Martim Vicente lança EP ao vivo e celebra a Páscoa com música no Instagram

O cantor e compositor Martim Vicente lança um EP com regravações ao vivo e nesta Páscoa promove um encontro de celebração musical no Instagram, com convidados, nestes tempos de recolhimento obrigatório devido à covid-19.

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Martim Vicente DR

Muitos hão-de conhecê-lo do concurso televisivo Ídolos, onde ele acabou em segundo lugar na final em 2010. Mas Martim Vicente tem vindo a desenvolver, depois disso, uma carreira a solo que já deu lugar a um álbum, Caminho (2016), vários videoclipes e agora um EP baseado em regravações, com convidados e novos arranjos, de cinco temas do seu disco de estreia. Chama-se Caminho Live Session e chega agora às plataformas digitais, reunindo cinco temas que já tinham dado origem a outros tantos videoclipes.

As razões desta edição, explica Martim Vicente ao PÚBLICO, devem ao seu público: “Ao longo do tempo, e enquanto esses temas iam estando disponíveis no YouTube, as reacções foram muito boas. As pessoas mandavam-me mensagens a dizer ‘eu quero isto no meu telemóvel’ ou ‘eu quero isto no Spotify, como é que posso fazer?’ Então eu tive esta ideia de reunir e editar uma coisa que não se considerava editada, porque quando gravámos era um conjunto visual e áudio. Mas resultou muito bem só em áudio.”

Cinco músicas, cinco cenários

Os videoclipes, ainda acessíveis no YouTube, têm todos eles uma introdução, antes da música propriamente dita, onde Martim fala dos convidados ou dos lugares onde cada um foi filmado. O primeiro, Eram os teus olhos, em dueto com Carolina Deslandes, que já soma mais de 1,3 milhões de visualizações no Youtube, foi gravado na escola onde ele completou o Básico, a D. Francisco Manuel de Melo, na Amadora. “Fui lá, nostalgicamente, e fui mesmo para a minha sala de aula fazer a gravação.” No vídeo, Nelson Canoa está ao piano e Pedro Versteeg faz ilustrações no quadro, ao vivo.

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A capa do EP

O segundo tema, Eu gostava de ir um dia à Lua (com Pedro Pity, Nélson Canoa, Guilha Marinho e Vicky Marques) foi gravado no Planetário de Lisboa. “É um local de que eu tinha a imagem de algo mágico. Em pequeno fui lá duas vezes com a escola e lembro-me de ter ficado maravilhado com o que estava a acontecer. E é alusivo ao tema.”

Dia Só, com Dino d’Santiago mais um trio de fado composto por Ângelo Freire, Diogo Clemente e Marino Freitas, foi gravado no Clube de Fado. “Eu e o Dino somos amigos há já alguns anos, mas nunca tínhamos cantado juntos. Foi uma oportunidade, porque eu queria fazer um tema mais ligado à lusofonia, o Dino traz a parte mais africana e que representa também a minha parte africana do álbum, e aqui há também a parte muito portuguesa e muito ‘alma velha’ (que eu também, sou às vezes), ligada ao fado.”

O quarto tema, Meu amor de não amor, tem outro dueto, este com João Campos (voz), e conta com os músicos Nelson Canoa (piano) e Guilherme Rodrigues (violoncelo). Foi gravado no Salão do Conservatório de Música de Lisboa. “Estudei no Conservatório durante oito anos, durante grande parte da minha infância, e daí essa minha escolha. O violoncelista que toca neste tema foi meu colega no Conservatório nesses anos.”

O último tema do EP, que corresponde também ao último dos videoclipes a serem divulgados, é o que dá título aos dois discos: Caminho, só voz (a de Martim, a solo) e guitarra eléctrica (a de Guilha Marinho). Foi gravado num palacete da agência a que, no final do vídeo, há uma nota de agradecimento: a Partners. “É um palacete antigo na Rua do Borja. Eu conhecia o espaço, fiz a solicitação. É uma sala muito bonita, mas vazia. E como era o último tema, o mais íntimo e o mais pessoal, quis passar essa imagem.”

Sérgio, Zeca, Rui Veloso, Trovante

Nascido na Amadora, em 14 de Abril de 1989, a música sempre esteve presente na vida de Martim Vicente. “Frequentei o Conservatório até aos 18 anos, e a partir daí comecei a tentar fazer as minhas coisas. Tenho canções, no álbum Caminho, que escrevi quando tinha 17 ou 18 anos, ainda. Foi quando comecei a aventurar-me a tocar em alguns bares ou noutros lugares. Ainda não era uma carreira seguida, mas já era trabalho.”

