Bernie Sanders desiste das primárias do Partido Democrata e vai apoiar Joe Biden

Senador do Vermont admite que a sua campanha deixou de ter possibilidades de êxito. Vai permanecer nos boletins de voto, mas só para “influenciar” o programa político do partido.

,Campanha presidencial de Bernie Sanders, 2016
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Reuters/Caleb Kenna

O senador norte-americano Bernie Sanders, que chegou a ser o favorito à nomeação como candidato do Partido Democrata às eleições presidenciais deste ano nos Estados Unidos, anunciou esta quarta-feira que vai suspender a sua campanha nas primárias. A decisão, que era esperada há algumas semanas, deixa o caminho livre a Joe Biden para enfrentar Donald Trump em Novembro.

Numa declaração em vídeo, feita em directo através do site da sua campanha, Sanders reconheceu que as derrotas nas eleições primárias em Março, em estados como a Carolina do Sul, a Florida e o Michigan, fecharam-lhe as portas à nomeação.

Depois disso, as acções públicas da campanha foram suspensas por causa da pandemia do novo coronavírus, e vários estados adiaram as suas eleições primárias e mudaram o sistema para votação por correspondência. A excepção foi o Wisconsin, que manteve a votação presencial na terça-feira, e cujos resultados só vão ser conhecidos na próxima segunda-feira.

Partido mais à esquerda

“O caminho para a vitória é virtualmente impossível”, disse o senador do Vermont esta quarta-feira, quase um mês depois de ter decidido manter-se na corrida apesar de ter vencido apenas uma das cinco eleições realizadas no dia 10 de Março

“Concluí que a batalha pela nomeação do Partido Democrata não vai ter sucesso. Por isso, anuncio hoje a suspensão da minha campanha”, disse Sanders.

O senador do estado do Vermont, de 78 anos, explicou que vai permanecer nos boletins de voto até ao fim das eleições primárias, ainda que tenha desistido de contestar a mais do que certa vitória do antigo vice-presidente dos Estados Unidos Joe Biden, de 77 anos. O objectivo declarado de Sanders é “somar o maior número possível de delegados até à convenção para influenciar o programa político do Partido Democrata”.

Tal como aconteceu nas primárias de 2016, quando perdeu a nomeação para a antiga secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton, Sanders terá mais poder de influência para encostar o Partido Democrata à esquerda quanto mais delegados tiver ao seu lado na reunião magna do partido. A diferença é que há quatro anos, o senador não desistiu da corrida quando já se percebia que não ia ser o nomeado, e só declarou o seu apoio a Clinton durante a convenção.

Na comunicação aos seus apoiantes, esta quarta-feira, Sanders fez um resumo das batalhas que o motivaram a concorrer à Presidência dos Estados Unidos, tanto em 2016 como em 2020.

Da defesa do acesso universal aos cuidados de saúde, às suas propostas ambiciosas no combate às alterações climáticas, as duas campanhas eleitorais de Sanders contribuíram para que o programa político do Partido Democrata se tornasse mais progressista do que nos tempos de Barack Obama.

Foi também por isso que a candidatura deste ano se revelou menos distintiva do que em 2016, quando as suas propostas foram ainda menos bem aceites pelo establishment do Partido Democrata.

Nas eleições primárias deste ano, candidatos como Elizabeth Warren, Julián Castro, Kamala Harris ou mesmo Cory Booker apresentaram algumas propostas semelhantes às de Bernie Sanders, principalmente nas áreas da saúde e da educação – o que foi não só uma demonstração da influência de Sanders desde 2016, como um novo obstáculo no caminho do senador do Vermont para unir toda a ala progressista do partido.

"Trabalhar” com Joe Biden

O anúncio da desistência de Sanders – ou, para se ser mais preciso, a suspensão da campanha permanecendo nos boletins de voto sem questionar a nomeação de Joe Biden – não foi uma notícia inesperada. Mas havia a curiosidade de se ouvir da boca do senador a promessa de que apoiará a campanha de Biden contra Donald Trump.

Sanders confirmou que sim, que está disposto a “trabalhar em conjunto” com Joe Biden para derrotar “o mais perigoso Presidente da história moderna dos Estados Unidos”, e sublinhou que não fazer isso num momento de crise não faria sentido, numa justificação dirigida aos seus apoiantes mais fervorosos, que gostariam de o ver na corrida até ao fim.

“Em consciência, não posso continuar a fazer uma campanha que não pode ser vencedora e que iria interferir com o importante trabalho que é exigido de todos nós”, disse o senador norte-americano.

Falta agora saber quando é que Biden será oficialmente nomeado candidato do Partido Democrata às presidenciais, o que só pode acontecer após a contagem dos votos dos delegados presentes na convenção nacional.

Essa reunião, que costuma juntar milhares de pessoas num pavilhão durante quatro dias consecutivos, foi adiada de Julho para meados de Agosto por causa da pandemia. Mas ninguém sabe se vai mesmo realizar-se na nova data, nem se vai decorrer por videoconferência, por exemplo.

O que se sabe é que, enquanto os delegados não se reunirem, seja de que forma for, Biden não poderá usar os fundos do partido para a campanha presidencial, e Trump continuará sem um adversário oficial.

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