A casa das perguntas

Esta é a primeira conversa da nossa terceira memória, dedicada à globalização.

Passaram mais de 200 anos sobre a nossa última conversa. Estamos agora no dia 4 de Abril de 1571, uma quarta-feira no antigo calendário juliano. Damião de Góis tem 69 anos, é guarda-mor da Torre do Tombo, historiador do reino e autor da Crónica do Felicíssimo Rei Dom Manuel. Vive entre Alenquer, a sua terra natal, e Lisboa.

Hoje está em Lisboa e vieram uns homens prendê-lo. São comandados pelo corregedor do crime Diogo da Fonseca e, depois de o levarem, rapidamente o entregam a Gregório Veloso, alcaide do cárcere de Lisboa, provavelmente o mesmo cárcere de que ele próprio escrevera anos antes na Crónica de Dom Manuel: “cadeia do Limoeiro, obra muito magnífica, e sumptuosa, onde dantes fora a casa da moeda”. Ali passa a noite e no dia seguinte é apresentado à Inquisição de Lisboa.

“E lhe foi dito por eles senhores inquisidores que o estilo do Santo Ofício não era dizerem-se culpas a nenhuma pessoa, mas que lhe faziam saber que, primeiro que se prenda nenhuma pessoa, se bem examinam suas culpas; e, depois de bem vistas e examinadas, se manda prender. E o mesmo se fez no seu caso.”

Ou seja: a primeira coisa que é preciso saber quando alguém é apresentado aos inquisidores do Santo Ofício é que as suas acusações não lhe são lidas. O que é logo dito a Damião de Góis, seguindo a rotina habitual, é que se ele está preso é porque ele tem culpas. Por outro lado, estas culpas não lhe serão comunicadas, porque é a ele que lhe compete fazer um exame de consciência e saber que culpas são essas, para assim poder declará-las aos inquisidores.

Dessa forma os Inquisidores ficam a saber o que já sabiam, e ficam a saber o mais que o réu vier a declarar. Damião procura na sua memória o que poderia satisfazer os inquisidores, e para o fazer tem de recuar quarenta anos, até 1531.

Esta é a primeira conversa da nossa terceira memória, dedicada à globalização.

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