Na infância, os seus gostos musicais foram muito influenciados pela sua irmã Marta, doze anos mais velha do que ele. “Era como uma segunda mãe para mim e era muito incisiva quanto às suas próprias referências e inspirações: Sérgio Godinho, Rui Veloso, Zeca Afonso, Trovante, tudo sempre muito ligado à música portuguesa. E não me deixava cantar nenhuma canção sem eu saber o que é que a canção dizia. Foi ela, sem dúvida, a grande responsável por eu me tornar um fã e uma pessoa muita ligada à música portuguesa e com muito respeito pelo conteúdo lírico da mesma.”

A candidatura ao Ídolos de 2010 não partiu dos pais. “Foi uma iniciativa minha, quase às escondidas. Sempre pedi opinião às pessoas que andam à minha volta, em quem confio e que amo, para tomar grandes decisões. Mas curiosamente a ida ao Ídolo foi uma decisão que eu tomei sozinho. Quis arriscar, foi um desafio para mim próprio.”

Já tinha pensado em participar em concursos do género mais novo, com 16 anos, mas só aos 21 decidiu mesmo para dar esse passo. “Sentia-me finalmente seguro, como músico, para ser desafiado, testado e avaliado.” Concorreu e ficou em segundo lugar na final.

África, uma paixão tardia

A partir daí, a imersão na música passou a ser maior e total. E hoje consegue viver da música como cantor e compositor, mas também professor. No Conservatório estudara guitarra clássica (“o meu instrumento de eleição”), dos 10 aos 18 anos, “impulsionado por um aluno de lá, um cantor lírico chamado Tiago Bastos”: “Era conhecido e amigo dos meus pais, começou a ouvir-me cantar e tocar em pequenino. Um dia falou com eles e disse-lhes que eu tinha imenso potencial e devia ir estudar música a sério.”

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Martim Vicente ao vivo DR

A experiência do Conservatório somada à dos Ídolos deu-lhe conhecimento e força para se lançar numa carreira a solo. E o resultado desse trabalho, que durou uns anos, foi o disco Caminhos, o seu primeiro, com produção musical de Diogo Clemente, produção de Nelson Canoa e participações de Ivan Lins, Carolina Deslandes, Marino de Freitas, Vicky Marques e Guilha Marinho, alguns dos quais participam também no novo EP.

A propósito do dueto com Dino d’Santiago, Martim Vicente falou na “parte africana” deste seu álbum, que é fruto de uma paixão tardia. “O meu gosto mais ligado à música africana vem muito depois. Eu sou mestiço, mas a parte africana da minha família [os avós maternos são de Angola e Moçambique] tem uma cultura muito sumida, porque a história deles em Portugal é muito antiga, de há muitos anos, e já são mais portugueses, ligados ao continente europeu do que ligados ao continente africano.”

Foi outro elo que ali o prendeu, por um acaso: “A minha descoberta deu-se quando o meu pai começou a trabalhar, e a viajar, para Cabo Verde e foi-me trazendo música de lá: Cesária Évora, Os Tubarões, Ildo Lobo. E comecei a ficar apaixonado pela música cabo-verdiana.”

Celebrar a Páscoa no Instagram

Neste tempo de recolhimento, devido às precauções com a covid-19, Martim Vicente já deu “concertos” à varanda, na onda de solidariedade que envolveu vários artistas. Esta Páscoa, por razões de fé (está ligado à Igreja Evangélica de Benfica), pensou noutra iniciativa:

“Foi um desejo, cristão, de poder dar ao mundo cristão português algum tempo de louvor a aproximação a Deus. Tenho falado, dentro da minha igreja, com os meus amigos, e tenho sentido que muita gente está triste e desanimada com a quantidade de rituais e tradições da Páscoa que agora não vão acontecer. Mas como sempre vivi a minha fé muito em espírito, e não em presença apenas, decidi reunir alguns artistas portugueses cristãos, convidando-os para dentro do meu Instagram, em directo, para cada um poder entoar uma canção, da sua autoria ou não, de louvor.”

Será uma hora ou hora e meia de transmissão, esta sexta-feira, a partir das 18h, na qual participarão, além de Martim Vicente, músicos como Samuel Úria, Enoque, Marcos Martins, Diana Castro, Luís Roquette, Ruben Alves, Paulo Raposo ou Matilde Cid.

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