Se a pandemia é uma guerra, a máquina de costura é uma arma

Por estes dias, na fábrica de Natália Guerreiro, no Barreiro, as rotinas são muito diferentes: o chão tem de ser lavado com lixívia de 3 em 3 horas e as máquinas de costura desinfectadas de meia em meia hora, assim com as mãos dos trabalhadores. Há mais de uma semana que as trabalhadoras de uma fábrica de malas, carteiras e cintos de cortiça estão a fazer, voluntariamente, material de protecção para os hospitais Garcia de Orta, em Almada, e para o Centro Hospitalar do Barreiro. "Temos feito cógulas (protecção para a cabeça e pescoço), perneiras e batas. As cógulas podem ter uma segunda utilização, mas as perneiras e batas apenas uma".

Quando Natália Guerreiro se cruzou nas redes sociais com um pedido de costureiras para ajudar a produzir materiais de protecção para centros hospitalares perguntou às trabalhadoras se se queriam juntar a ela. Trabalhadoras que tinha sido obrigada a mandar para casa dias antes. “Infelizmente tivemos de dispensar quem estava a terminar contrato e entrar em lay-off”, explica Natália Guerreiro. A Corkor empregava 16 pessoas e exportava quase 100% da sua produção. De um dia para o outro, as encomendas pararam. 

As trabalhadoras responderam positivamente ao apelo de voluntariado. Numa semana apenas, produziram 62 batas, 500 cógulas e 200 perneiras. Todos os dias, cerca de sete costureiras trabalham nas suas máquinas de costura, “às vezes com menos intervalos do que se fosse no trabalho normal”, conta Natália. A fábrica serve ainda de apoio a costureiras do concelho que, a partir das suas casas, estão também a produzir os  materiais de protecção.

Ana Pimpista é uma delas. A modista de 31 anos, que juntamente com Inês Batista gerem o atelier Oficina, nos Anjos, em Lisboa, tem costurado cógulas a partir da sua sala de estar. O tecido - que está a ser fornecido quer pelo próprio Hospital Garcia de Orta, quer pela Câmara Municipal do Barreiro - é cortado na fábrica de Natália, que disponibilizou a máquina de corte industrial das suas instalações. Também o atelier de Ana fechou portas e as aulas de costura que dão e muitas encomendas - roupa feita por medida para casamentos ou bailes de finalistas - estão paradas. 

Da Câmara Municipal do Barreiro, Natália Guerreiro já recebeu 1250 metros do tecido necessário para o fabrico destes artigos - o TNT, tecido não tecido - que vai sendo cada vez mais difícil de encontrar. “Estamos a tentar adquirir mais para continuarmos a ter stock”, avança Frederico Rosa, presidente da Câmara Municipal do Barreiro. Para além de entregarem os artigos produzidos no Centro Hospitalar, estão também a distribuí-los em lares e quartéis de bombeiros.

“Neste momento a pergunta é: qual é a cor do tecido?”, diz-nos Natália. Têm trabalhado com tecido branco e cinza, mas em caso de necessidade vão utilizar o que houver no mercado. “Venha o vermelho, o preto, o roxo. Qual é a cor da sobrevivência?".

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