Opinião

Que não haja terceiro período presencial

O primeiro-ministro quer mesmo deitar a perder estes dois meses de quarentena social em troca de uns exames?

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Daniel Rocha

Estamos perante uma pandemia que jamais imaginámos que, primeiro chegaria à Europa, segundo pararia a Europa, colocando milhões de pessoas confinadas às próprias casas.

É uma situação inesperada para todos, mas que nos obriga e mudar paradigmas sociais, nomeadamente, na Educação.

Eu, que acompanho de perto a situação italiana, por questões familiares, vinha alertando para a possível hecatombe social se as escolas não fechassem rapidamente, como escrevi aqui. Ainda assim, as escolas mantiveram-se abertas até dia 13 de março, praticamente 11 dias depois do primeiro caso de covid-19.

Este fecho generalizado acontece depois de alguns colégios, por iniciativa própria, e algumas escolas públicas, por indicação dos respetivos delegados de saúde, terem fechado. Com isso começou-se a generalizar o medo de deixar os alunos nas escolas. Na última semana de escola aberta sentiu-se uma enorme quebra de presença de alunos. As escolas acabariam por fechar, por decreto, a 16 de março.

Os estabelecimentos de ensino, como é do conhecimento de todos, seriam um foco muito grande de propagação do vírus, até porque, com o conhecimento que temos, as crianças são muitas vezes portadoras assintomáticas.

Acabou-se por colocar mais de um milhão de alunos em casa, sem que existisse um plano para que continuasse a ser acompanhado. Os professores tentaram, de todas as formas possíveis e imaginárias, colmatar esta emergência para que o segundo período, agora à distância, fosse concluído com êxito. E foi, na grande maioria dos casos, foi!

Durante as últimas duas semanas de aulas generalizou-se uma preocupação na classe docente: Como será o terceiro período? Sabemos que terá de acontecer, mas como?

Os agrupamentos de escolas, depois de reuniões com a tutela e da leitura atenta dos documentos elaborados, têm feito um enorme esforço para tentar perceber a realidade, ao pormenor, da sua população discente de maneira a conseguir chegar a toda.

Sem querer desmoralizar, o terceiro período não vai ser igual para todos. António Costa aponta o dia 4 de maio como sendo o limite para o reinício da escola de forma presencial apenas para alunos do secundário, 10.º, 11.º e 12.º anos, com contingências específicas. Esta ideia de ser só o secundário, que nasce por causa das médias e dos exames de acesso ao ensino superior, até pode parecer ponderada e exequível. Mas não é!

Em primeiro lugar porque as rotinas de higiene, que até dia 13 de março eram umas, sofreram uma enorme alteração: lavagem constante de mãos em meio escolar é uma utopia; distanciamento social em meio escolar, seja entre pares seja com os professores, é outra utopia; logo, rapidamente estes alunos se podem tornar armas químicas — todos sabemos que esses alunos, à volta dos 350 mil (segundo dados do Pordata), não vivem sozinhos, mas com pais, irmãos, alguns até com avós, pois os agregados familiares portugueses são muito variados.

Reabrir as escolas em maio, altura em que poderemos estar a entrar no pico do surto poderá significar um atraso significativo na descida ou mesmo um regresso à subida exponencial. Queremos arriscar?

O que está em causa são os exames nacionais, dir-me-ão vocês, pelo que apenas os alunos do 11.º e 12.º anos devem frequentar! Não concordo, por tudo aquilo que disse anteriormente e acrescento que esses alunos, que têm uma média de idades de 18 anos, não têm maturidade suficiente para carregar esta responsabilidade de serem os únicos a frequentar as escolas.

Todos já tivemos 18 anos, aos 18 somos todos imortais! Os professores do secundário e os próprios pais já vieram dizer que estão a favor de um adiamento de exames, porque já perceberam que a prioridade é a saúde pública.

O primeiro-ministro quer mesmo deitar a perder estes dois meses de quarentena social em troca de uns exames?

Sabemos da sua importância mas, desculpem-me, não são prioritários, põem em causa a saúde pública e podem ser feitos em setembro! Numa altura em que, esperamos todos, já haja, se não vacina, pelo menos medicação que ajude a que o Serviço Nacional de Saúde não entre em ruptura.

Vai ser um final de ano diferente para todos, sem exceção, mas creio que preferimos todos estar cá para contar a história do que arriscar!

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