Justiça norte-americana acusa FIFA de corrupção na atribuição de Mundiais

Pela primeira vez, um documento oficial de um órgão de justiça de um país acusa membros da FIFA de receberam subornos na atribuição dos Campeonatos do Mundo de 2018 e 2022.

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Reuters/Arnd Wiegmann

As suspeitas têm quase uma década, mas, pela primeira vez, um documento oficial de um órgão de justiça de um país acusa dirigentes da FIFA de receberam subornos para que votassem favoravelmente à atribuição dos Campeonatos do Mundo de futebol de 2018 à Rússia, e de 2022 ao Qatar. No que pode ser um ponto de viragem numa já longa investigação do FBI sobre alegações de corrupção no futebol, a justiça norte-americana revelou novos detalhes de supostos subornos pagos aos membros do comité executivo da FIFA, acusando dirigentes do organismo presidido pelo ítalo-suíço Gianni infantino de terem sido corrompidos nas votações para eleger as sedes do Mundial de 2018 e de 2022. A denúncia, no entanto, não refere a origem dos subornos.

A história tem vários capítulos e começou imediatamente após o comité executivo da FIFA atribuir a 2 de Dezembro de 2010, em Zurique, o Mundial de 2018 à Rússia. Após a vitória dos russos, que superaram a concorrência da Inglaterra e de duas candidaturas conjuntas (Portugal/Espanha e Bélgica/Holanda), surgiram na imprensa britânica acusações de corrupção, prontamente rebatidas por Vladimir Putin, que as classificou de “inaceitáveis” e “sem fundamento.”

Apesar das palavras do actual presidente da Rússia e de o Mundial 2018 ter sido considerado “um sucesso”, a atribuição da organização da competição ao Kremlin foi um processo que deixou muitas dúvidas, e, com a FIFA envolvida em vários casos de corrupção na última década, foram surgindo investigações independentes, como o “Relatório Garcia”, conduzido por Michael Garcia, um procurador norte-americano independente que investigou a forma como decorreram os processos eleitorais que atribuíram os Mundiais à Rússia e ao Qatar.

Mesmo com vários indícios de irregularidades graves e apesar de, por exemplo, no final do ano passado, a revista Der Spiegel ter publicado um artigo onde o alemão Franz Beckenbauer era acusado de ter oferecido à Rússia o seu voto a troco de três milhões de euros, acrescido de 1,5 milhões em caso de sucesso, as desconfianças e acusações ficaram sempre por provar.

Porém, a cerca de dois anos e meio do jogo de abertura do Mundial do Qatar, a justiça norte-americana expõe pela primeira vez em detalhe como a alegada corrupção foi conduzida. O departamento de Justiça dos Estados Unidos tornou público um novo documento no “caso FIFA”, considerada a maior investigação da história sobre corrupção no futebol, onde surgem três nomes, bem como uma sociedade.

Segundo a acusação de Richard Donoghue, procurador de Brooklyn, no estado de Nova Iorque, Jack Warner, antigo presidente da CONCACAF (Confederação de futebol da América do Norte, Central e Caraíbas), terá recebido cinco milhões de dólares (cerca de 4,59 milhões de euros) para votar favoravelmente na candidatura da Rússia. De acordo com o documento agora revelado, o pagamento ao então vice-presidente da FIFA, foi feito através de uma rede complexa de intermediação de empresas, numa acusação que inclui também Rafael Salguero, que foi presidente da Federação de futebol da Guatemala e membro do comité executivo da FIFA. Salguero é acusado de ter recebido um milhão de dólares (cerca de 920 mil euros), em troca do seu voto.

Para além da candidatura russa, a acusação da procuradoria de Brooklyn atinge também o Qatar, acusado de ter subornado membros da FIFA em troca de votos na candidatura catari à organização do Mundial 2022. Entre os visados pela justiça norte-americana, está Ricardo Teixeira, antigo presidente da federação brasileira de futebol, e Nicolas Leoz, ex-presidente da CONMEBOL (Confederação sul-americana), falecido em Agosto de 2019.

Para além dos três dirigentes, a investigação tem também no ponto de mira a multinacional norte-americana 21st Century Fox, que através dos seus executivos Hernan Lopez e Carlos Martinez terá feito pagamentos à CONMEBOL para a obtenção de direitos televisivos dos Mundiais.

Numa reacção à acusação, William F. Sweeney, vice-director do FBI, lembrou que “ as primeiras acusações públicas datam de 2015” e que “a especulação e o suborno são práticas profundas e comummente conhecidas no futebol internacional há décadas”, garantiu que a polícia federal norte-americana continuará a investigar e deixou um recado “a todos que ainda esperam ganhar milhões de forma corrupta”: “Vamos encontrar-vos.”

Do lado dos acusados, a resposta surgiu da Rússia. Orgulhoso por o seu país ter organizado “o melhor Mundial da história”, Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, disse não entender “do que se está a falar”. “A Rússia obteve o direito de acolher o Campeonato do Mundo de uma forma absolutamente legal. Não houve suborno algum. Negamos isso categoricamente.”

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