Torne-se perito Opinião

A mulher, o trabalho doméstico e a pandemia

As medidas de bloqueio adotadas pela maioria dos países para conter a disseminação da covid-19, embora necessárias, têm graves consequências para milhares de mulheres que vivem em relacionamentos abusivos.

A divisão sexual do trabalho, ainda que tenha derivado em mudanças nas estruturas familiares, não oculta que os cuidados e as preocupações de ordem doméstica sempre foram o destino da mulher. Em tempos de pandemia, enquanto muitas mulheres ainda se arriscam em trabalhos precários, outras estão a ter que trabalhar em casa ao mesmo tempo que têm de cuidar das crianças e do trabalho doméstico. Esta situação reacende a urgência de reavivarmos o debate sobre como as sociedades capitalistas se estabeleceram como herança das sociedades patriarcais. Ainda que o patriarcado seja muito anterior ao capitalismo, este assumiu ao longo da história diferentes facetas.

As lutas que permitiram a inserção da mulher no trabalho assalariado, bem como o crescimento da sua participação política, encontram seus limites ao estruturarem-se dentro de um sistema que desde sua conceção está corrompido. Vários canais de entretenimento e redes sociais estão repletas de imagens de mulheres a fazerem exercícios (ginásio em casa) e tutoriais de maquilhagem em live streaming, refletindo as obrigações estéticas do ideal do “ser feminino”, ainda que estas sejam parte do discurso hegemónico e que ocultem a realidade da maior parte da classe trabalhadora feminina.

Entre malabarismos tentam dar conta das atividades escolares dos filhos, dos trabalhos domésticos e atividade profissional. As suas vidas nunca foram mais sobrecarregadas. Encarar os privilégios mesmo em tempos de pandemia é fundamental: uma casa abastecida de comida, medicamentos, disposta para trabalho remoto, não é a realidade da maioria das mulheres. Como expõe o teórico David Harvey: “o progresso da covid-19 tem todas as características de uma pandemia classista, genderizada e racializada.” Esta afirmação não difere muito do que alertava Alexandra Kollotai, quando ainda no início do século XX defendia que o discurso que iguala abstratamente realidades, esconde uma carga tripla insuportável que com frequência é expressa com gritos silenciados e lágrimas.

A ideia de uma família nuclear estruturada, esconde que a maior parte das famílias são lideradas por mulheres sozinhas sobrecarregadas, ou por mulheres que sofrem com violência doméstica – além da violência psicológica generalizada de uma sociedade que exige que, por exemplo, exerçam sua maternidade sem demonstração de cansaço, enquanto sorriem e produzem. Assim, são socialmente penalizadas de uma maneira ou de outra. A situação que a pandemia escancara, apenas deixa evidente uma realidade bastante recorrente - a de que de um ponto de vista social ainda existem poucas redes para partilhar o cuidado.

Nesse sentido as medidas de bloqueio adotadas pela maioria dos países para conter a disseminação da covid-19, embora necessárias, têm graves consequências para milhares de mulheres que vivem em relacionamentos abusivos. Relatos de violência doméstica têm tido um aumento crescente durante a pandemia.

Forçadas a ficar em ambientes fechados com parceiros ou familiares violentos, as mulheres estão agora ainda mais expostas ao abuso doméstico. Essa realidade torna-se ainda mais preocupante num contexto em que anos de neoliberalismo reduziram drasticamente fundos de abrigos e serviços anti-violência. Por isso, Tithi Bhattacharya em conjunto com outras teóricas feministas, defende que é urgente que os governos forneçam os recursos que as agências precisam para operar e divulgar amplamente suas linhas de apoio. Esta exigência é endossada por Tedros Adhanom (diretor geral da OMS), que em recente pronunciamento apelou aos países que reforcem as medidas de combate a violência doméstica. Em Portugal, o SIVVD continua a funcionar e foi lançada uma campanha pela comissão para cidadania e igualdade de género CIG, além de outras plataformas como a UMAR e rede 8 de março que têm se empenhado em informar e fornecer amparo as vítimas.  

Apesar de existir um discurso conveniente de que as pandemias não escolhem classe, ou barreiras sociais, os efeitos sociais de classe contam uma história diferente. Os impactos económicos e sociais são filtrados através de discriminações bastante comuns.

          

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