CÉLULA APOPTÓTICA (A AZUL) INFECTADA COM PARTÍCULAS DO VÍRUS SARS-COV-2 (A VERMELHO)
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CÉLULA APOPTÓTICA (A AZUL) INFECTADA COM PARTÍCULAS DO VÍRUS SARS-COV-2 (A VERMELHO) NIAID

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“É um vírus, estúpido!”

O que usamos na cozinha para eliminar a gordura? Não usamos álcool, usamos simplesmente um detergente para desfazer a gordura. Eis a razão pela qual um sabão ou desengordurante é tão eficiente a eliminar os vírus das nossas mãos: simplesmente destrói o revestimento dos vírus.

Por estes dias em que todos vivemos uma situação extraordinária, um post no Facebook colocado por outra colega bióloga fez-me recordar como um maior conhecimento sobre Ciências Naturais (no geral) e Biologia (em particular) nos ajudaria, como sociedade, a melhor ultrapassar este momento (e outros, já agora…).

A noção que tenho é que a maioria dos alunos vê as aulas de Ciências Naturais como uma disciplina que dá muito trabalho, é preciso “marrar” muito, como se diz popularmente. A maioria quer, um dia, ser advogado, engenheiro, gestor, economista, etc. De que lhes serve aprenderem tanto sobre Ciências Naturais? Sobre o corpo humano, as relações entre os seres vivos e entre estes e o ambiente (a ecologia), enfim… sobre Biologia em geral?

É precisamente por sabermos tão pouco sobre estes temas que andamos, enquanto sociedade, a destruir, literalmente, o planeta. Se a maioria dos nossos decisores políticos tivesse um bom conhecimento sobre alguns destes temas da Biologia, não seria preciso tanto esforço para os convencer sobre os problemas da poluição, do aumento do dióxido de carbono na atmosfera, do aquecimento global, das alterações climáticas, etc.

Mas o que tem tudo isto a ver com a situação actual que vivemos? Neste momento ninguém está, naturalmente, preocupado com esta relação. No futuro, certamente alguém irá olhar para estes acontecimentos e quiçá provar uma possível relação causa efeito. Será que o excesso populacional em algumas zonas contribui para que estes casos pandémicos se tornem mais frequentes? Os vírus do tipo coronavírus existem naturalmente em animais. Mas será que sempre existiram? Será que a pressão que estamos a colocar no ambiente natural destes animais e a forma como os estamos a “explorar” está a possibilitar a ocorrência destes fenómenos?

Para já deixemos estas questões globais e vejamos como algum conhecimento simples em Biologia nos pode ajudar a perceber a base científica dos procedimentos que estão a ser repetidos até à exaustão: “Lavem as mãos com sabão”. Com sabão? A maior parte das pessoas sabe que o álcool é a forma mais natural de desinfecção — ou, em alternativa, a lixívia. Porque é que nos dizem agora que usar água e sabão é suficiente? Porque é um vírus, estúpido! Não é uma bactéria ou outro ser vivo dos que estamos mais habituados a ver como causadores de doenças.

O que se passa, e não ouvi ainda ninguém explicar isto, é que os vírus não são verdadeiros seres vivos, isto é, não são seres que nascem, crescem, se reproduzem e morrem. A expressão já ouvida, que este é um vírus “inteligente”, não significa que tenha cabeça e cérebro pensante.

A verdade é que são entidades (vamos chamar-lhe assim) que não têm capacidade de se multiplicar e sobreviver fora das células. São como parasitas, apenas capazes de existir e se reproduzir quando estão no interior das células hospedeiras. Fora dos hospedeiros não se multiplicam e a sua capacidade de sobreviver de forma viável é limitada.

Os vírus são apenas constituídos por material genético revestido por um envelope simples, semelhante, em certa medida, à membrana de revestimento (membrana plasmática) que existe em todas as células animais. No seu exterior têm, depois, algumas proteínas. Nos esquemas que circulam, surgem com umas formas mais ou menos “fofinhas”. Mas, neste momento, o mais importante para a nossa explicação é o tal envelope ou membrana de revestimento.

Esta membrana é formada por uma dupla camada de fosfolípidos. Como o próprio nome indica, fosfolípidos são moléculas formadas por um grupo fosfato e uma parte lipídica (hidrofóbica), que nós conhecemos por gordura. Chegaram lá? Gordura, sabão, detergente? Isso mesmo.

O que usamos na cozinha para eliminar a gordura? Não usamos álcool, usamos simplesmente um detergente para desfazer a gordura. Eis a razão pela qual um sabão ou desengordurante é tão eficiente a eliminar os vírus das nossas mãos: simplesmente destrói o revestimento dos vírus.

Isto deixa de ser verdade para outro tipo de seres vivos patogénicos, como as bactérias, porque estas, além da tal membrana citoplasmática, têm outras camadas de protecção que protegem da acção do sabão. Aí entram outros tipos de desinfectantes, como o álcool. É também por serem agentes infecciosos que, biologicamente, não têm nada a ver com outros agentes infecciosos, como as bactérias, por exemplo, que os antibióticos não fazem rigorosamente nada aos vírus. Mas isso fica para outra aula.

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