Obrigado aos meus vizinhos

Quando estamos em isolamento em casa, por doença ou precaução, de alguma maneira, passamos a estar atentos a outras formas de ver, de ouvir e de sentir – os nossos vizinhos. Estando mais afastado, pude estar mais perto.

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Yuliya Kosolapova/Unsplash

Vivo num terceiro andar de um prédio com mais quatro apartamentos para além do meu, na baixa do Porto. Eu já conhecia a Luana e a sua família recém-chegada do Brasil, do primeiro andar de trás, assim como o senhor Salvador e a senhora Augusta, do primeiro andar da frente, que gentilmente sempre recebem as minhas encomendas quando não estou em casa. Também conheço a Dona Margarida do segundo andar frente, por quem passo de manhã, pelas 7h30, na escadaria do prédio, e a Luísa, que vive no segundo andar de trás, com quem cruzo lugar de estacionamento na garagem. Eu pensava já saber quem eram os meus vizinhos, mas só na semana passada é que os conheci.

Tendo a oportunidade de trabalhar a partir de casa, estou no terceiro andar, nas águas furtadas do nosso prédio, desde segunda-feira, 16 de Março, dia em que a escola e a faculdade onde presto serviço encerraram. Estando em casa desde então, deixei de ver a família da Luana, parei de conviver com o senhor Salvador e com a senhora Augusta, não voltei a cruzar-me com a Dona Margarida, nem com a Luísa. As minhas rotinas com os meus vizinhos pararam. Gradualmente, fui afastando-me cada vez mais deles. Ou assim eu pensava. Quando estamos em isolamento em casa, por doença ou precaução, de alguma maneira, passamos a estar atentos a outras formas de ver, de ouvir e de sentir – os nossos vizinhos. Estando mais afastado, pude estar mais perto.

O primeiro andar de trás tem um pátio que, da minha janela, sempre pareceu ser pouco usado. Nos últimos dias tenho visto a Luana, a sua filha e toda a sua família a brincar e a cantar ao som de bossa nova e samba. Divertidos, bem-dispostos e comunicativos, fizeram-me dançar junto da janela da minha cozinha. Não me lembro de alguma vez o ter feito.

O senhor Salvador e a senhora Augusta fecharam a loja que têm aqui junto do nosso prédio. Saem pouco à rua, mas não deixaram de me dizer quando me viram na escadaria: “Se precisares de alguma coisa diz, como estás sozinho nós podemos ajudar-te.” Espontaneamente queria abraçar, mas afastado tive de agradecer.

A Dona Margarida, pela primeira vez, tocou-me à campainha e pediu desculpa por incomodar. Eu agradeci que tivesse subido um andar e ficámos a conversar sobre quais são os melhores planos de tv+telefone+internet. Mesmo sabendo que não era esse o assunto que interessava, ficámos a conversar.

Mais próxima da minha idade é a Luísa, que também vive sozinha. Deixou um bilhete debaixo da minha porta, no qual escreveu que tinha muitos ovos frescos e que, para não estragar, deixava meia dúzia para mim, junto com o seu número de telemóvel para conversarmos. Desde então, temos trocado mensagens de bom dia, perguntamos se está tudo bem e rimos sobre estarmos sempre de pijama.

Só nesta semana é que pude conhecer os meus vizinhos. À distância do terceiro para o primeiro andar, pela primeira vez, dancei com a Luana e a sua família. Sabendo já da gentileza que caracteriza o senhor Salvador e a senhora Augusta, penso, pela primeira vez, tê-los feito sentir o mesmo. Com a Dona Margarida, com quem um bom dia era tudo o que partilhava, tivemos a nossa primeira conversa e serenei-a sobre a sua filha que vive longe. A Luísa, com os seus ovos frescos, fez-me perguntar o que já suspeitava. Sim, ela é pasteleira e estou agora à espera que suba ao terceiro andar e toque à campainha com uma fatia de bolo. Obrigado!

André Freitas, juntamente com a Luana, o senhor Salvador e a senhora Augusta, a Dona Margarida e a Luísa.