, com um banda de grunge. O sonho musical foi sendo adiado, até este ano: aos 40 anos, Hugo Veiga tinha tudo preparado para lançar a 23 de Março o seu primeiro single. Mas a pandemia causada pelo novo coronavírus minou-lhe o caminho.

“O single chamava-se 'Tá Tudo Fixe' e falava de um Portugal incrível que as pessoas  não valorizavam. Já tinha o videoclipe gravado quando chegou a covid.” Hugo decidiu não adiar os planos, mas sim reformulá-los. Regravou a letra e adaptou-a aos tempos de uma pandemia à escala global. "O momento é grave, com um vírus desconhecido que ameaça profundamente a saúde, sociabilidade e economia. É vital seguir todos os cuidados para que o vírus não entre no nosso corpo, mas é igualmente fundamental não deixar que este contamine a nossa mente”, explica ao PÚBLICO. 

O publicitário, que vive há 15 anos no Brasil, está de quarentena nos arredores de São Paulo com a mulher e a filha de 1 ano e meio, e viu também a sua agência, a AKQA , que co-fundou em 2014 com Diego Machado, ser afectada: todos os trabalhadores entraram em teletrabalho e muitos projectos foram suspensos ou cancelados. A gestão da pandemia por parte do governo brasileiro deixa-o apreensivo: “Bolsonaro continua alheio à grave ameaça do vírus para a saúde pública, preocupando-se com questões económicas”, diz. “Se o rei já era cego e louco, agora vai nú”, afirma. E elogia a gestão portuguesa desta crise: “O meu desejo era que o Brasil tivesse um governo tão esclarecido e unido como o português”.  Acredita que  as medidas implementadas em Portugal terão um forte impacto económico mas “primeiro salvamos as pessoas, e depois focamos em reconstruir os danos causados”. 

Nesta sua primeira apresentação como compositor e cantor, Hugo Veiga conta com produção musical do brasileiro Emerson Martins da Bamba Music. O álbum só chegará em 2021, mas até lá, gohu - o heterónimo com que se apresenta (um “hugo às avessas”)  - promete lançar uma música a cada 40 dias. O 'Tá tudo Fixe' passou a 'Vai Ficar Fixe' e transformou-se numa música "carregada de positivismo e superação, em tempos de ansiedade e pessimismo”, explica Hugo Veiga. No videoclipe do tema que agora lança, gravado na região de Alcochete no início de Março, as estrelas são idosos - retratados em “postura bad ass”, personificando com humor o tal Portugal resiliente.

"O casting já tinha sido feito. Mas no contexto da nova música, eles ganharam ainda mais relevância”, explica Hugo. A letra que reescreveu espelha isso mesmo:  “Oi, os meus amigos querem um conselho? Não deixem a vida para depois. Mais vale a quarentena a dois que um ano a sós em bons lençóis”. As gravações acabariam por deixar retido em Portugal o realizador, o português Daniel Soares, que vive em Nova Iorque: “Um dia acordou com a notícia de que Trump ia impedir viagens da Europa".

O momento em que decidiu avançar em nome próprio veio revelar-se tumultuoso, com a indústria musical a ser uma das mais afectadas pela paralisação global causada pela pandemia. Hugo Veiga gostava que a sua música fosse um exemplo de como os artistas terão de se adaptar a esta nova realidade, “fazendo novas conjugações com os ingredientes que têm na mão”. Mas no tempo suspenso em que vivemos, também há espaço para a introspecção pessoal: “O mundo parou. Neste momento, muitas pessoas estão a reflectir sobre esta corrida de rato a que nos submetemos”, conta.

Em busca de igualar o  sucesso profissional com realização pessoal, o projecto gohu é ao mesmo tempo um “grito de libertação”, afirma.  E em tempos de pandemia, talvez seja também um grito de alento, como canta num dos versos: “Hoje trememos, amanhã estaremos bem”.

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